"90 anos da Conferência de Kalun: o nascimento da Ideia Juche"

02/07/2020

 

A Coreia da década de 1930 era um país ocupado pelo Japão há quase duas décadas e sofria imensas humilhações: os recursos naturais do país eram saqueados, a cultura era apagada e a moral e orgulho do povo eram pisoteados.

A resposta dos coreanos à brutal ocupação japonesa sobre a Coreia veio de diversas formas, mas nenhuma conseguia alcançar resultados significativos pela libertação do país. Alas liberais da sociedade achavam que a independência da Coreia seria possível pedindo auxílio às democracias ocidentais por meio dos mecanismos diplomáticos globais, como a Liga das Nações.

Já as alas revolucionárias, fortemente influenciadas pelos eventos ocorridos anos antes na Rússia e Mongólia – que culminaram na fundação da União Soviética e da Mongólia Socialista -, contavam com o apoio do Comintern (ou Internacional Comunista) para disseminar os ideais da libertação nacional aliada ao socialismo marxista-leninista e imaginavam um caminho de Revolução para o país.

A China, em especial a região da Manchúria, havia se tornado uma área com grande presença de rebeldes independentistas coreanos que para lá iam tentando fugir da polícia japonesa que perseguia ferrenhamente qualquer oposição em território coreano. Embora o Japão também tivesse expandido o seu controle sobre essa região, algumas partes ao norte da Coreia e para além da fronteira sino-coreana eram pouco conhecidas pelas autoridades japonesas. Foi o caso da região de Kalun.

Nesse local, em fins de junho e início de julho de 1930, celebrou-se a Conferência de Kalun, coordenada pelo jovem revolucionário coreano Kim Il Sung.

Kim Il Sung já era uma figura conhecida entre os revolucionários comunistas coreanos pelo menos desde 1926, quando ele fundou a União para Derrubar o Imperialismo. Desde então, havia se engajado nessa longínqua região fronteiriça da China e Coreia em atividades subversivas contra a ocupação japonesa da Coreia.

Na época, o movimento comunista coreano sofria uma grande contradição, como apontada por Kim Il Sung. As ordens, ofícios e orientações vindas da Internacional Comunista, localizada na Rússia Soviética, se mostravam ineficazes para a realidade coreana e para as condições de organizações revolucionárias do país, que se encontravam no exílio e sofriam com a perseguição sistemática dos japoneses, além de disputas internas fraccionistas e sectárias.

Pouco tempo antes da Conferência de Kalun, por exemplo, Kim Il Sung havia sido preso justamente por se envolver em atividades revolucionárias e os imperialistas japoneses haviam marchado ainda mais para o interior da Manchúria, fechando o cerco contra os exilados políticos coreanos e ameaçando imensamente os planos de libertação nacional.

Na prisão, Kim Il Sung teve tempo suficiente para pensar na grave situação que o movimento revolucionário se encontrava e em como estavam sendo ineficientes os comandos revolucionários.

Liberado em junho de 1930, Kim Il Sung convocou a Liga da Juventude Comunista e a Liga da Juventude Anti-Imperialista para participarem da Conferência em Kalun que discutiria os rumos que deveriam ser adotados de maneira firme a partir de então para a completa libertação da Coreia e futura construção do socialismo.

Compareceram ao local secreto vários dirigentes e quadros revolucionários e por alguns dias se reuniram em sessões de discussões e apresentação de ideias.

Nessas ocasiões, Kim Il Sung criticou duramente o sectarismo existente dentro do movimento comunista, além de apontar que uma das principais causas da desorientação do movimento era a não existência de um pensamento realmente independente: todos – comunistas e liberais – esperavam ajudas e ordens externas.

Foi então que Kim Il Sung apontou que a Revolução Coreana deveria assumir um tipo único e novo, sustentando-se em suas próprias forças. Deveria-se estudar e analisar a situação própria e particular da Coreia ocupada, levando em conta a sua complexa formação social e organização política e econômica.

Kim Il Sung foi o primeiro naquela situação a colocar as massas populares como protagonistas do movimento revolucionário – não organizações que a cada dia mais se multiplicavam com vários nomes e com ordens alheias à realidade do país – e apontou que o ser humano era um ser capaz de mudar o seu próprio destino.

Essas considerações mais tarde seriam consagradas como o nascimento das bases da Ideia Juche, o socialismo ao estilo coreano que coloca a independência e autossuficiência como uns dos mais altos valores.

Os apontamentos do jovem revolucionário foram aprovados e acrescentados pelos outros participantes. No fim dos 4 dias de conferência, foi criada a Associação de Camaradas Konsol, a primeira organização de tipo partidista que anos depois daria origem ao Partido do Trabalho da Coreia.

A conclusão da reunião também se deu com a adoção completa e irrestrita do documento O caminho a seguir a Revolução Coreana, escrito por Kim Il Sung, que delineava o novo caminho a ser trilhado e organizava os trabalhos a serem assumidos pelos comunistas a partir de então.

O movimento revolucionário coreano saiu totalmente mudado e remodelado após Kalun e dois anos depois seria fundado o Exército Popular Revolucionário da Coreia, dando nascimento à luta armada contra o invasor japonês, luta essa que alcançaria a vitória em 1945.

O dia 30 de junho de 1930, portanto, possui significado global muito importante por representar o novo rumo – vitorioso – que foi assumido pela Revolução Coreana graças aos esforços do camarada Kim Il Sung, que lançava há exatamente 90 anos as bases da Filosofia Juche.

por Lucas Rubio, Presidente do CEPS-BR

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