Gorki: "Duas Civilizações"

24/07/2020

 

A história sempre e em qualquer lugar treinou o homem rural e urbano como dois tipos psicológicos inteiramente diferentes, e essa diferença aprofunda-se cada vez mais, já que a cidade dispara em frente com a velocidade de Aquiles, e a aldeia é tão lenta quanto a tartaruga. 

 

O habitante da aldeia é uma criatura predominantemente zoológica, um ser que obtém seu pão trabalhando duro como um escravo desde os primeiros dias da primavera até o fim do outono, para poder vender a grande parte deste pão e comer a menor parte nos dias frios e malditos do inverno.

 

Sem dúvidas, “a vida de ouro dos gloriosos campos” é amável no verão – mas no outono, a terra nua, despida de sua vida dourada, novamente reclama o trabalho escravo, novamente drena de forma infrutífera a força do homem. 

 

Este homem é escravizado até o fim, interior e exteriormente, pelas forças da natureza – ele não luta contra elas, mas meramente adapta-se a elas. Os resultados breves de seu trabalho não podem e nem conseguem o inspirar com auto-respeito, com respeito à sua própria força criativa. Todo o trabalho de suas mãos, a terra conhece apenas uma pilha de palha, e uma cabana escura e fechada. 

 

O trabalho do campesino é difícil além da medição, e essa dificuldade junto com a futilidade de seus resultados, particularmente – e perfeitamente natural – aprofunda o instinto obscuro de propriedade na alma do camponês e o faz quase intangível. Este instinto é quase inacessível  à influência deste ensinamento, no qual conta com a propriedade, e não com o gracejo ou o Demônio e Eva nas custas da tolice de Adão para ser o pecado original do homem.

 

Quando ouço da civilização “burguesa”, tenho que pensar na civilização da aldeia, - se alguém pode  unir ambas noções de aldeia e civilização, quase incompatíveis em suas essências espirituais. A Civilização é o processo de criação de ideias, sua encarnação na forma de livros, máquinas, instrumentos científicos, fotografias, construções, monumentos, - na forma de diversos objetos que, nas cristalizações de ideias, servem para acordar outros para a vida e incrementar na quantidade, propagação em círculos concêntricos, abrangendo uma esfera ainda mais ampla, procurando apreender e descobrir as causas secretas de todos os seus fenômenos. Tal civilização não é levada adiante pela aldeia, a aldeia coloca monumentos apenas na forma de palavras – na forma de contos e canções, e ditados. Sim, as canções tristonhas da aldeia são muito tocantes, seu lirismo melancólico poderia, alguém poderia pensar, capaz de mover uma pedra – e ainda, pedras não são movidas por canções, muito menos homens.

 

Certamente há muita poesia triste na aldeia – que frequentemente nos leva a erros sentimentais, porém, a prosa, a prosa ainda animálica-épica da aldeia está no seu ser e em suas dimensões incomensuravelmente, mais significativa. O idílio da aldeia recua e some antes do drama da vida cotidiana dos camponeses.

 

Comparado com a psicologia moribunda na velha aldeia, a burguesia urbana em um certo estágio aparenta como a mais preciosa força criativa, como um ácido forte capaz de dissolver o aparente indulgente, na realidade com alma de ferro do muzhik (camponês russo). A ignorância e o atraso da aldeia pode ser conquistada apenas pela ciência e pelo cultivo socialista em larga escala. Um número espetacular de máquinas agrícolas deve ser manufaturado – apenas estes podem convencer os muzhiks que a propriedade é uma corrente que os prende como uma fera; que é danoso ao espírito, que o trabalho sem propósito é improdutivo e que apenas a razão, disciplinada pela ciência e abençoada pela arte pode ser um guia honroso na estrada para a liberdade e felicidade.

 

O trabalho do povo da cidade é maravilhosamente variado, monumental, perpétuo.  De um amontoado de solo, queimados até tijolos, o povo da cidade constrói palácios e igrejas, de pedaços amorfos de minério de ferro ele cria máquinas assombrosamente complexas. Ele já sujeitou as forças da natureza para seus objetivos maiores, elas o serve, como os gênios dos contos de fadas Orientais servem o feiticeiro que os encantam pela força de sua mente. O morador da cidade criou uma atmosfera de razão ao redor de si, ele constantemente vê sua própria vontade em uma variedade de coisas divinas, em milhares de livros e imagens, onde por caneta e pincel os grandes tormentos de sua alma, seus sonhos e esperanças, seu amor e ódio são fixados para sempre, - sua alma sem limites inquestionavelmente ardendo com a sede de novas ideias, novos feitos, novas formas.

 

Mesmo quando é politicamente um escravo, o homem da cidade ainda é interiormente livre e é pela força desta liberdade interna que ele destrói e constrói novamente as formas da vida social.

 

Homem de ação, ele criou para si mesmo uma vida angustiante, cheia de vício – mas também de beleza. Ele é a fonte de todas as enfermidades sociais e corrupção, o criador da crueldade, hipocrisia e fraude, porém – ele dessa forma cria o microscópio, que permite-o ver com tamanha clareza o movimento mínimo de seu espírito eternamente insatisfeito. Ele foi educado em seu círculo com os feiticeiros da ciência, arte e técnica – feiticeiros e sábios que incansavelmente fortalecem e desenvolvem estas bases da civilização.

 

Um grande pecador diante seu vizinho e, talvez, ainda um maior diante de si mesmo, ele é o mártir de suas próprias aspirações, que, matando seu criador, traz sempre novas alegrias e tormentos do ser. 

 

Seu espírito é como o Assuero amaldiçoado, - ele sempre vaga em um espírito ilimitado, em algum lugar do coração do Cosmos,  até os desertos do universo que ele se encontra para, talvez, substituí-lo com as emanações de sua energia, criando o que é irrealizável para as concepções atuais da razão. 

 

Para a inteligência, o desenvolvimento da civilização é importante em si, sem respeito a seus resultados, pois a inteligência em si é antes de tudo uma aparição da civilização, o fenômeno mais complexo e misterioso da natureza, o órgão de seu auto-reconhecimento. 

 

Para os instintos, apenas os resultados utilitários da civilização são de importância - apenas o que aumenta o bem-estar externo, mesmo que seja uma humilhante mentira. 

 

Por essa razão que, agora, quando os instintos despertados da aldeia devem infalivelmente entrar na luta com as forças intelectuais da cidade, quando a civilização da cidade – o fruto da atividade de centenas de anos do princípio intelectual (que também inclui o operário da fábrica) está em perigo de ser destruído ou impedido em seu processo de desenvolvimento, - agora, estes elementos intelectuais devem revisar sua atitude usual em relação à aldeia. 

 

Um “povo” não existe – apenas classes existem. A classe trabalhadora até agora foi a criadora de valores materiais – agora deseja tomar parte ativa no trabalho espiritual e intelectual. A maioria das massas rurais esforçam-se de todas as formas fortalecer sua posição de proprietários de terra – eles não revelam quaisquer outras aspirações.

 

Tal e mesma tarefa paira diante dos intelectuais de todos os países e de todo o mundo: dar energia para essa classe, que garanta o desenvolvimento do processo da civilização por suas qualidades psíquicas e que seja totalmente capaz de acelerar o tempo desse processo. 

 

Escrito por Máximo Gorki

 

Publicado originalmente em A Internacional Comunista, Junho de 1919, Nº 2, pp. 175-178

 

Traduzido pela Equipe de Traduções da Nova Cultura

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