Repressão em São Paulo e as malandragens de João Doria

11/05/2020

 

Vivemos numa conjuntura política nacional complexa e aparentemente confusa. Já vislumbrando a decadência e o declínio acelerado do regime de Jair Bolsonaro, muitos de seus outrora apoiadores, que durante o pleito de 2018 surfaram no seu auge eleitoral, assumindo abertamente seu discurso reacionário, antipobres e antinação, começaram cada vez mais a pular fora do barco do bolsonarismo. Embora não se trate de uma tendência exatamente recente, pois remonta à formação de seu governo no início de 2019, pensamos que a presente crise sanitária e a forma como Jair Bolsonaro lidou com ela pode ter sido um gatilho que aprofundou esta tendência.

Wilson Witzel, governador do estado do Rio de Janeiro, que há poucos meses falava ultrajes como “jogar um míssil” sobre a comunidade Cidade de Deus" (sob pretexto de “acabar com traficantes”), aparece agora como uma das vozes da sensatez contra as manobras tresloucadas de Bolsonaro.

 

No estado de São Paulo, João Doria segue o mesmo caminho. Tendo no pleito de 2018 protagonizado episódios ridículos como “BolsoDoria”, causando desconfortos não só na base de apoio bolsonarista como no próprio Jair Bolsonaro, João Doria afirma agora, cinicamente, “jamais” ter sido aliado de Bolsonaro. Numa defesa de goela da quarentena no estado de São Paulo, Doria chegou ultimamente a protagonizar uma indisposição aberta com Jair Bolsonaro numa discussão sobre o apoio do governo federal à quarentena, marcando mais enfaticamente sua “pulada de barco” do bolsonarismo. Não foram poucos que, no campo democrático e popular, caíram no canto da sereia da “união de todos contra a pandemia”, mesmo que nesta união estivessem contemplados lobos em pele de cordeiro como João Dória, que só falam em defesa da quarentena e da “sensatez” por preocupações pessoais e eleitoreiras.

 

O governo de São Paulo faz um marketing com a hashtag “#FiqueEmCasa”. Mas que casa? É certo que o confinamento se mostrou como a única medida às nossas mãos, até agora, para desacelerar o contágio massivo da Covid-19, mas onde se confinar se a Polícia Militar do estado de São Paulo – seguindo o modelo do que tem sido feito pelas polícias, pistoleiros e paramilitares nas áreas rurais brasileiras – tem tornado impossível a vida dos pobres das periferias da Grande São Paulo e demais cidades do interior, agredindo-os, jogando-os na ruas como se cachorros fossem, ou até mesmo os assassinando? Desde o início da quarentena, a Polícia Militar tem sido empregada para reprimir saques de mercados por parte das populações famintas, que perderam seus respectivos empregos e meios de subsistência com a crise. Para completar, os policiais militares do “sensato” Doria agora tocam fogo nas casas dos trabalhadores mais pobres e jogam-nos à lei da selva da infecção pela Covid-19. Tal é o quadro que tem se apresentado nos últimos dias.

 

Em Osasco, região metropolitana de São Paulo, na última quinta-feira (7), policiais militares executaram a sangue frio dois rapazes moradores da Ocupação Esperança. Sob pretexto de “repressão ao tráfico” e “apreender drogas”, invadiram a comunidade que, desde há seis anos de sua construção, jamais registrara um homicídio sequer e sempre foi marcada pelo convívio pacífico entre seus habitantes. Sob a tapeação de “apreensão de drogas” que sequer foram achadas, colocaram fim à vida de dois jovens para intimidar os moradores e fazê-los retroceder. Sem arredarem o pé, os moradores honram aqueles que tombaram e persistem na luta pela conquista do chão.

 

No município de Piracicaba-SP, mais distante da grande megalópole, também na manhã da última quinta-feira (7), circularam nas redes sociais vídeos e fotos do despejo de uma pequena comunidade de mais de 50 famílias, com um número expressivo de crianças, mulheres e idosos. O imóvel sobre o qual foi erguido a comunidade, “estranhamente”, estaria há quase cem anos no nome da família do autor da ação de despejo. Como forma de facilitar o despejo, assinou-se um falso contrato de arrendamento para dizer que o imóvel não estava improdutivo e se destinava (em apenas um hectare!) à criação de gado. No período em que as famílias chegaram no local, porém, não havia uma cabeça de gado sequer. É nessa situação que a Polícia Militar de Doria se responsabiliza por cenas deploráveis de mulheres e crianças vagando a esmo após serem despejadas, sem ter para onde ir em meio à pandemia. Por aí observamos como o marketing de “#FiqueEmCasa” não passa de demagogia barata de pilantras da laia de Doria.

 

Em Jardinópolis-SP, na data de 28 de abril, o acampamento Campo-Cidade Paulo Botelho, erguido desde 9 de março por cerca cem famílias de trabalhadores sem-teto às beira da Rodovia Anhanguera, foi surpreendido por um incêndio criminoso que parece não ter discriminado pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social e nos “grupos de risco” da Covid-19. Instigados pelo chefão do governo federal e criminoso-mor, Jair Bolsonaro, toda sorte de marginais e bandidos se sentem mais à vontade para tratar seres humanos como moscas em razão de sua classe social e cor. O governador Doria, que a despeito de sua atual “sensatez”, também disseminou o discurso de tratar trabalhadores sem-teto e sem-terra como terroristas, é mais um dos responsáveis por esse massacre.

 

Ainda que em pele de cordeiros, os lobos seguem sendo lobos, assim devem ser considerados e por este mesmo motivo atacados e denunciados. Não nos confundamos sobre quem são os verdadeiros inimigos do povo.

 

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