Os planos anexionistas de Israel e a luta da nação palestina

10/07/2020

 

Nem mesmo durante a pandemia o sionismo israelense parece buscar alguma trégua em seu plano de extermínio do povo palestino, colonialista e racista. Ao contrário, se aproveita da calamidade mundial, que afeta gravemente o povo palestino, [1] para perpetuar seus planos de supremacismo hebreu sobre todo o território palestino, até mesmo sobre os territórios que deveriam então estar, supostamente, sob jurisdição dos árabes.

 

As atuais pretensões de Israel, na prática, constituem mais um passo nestes planos colonialistas: busca-se anexar cerca de 30% do território da Cisjordânia (que, de acordo com os planos de partilha da Palestina da década de 1940, pertenceriam ao povo árabe) por meio da legalização dos assentamentos hebreus que já existem no local. Israel, que desde a guerra de 1967 ocupa, de fato, esta parte expressiva do território da Cisjordânia, ainda que de forma ilegal e violando todas as leis internacionais referentes à questão, anexaria para o próprio território israelense estes assentamentos hebreus ilegais.

 

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, supremacista hebreu confesso, pretendia executar os planos de anexar os territórios na Cisjordânia desde o início do presente mês de julho. Não há dúvidas de que as recentes acusações de corrupção e lavagem de dinheiro que pairam sobre ele e sua administração contribuem para que estes planos de anexação sejam impulsionados e incentivados, desviando a atenção sobre seus escândalos. Também no coração do imperialismo ianque, principal responsável pela manutenção de Israel, Trump enfrenta outros escândalos que podem comprometer sua reeleição, logo, apoiar estes planos de anexação parecem fazer parte de sua agenda mais imediata.

 

Caso Israel avance em seus planos colonialistas racistas, isto não poderá ter senão repercussões de ordem mundial, algo que já ocorre, mesmo que ainda não esteja executando abertamente estes planos. Vejamos. Michele Bachelet, que cumprira um papel extremamente negativo ao impulsionar o neoliberalismo enquanto ocupava a presidência do Chile, atualmente, como alta comissionada das Nações Unidas para Direitos Humanos, mesmo ela não pôde deixar de expressar a posição da própria ONU em seus comentários de repúdio ao plano de anexação do sionismo: “Estou profundamente preocupada que mesmo a forma mais minimalista de anexação conduziria a uma maior violência e perda de vidas, à medida que se erguem muros, se enviam forças de segurança e as duas populações se aproximam mais” e “A anexação é ilegal. Ponto final. Qualquer anexação. De 30% ou de 5% da Cisjordânia.” Ademais, a anexação sionista recebe oposição de diversos ex-presidentes sul-americanos, como Lula, Dilma, Evo, Ernesto Samper, Correa, Mujica e Lugo que, junto a 320 outras personalidades latino-americanas, assinaram um documento de protesto. Expressando as contradições inter-imperialistas no Oriente Médio, até mesmo Alemanha e França (o caso francês é ainda mais emblemático, pelo fato de sempre ter sido, junto a Estados Unidos e Grã-Bretanha, um Estado que fornecera apoio material ao sionismo) se opõem às anexações na Cisjordânia, temendo que estas possam fortalecer as posições do imperialismo ianque na região.

 

Contudo, conforme denunciam as forças do movimento de libertação nacional da Palestina, ainda que boicotes, anulação de tratados comerciais com Israel, etc., possam ter seu papel na contenção ao avanço sionista, tais ações, muitas vezes, não passam de declarações formais por parte de forças que também não estão resolutamente interessadas na real autodeterminação da nação palestina. Somente as forças nacional-libertadoras palestinas constituem um empecilho real para conter a opressão sionista e para o avanço da luta dos palestinos por sua autodeterminação nacional.

 

Mesmo dirigentes da conciliadora Autoridade Nacional Palestina (ANP), a julgar por seu primeiro-ministro, Mohammed Shtayyeh, não pôde deixar de declarar que anexação deste expressivo território da Cisjordânia constitui uma ameaça existencial a seu povo. Mahmoud Abbas, presidente da ANP, declarou também que, caso Israel persista nestes planos, significaria, na prática, a retirada das forças palestinas dos Acordos de Oslo, realizados em meados dos anos 90 entre as autoridades sionista e palestina, após a eclosão da grande insurreição popular palestina conhecida como “Primeira Intifada” contra a opressão hebreia. Abú Obeida, porta-voz das Brigadas Ezzedin Al-Qassam, um dos braços armados do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), declarou: "A resistência armada palestina considera que a decisão de anexação é uma declaração de guerra contra nosso povo".

 

Na data de 1 de julho de 2020, milhares de palestinos organizados pelo Fatah – embora com apoio de outras organizações nacional-libertadoras palestinas, como a Frente Popular pela Libertação Palestina (FPLP) – conduziram grandes protestos na Faixa de Gaza para manifestar seu repúdio aos planos sionistas. Não há dúvidas que, neste momento tão difícil para a existência da nação palestina, a unidade dos movimentos de libertação nacional e de todo o mundo árabe constitui a maior “pedra no sapato” para os planos de Israel e dos Estados Unidos.

