"Comunismo e Pan-Islamismo"

06/07/2020

 

Camaradas! Após ouvir os discursos proferidos por General Zinoviev, General Radek e outros camaradas europeus, e tendo em conta a importância, também para nós do Oriente, do problema da frente única, penso que tenho que falar, em nome do Partido Comunista de Java, pelos milhares de milhões dos povos oprimidos do Oriente.

 

Tenho que colocar alguns pontos com relação aos dois generais. Talvez o General Zinoviev não tivesse em mente uma Frente Única em Jaca; talvez nossa frente única seja de algum modo, diferente. Mas a decisão do Segundo Congresso da Internacional Comunista significa na prática que temos que formar uma frente única com o nacionalismo revolucionário. Dado, como devemos reconhecer, que formar uma frente única é necessário em nosso país também, nossa frente única não pode ser com social-democratas, mas deve ser com os nacionalistas revolucionários. Mas as táticas usadas pelos nacionalistas contra o Imperialismo muito frequentemente diferem das nossas; como por exemplo, o boicote a luta de libertação muçulmana, o Pan-islamismo. São duas formas que estou particularmente considerando, então pergunto a seguinte questão. Primeiro, devemos apoiar o movimento de boicote nacional ou não? Segundo, devemos apoiar o Pan-Islamismo, sim ou não? Se sim, o quão longe devemos ir? O boicote, devo admitir, certamente não é um método Comunista, mas é um dos métodos mais fortes na situação de subjugação político-militar do Oriente. Nos últimos dois anos, vimos os sucessos do boicote de 1919 do povo do Egito contra o Imperialismo britânico e depois do grande boicote chinês nos fins de 1919 e do começo de 1920. O movimento de boicote mais recente foi na Índia britânica.

 

Podemos compreender daí, que nos anos que virão, outras formas de boicote serão empregadas no Oriente. Nós sabemos que este não é nosso método; é um método pequeno-burguês, algo que pertence à burguesia nacional. Podemos dizer mais; que o boicote significa apoiar o capitalismo doméstico; mas também vimos que logo após o movimento de boicote na Índia, agora existem 1800 líderes definhando na cadeia, que o movimento de boicote gerou uma atmosfera bastante revolucionária, que de fato o movimento boicote forçou o governo Britânico a pedir ajuda militar ao Japão, de forma que deveria se desenvolver em um levante armado. Também sabemos que os líderes Maometanos na Índia - Dr. Kirchief, Hasret Mahoni e os irmãos Ali - são na verdade nacionalistas; não tivemos nenhuma insurreição a se lembrar quando Gandhi foi preso. Mas o povo na Índia sabe muito bem o que todo revolucionário lá sabe; que uma revolta local só pode levar à derrota, porque não temos armas ou outro tipo de material militar, e consequentemente a questão do movimento de boicote irá, agora ou futuramente, se tornar uma pressão para cima de nós, comunistas. Tanto na Índia como em Java estamos cientes que muitos comunistas estão inclinados a chamar um movimento de boicote em Java, talvez porque as ideias comunistas provenientes da Rússia estiveram por muito tempo esquecidas, ou talvez porque havia tal desencadeamento do sentimento Comunista na Índia britânica que poderia desafiar todo o movimento. De qualquer forma, nos deparamos com a pergunta: Devemos apoiar esta tática, sim ou não? E o quão longe podemos chegar?

 

Sobre, o Pan-Islamismo, é uma longa história. Antes de tudo, irei falar sobre nossa experiência nas Índias Orientais, onde cooperamos com os Islâmicos. Em Java, temos uma organização muito grande com vários camponeses pobres, a Sarekat Islam (Liga Islâmica). Entre 1912 e 1916, esta organização possuía 1 milhão de membros, talvez chegando a três ou quatro milhões. Era um movimento popular bastante grande, que crescia espontaneamente e era bastante revolucionário.

 

Até 1921 nós colaboramos com eles. Nosso Partido, contendo 13.000 membros, fomos até este movimento popular e realizamos propaganda ali. Em 1921, fomos bem-sucedidos em fazer com que Sarekat Islam adotasse nosso programa. A Liga Islâmica também agitava nas aldeias pelo controle das fábricas e usava a palavra de ordem de Todo o Poder aos camponeses pobres, todo o poder ao proletariado! Então o Sarekat Islam fazia a mesma propaganda que nosso Partido Comunista, apenas algumas vezes sob outro nome.

