"Imprensa e livro"

05/04/2020

 

A imprensa surgiu, em nosso País, com a autonomia; na fase colonial, apesar de tentativas, não conseguiu aparecer: os livros eram impressos na metrópole, com a dupla licença da autoridade religiosa e da autoridade civil, ambas rigorosas. Entravam na colônia como contrabando, via de regra, e eram considerados “material subversivo”; só se compreendia o livro em mãos de religiosos, para usos do ofício. Nos fins do século XVIII, apareceram algumas bibliotecas particulares, quase todas de padres; o arrolamento delas, na chamadas “inconfidências”, dá a ideia do que se passava na época. Com a autonomia, surgiu a imprensa, sob severas restrições, cumpridas às vezes. Sob a Regência, desenvolveu-se e ganhou, nas áreas urbanas, um teor popularesco singular, marcado pelos pasquins. O Segundo Império, mantendo embora, formalmente, a liberdade de expressão, reduziu em muito o alcance da imprensa; ao fim do século XIX, quando das reformas em que o próprio regime seria alterado, a imprensa tomou novo impulso; o governo oligárquico submeteu-se novamente; e assim foi, com altos e baixos.

 

A imprensa periódica teve, no Brasil, dois períodos: o artesanal e o industrial; pertence o primeiro à fase anterior ao desenvolvimento das relações capitalistas; o segundo começa quando tais relações surgem e iniciam o seu desenvolvimento. Neste, o jornal — e a revista — constituem empresa industrial e comercial, com patrimônio e renda. A rigor, o período artesanal da imprensa pode ser aceito como proto-história dela; tal como a conhecemos hoje, embora em proporções menos importantes e vultosas, a imprensa existe a partir do desenvolvimento das relações capitalistas. Ora, com esse desenvolvimento, duas forças exercem, sobre ela, domínio crescente: as agências estrangeiras de notícias, que abastecem os jornais de informações do exterior, padronizando o noticiário, e as agências de publicidade, que abastecem os periódicos de anúncios. A partir do momento em que a publicidade constitui a parcela principal do haver, no balanço de uma empresa de jornal ou revista, pesando mais do que a venda avulsa, o anunciante passa a pesar mais na orientação do que o leitor. A partir do momento em que se constitui como empresa comercial e industrial, o jornal e a revista se inserem no conjunto da sociedade capitalista e comportam-se como determinam suas normas, sem o que carecem de condições de sobrevivência.

 

Com o passar dos tempos, a organização de uma empresa jornalística representa investimento cada vez mais vultoso: não há, no Brasil, há anos, fundação de jornal, aparecimento de jornal novo; tem acontecido, vez ou outra, a venda e compra de empresa já estabelecida, ou o restabelecimento de circulação de jornal que chegara a ponto de ter de encerrar suas atividades. Reduz-se, assim, o número de jornais, a cada ano, e isso não acontece apenas em nosso país, mas em todo o mundo capitalista; e acontece porque uma empresa jornalística é hoje investimento de vulto, e de rentabilidade incerta, já que a contradição atingiu o cerne de sua tarefa: deve informar sempre melhor, porque o público deseja ser melhor informado, e carece de condições para isso, porque seus condicionamentos se tornam cada vez mais drásticos. No Brasil, antes de 1930, os jornais sentiam muito a influência da pequena burguesia urbana, que constituía o mundo reduzido de seus leitores: é uma fase liberal, em que a maioria da imprensa defende reformas e coloca-se na oposição; a publicidade fornecida diretamente pelo comércio e pela indústria nacional. Depois de 1930, a situação muda: passa a preponderar a publicidade de grandes empresas e de monopólios estrangeiros, canalizada por agências especializadas, também estrangeiras; a posição da maioria da imprensa é conservadora ou mesmo reacionária. No que afeta às revistas, o mercado é dominado por publicações estrangeiras, ligadas a trustes estrangeiros do ramo ou subsidiadas do exterior, salvo poucas exceções. Em nossos dias, a imprensa — jornais e revistas — está sob controle direto do imperialismo, que comprou empresas e completou o controle indireto com a propriedade de cadeias de jornais e revistas, além de emissoras de rádio e televisão, atuando sobre a opinião maciçamente.

 

A imprensa liberal, como a imprensa popular, não encontram, assim, condições para competir com essa imprensa que envolve gigantescos interesses e que demanda investimentos de enorme vulto; passou ao nível dos semanários de existência precária; foi, por todos os modos, marginalizada. Está agora relegada aos pequenos jornais e às revistas de cultura, bem como às publicações estudantis — tudo sem estrutura de empresa ou com uma estrutura precária. Tudo isso para não referir aquilo que decorre da vigência de limitações de ordem política. Mas, ainda na vigência de liberdade de imprensa — entendida em termos formais — o jornal diário é empresa muito difícil para as correntes populares ou democráticas, de modo que prepondera, normalmente, a possibilidade do semanário em que a doutrinação domina a informação.