 

Conforme podemos ver, há uma ampla gama de fatores para a contenção dos planos sionistas. A nível internacional, apenas o imperialismo ianque se coloca consequentemente em favor de Israel. Quem sabe, em breve, o Estado satélite brasileiro de Bolsonaro não possa ingressar nesta coalizão de limpeza étnica no Oriente Médio?

 

O que é o “Acordo do Século” que fundamenta o plano de anexação sionista da Cisjordânia?

 

Muito embora o presente plano de anexação seja absolutamente coerente com o tradicional expansionismo israelense, ele se fundamenta em uma proposta do imperialismo ianque para a região que, em tese, traria a paz para esta região tão conflituosa do mundo. Por esta razão, tal proposta foi chamada de “Acordo do Século” pelo fato de, em palavras, trazer a paz para o Oriente Médio. Pelos termos do acordo, porém, legaliza a nível internacional o regime de apartheid já existente, sacramentando a condição dos palestinos enquanto pessoas de terceira categoria.

 

Desde o início de 2019 já se falava no tal “Acordo do Século”, mas somente em janeiro deste ano ele foi revelado ao mundo pelo mandatário estadunidense Donald Trump. Seus termos consistem exatamente na anexação de 30% do território da Cisjordânia por Israel, e em troca, a Palestina receberia sua “soberania” sobre um Estado atomizado, sem a presença de Al Quds (Jerusalém) enquanto sua capital, e tendo as questões essenciais da vida nacional – questões militares, territoriais, comerciais, etc. – controladas por Israel. Ainda que tivessem a possibilidade de escolher seus governantes neste território atomizado, os palestinos permaneceriam sem seus direitos políticos essenciais, governados por um regime estrangeiro em seu próprio território. Longe de se trazer a paz, portanto, legaliza uma condição colonial para o povo palestino, e por esta razão, o tal “Acordo do Século” recebeu rechaço unânime de todos os seus movimentos de libertação nacional.

 

Somente a supressão das causas básicas da opressão sionista pode trazer a paz justa e duradoura

 

Esta situação deplorável remete a uma reflexão que remonta às origens da opressão sionista contra o povo palestino. Buscando conciliar uma suposta soberania palestina com as ideias sionistas de um Estado puramente judeu no local, foi em 1947 que a Organização das Nações Unidas sacramentou a chamada “Solução de Dois Estados”, fornecendo para os árabes um território minoritário pertencente à Palestina histórica, ainda que constituíssem a grande maioria da população. No território que cabia supostamente aos judeus, conduziu-se um processo de limpeza étnica que enfurnou os árabes em campos de refugiados e territórios não-contíguos. Mesmo a “Solução de Dois Estados” proposta pela ONU jamais foi respeitada por Israel sionista, pois até mesmo nas extensões de terra que, em tese, caberiam aos palestinos, estes permanecem como pessoas de terceira categoria, submetidos a toda forma de discriminação e constrangimento, e a construção de assentamentos hebreus ilegais em território supostamente palestino fez parte da política sionista desde o ano de 1948 – início da expulsão dos palestinos do chamado “território de Israel” –, de maneira que estes enclaves hebreus criassem uma situação na qual a vida se tornasse tão dura para os palestinos que estes não tivessem outra alternativa senão deixar seu território de origem para outros países, deixando-o para os sionistas, concretizando assim a ideia de um “Estado” (puramente) judeu.

 

Portanto, a chamada “Solução de Dois Estados” jamais trará a paz para o Oriente Médio, pois em sua substância, perpetua a opressão palestina e o supremacismo sionista. A única solução que pode trazer a paz justa e duradoura para esta região, já historicamente proposta pelos movimentos de libertação nacional mais consequentes da Palestina, consiste na dissolução completa da Entidade Sionista (o tal “Estado de Israel”) e de suas forças armadas, na restauração da Palestina histórica, tendo Al Quds (Jerusalém) como sua capital, e fundando na Palestina uma república democrática, independente e laica, que se preste ao papel de verdadeiro berço das três principais religiões monoteístas da Humanidade – cristianismo, islamismo e judaísmo –, respeitando-as igualmente, e se assumindo como lar de todos os povos que historicamente habitaram a Palestina, como os árabes, judeus, drusos e outros, garantindo direitos políticos para todos estes povos, sem exceção, e a autodeterminação palestina sobre todo o seu território histórico.

 

 

NOTAS

[1] Em razão da condição do apartheid imposto desde 1948, quando os palestinos foram reduzidos à condição de pessoas de terceira categoria pelo Estado sionista então recém-fundado, aqueles padecem de condições de vida de miséria e desnutrição em campos de refugiados, áreas urbanas e aldeias rurais sem o mínimo de infraestrutura necessária para a subsistência, a ponto de alguns considerarem que nem mesmo os negros sul-africanos, sob condições do então regime do apartheid, vivessem sob condições tão humilhante e deploráveis quanto os palestinos sob ocupação sionista. O documentário “Ocupação 101”, disponível no seguinte link expõe esta opinião por parte de um especialista no assunto.

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