 

Mas em 1921 uma ruptura ocorreu fruto de críticas grosseiras da liderança do Sarekat Islam. O governo através de seus agentes no Sarekat Islam explorou este racha, e também exploraram a decisão do Segundo Congresso da Internacional Comunista: Luta contra o Pan-Islamismo! O que eles falavam para os simples camponeses? Falavam “Veja, os comunistas não apenas querem a ruptura, eles querem destruir sua religião!” Isto era demais para um simples camponês muçulmano. O camponês pensou consigo mesmo: eu perdi tudo neste mundo, devo perder também o meu céu? Assim não dá! Era assim que os simples muçulmanos pensavam. Os propagandistas entre os agentes do governo exploraram isto de forma vitoriosa. Então tivemos a ruptura [Presidente: seu tempo acabou]

Eu vim das Índias Orientais e viajei por 40 dias [Aplausos]

 

Os muçulmanos do Sarekat Islam acreditavam em nossa propaganda e estavam com a gente em seus estômagos, para usar uma expressão popular, mas em seus corações eles estavam com o Sarekat Islam, com seu céu. E os céus é algo que não podemos dar a eles. Portanto, eles boicotavam nossas reuniões e não podíamos mais levar a cabo a propaganda entre eles.

 

Desde o começo do ano passado, estamos trabalhando para reestabelecer as ligações com Sarekat Islam. Em nosso congresso em dezembro do último ano, afirmamos que os Muçulmanos no Cáucaso e outros países, que cooperam com os Sovietes e lutam contra o capitalismo internacional, compreendem melhor sua religião, e também afirmamos que, se eles querem fazer propaganda por sua religião, eles podem, ainda que não deveriam fazer em reuniões, mas nas mesquitas.

 

Nos perguntaram em reuniões públicas: Vocês são muçulmanos, sim ou não? Acreditam em Deus - Sim ou não? Como respondemos isso? Eu disse, Sim, quando estou diante de Deus eu sou muçulmano, mas quando estou diante de um homem, não sou um muçulmano [estrondosos aplausos], porque Deus disse que há muitos diabos entre os homens![estrondosos aplausos]. Assim, infringimos uma derrota a seus líderes com o Corão em nossas mãos, e em nosso Congresso do ano passado, compelimos os líderes do Sarekat Islam, através de seus próprios membros, a cooperarem conosco.

 

Quando uma greve geral explodiu em março do ano passado, os operários muçulmanos precisavam de nós, já que os ferroviários estão sob nossa liderança. Os líderes do Sarekat Islam disseram: Vocês querem cooperar conosco, então vocês devem nos ajudar também. Claro que fomos a eles e dissemos: Sim, o seu Deus é poderoso, mas ele disse que nesta terra os ferroviários são mais poderosos! [Aplausos estrondosos]. Os ferroviários são o comitê executivo de Deus neste mundo. [risos]

 

Mas isto não resolve o problema, e se tivermos outra ruptura podemos ter certeza que os agentes do governo usarão de novo seu Pan-Islamismo. Então a questão do Pan-Islamismo é algo bem urgente.

 

Mas primeiro deve se compreender o que a palavra Pan-Islamismo realmente significa. Já possuiu um significado histórico e significava que o Islã deve conquistar todo o mundo, com a espada na mão, e que isto deve tomar lugar sob a liderança do Califa, e o Califa deve ser de origem árabe. Cerca de 400 anos após a morte de Maomé, os muçulmanos se dividiram em três grandes Estados e assim a Guerra Sagrada perdeu seu significado para todo o mundo islâmico. Assim, perdeu o significado que, em nome de Deus, o Califa e a religião islâmica deveria conquistar todo o mundo, porque o Califa da Espanha disse, eu sou o verdadeiro Califa, eu devo levar a bandeira, e o Califa do Egito disse a mesma coisa, e o de Bagdá disse, eu sou o verdadeiro Califa, já que sou da tribo árabe de Quraish.

 

Então o Pan-Islamismo não possui mais seu significado original, mas agora na prática possui um significado inteiramente diferente. Hoje, o Pan-Islamismo significa a luta de libertação nacional, porque para os muçulmanos, o Islã é tudo: não apenas a religião, mas também o Estado, a economia, a comida, e tudo mais.

 

E então o Pan-islamismo hoje significa a irmandade de todos os povos islâmicos, e luta de libertação não apenas dos árabes, mas também dos indianos, dos Javaneses e de todos os povos oprimidos islâmicos. Esta irmandade significa a luta de libertação prática não apenas contra os alemães, mas também contra o capitalismo inglês, francês e italiano, portanto contra o capitalismo mundial como um todo. É isto que significa hoje o Pan-Islamismo na Indonésia entre os povos coloniais oprimidos, de acordo com sua propaganda secreta - a luta de libertação contra as diferentes potências imperialistas do mundo.

 

Esta é uma nova tarefa para nós. Assim como queremos apoiar a luta nacional, também queremos apoiar a luta de libertação dos muito combativos, muito militantes, 250 milhões de muçulmanos vivendo sob as potências imperialistas. Portanto, pergunto novamente: Devemos apoiar o Pan-Islamismo, neste sentido?

 

Assim, encerro meu discurso. (Aplausos enérgicos).

 

Discurso de Tan Malaka, Presidente do Partido Comunista da Indonesia, no 4º Congresso do Comintern, em 1922

 

Tradução de Gabriel Duccini

 

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