 

Desde que surgiram aqui as primeiras oficinas gráficas, claro que começaram a ser produzidos livros. A precariedade do parque gráfico, na fase artesanal da imprensa, era tamanha, entretanto, que o livro, na maior parte, era impresso no exterior, particularmente em Portugal. O desenvolvimento do parque gráfico brasileiro data da fase em que crescem e se alastram as relações capitalistas; assim, a atividade editorial, em termos nacionais, tem início após a Revolução de 1930. O pós-modernismo, e a conquista do público pelos romancistas-documentaristas nordestinos, encontra, pois, a base material de que necessita; aparecem grandes editoras nacionais; o público cresce e se diversifica. Ocorre, em sentido contrário, o encarecimento do livro, desproporcionado e contrastando com o poder aquisitivo baixo da maior parte da pequena burguesia.

 

Se o parque gráfico estabelece a base material que permite o desenvolvimento da produção de livros, perfeitamente compatível com a demanda, o mesmo não acontece com a comercialização que, esta sim, estacionou e está estrangulando o consumo do livro em nosso país. Se deixarmos de parte — admitida a sua importância fundamental — o aspecto ligado ao poder aquisitivo dos leitores, o da comercialização aparece, de há muito, como o mais grave, quanto ao livro. O fato é que a comercialização do livro não acompanhou, de forma alguma, a expansão da produção e da demanda, permanecendo nos moldes rotineiros do passado. Ora, acontece que a inflação tornou praticamente inviável a montagem de livrarias nos grandes centros urbanos, pela alto preço dos aluguéis. Existe, no Brasil, considerada a percentagem de população adulta e dotada de nível médio de conhecimentos para cima, um público de proporções já razoáveis, em termos quantitativos; acontece que a comercialização antiquada não coloca o livro ao alcance desse público. Enquanto as revistas semanais ilustradas — que conseguiram alcançar dimensão nacional de circulação — encontram uma rede distribuidora que as coloca ao alcance dos leitores, em tempo útil praticamente em todo território brasileiro, o livro continua a ser oferecido em moldes superados, só colocado ao alcance do leitor na área desenvolvida do Centro-Sul, compreendendo o Sul Mineiro, o Estado do Rio, o Estado de São Paulo e o Estado da Guanabara, assim mesmo em condições rotineiras. Essa é a área em que o poder aquisitivo pode ainda abranger o livro, dentro de certos limites, de sorte que não tem havido estímulo do mercado — o outro — no sentido da substituição dos métodos obsoletos de distribuição do livro. Este é um dos grandes problemas quanto à difusão do livro, no Brasil, nos tempos atuais — deixando de considerar aqueles aspectos ligados à repressão policial com apreensões e prisão de autores, editores e livreiros, na fase que estamos atravessando.

 

Também na área editorial, o Imperialismo está presente: desde o início da chamada “guerra-fria”, e particularmente depois de 1964, a compra de editoras brasileiras apareceu como novidade; algumas foram realmente vendidas a empresas norte-americanas, enquanto outras recusaram ofertas e receberam propostas, que algumas aceitaram, de funcionarem como subsidiárias, recebendo “ajuda” para determinadas edições que eram assim facilitadas, barateando-se o preço do livro — num mercado onde ele é caro — de sorte a constituir dumping ineludível. Por outro lado, no que diz respeito ao livro didático, o controle exercido pelo Imperialismo é hoje efetivo, quanto ao conteúdo e se esboça o controle quanto à produção. Tradicionais editoras brasileiras, ou empresas que surgem e se multiplicam, sem que se saiba o motivo e a origem do capital, estão hoje na dependência norte-americana, apresentando sob seu selo editorial livros que, com o nosso país, só têm afinidade o idioma em que são impressos. Essa atividade editorial nova e politicamente interessada e orientada, aliás, volta-se para a juventude, proporcionando-lhe atrativos de leitura e induzindo-a a determinado tipo e modelo de conhecimentos. Se acrescentarmos a isso o intenso trabalho realizado sobre a mente infantil e adolescente através das revistas de história em quadrinhos, que se multiplicam assustadoramente, verificaremos que grau de deformação representa o conjunto desse esforço desnacionalizante, do ponto de vista da cultura.

 

Do livro "Síntese de História da Cultura Brasileira", 7ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

 

Escrito por Nelson Werneck Sodré

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