Lutas do povo brasileiro em meio à crise sanitária

02/04/2020

 

São falsas as noções atualmente muito difundidas segundo as quais “o mundo parou” ou “o Brasil parou” diante da presente pandemia do coronavírus (e a consequente quarentena), a depender do sentido empregado. Com o mundo “parado”, ao contrário, o sistema capitalista sofre um duro golpe, e já é consenso entre quase todas as grandes instituições financeiras que o ano de 2020 atravessará uma recessão. Como já se sabe, os golpes sofridos pelo conjunto do sistema capitalista serão sentidos muito mais ferozmente nos países coloniais e semicoloniais, incluindo aqui o Brasil. Aumentará escandalosamente o desemprego, a fome e a miséria, e sem dúvidas a presente pandemia apenas servirá como gatilho para a eclosão de muitas outras epidemias. A crise política no Brasil e em outros países tenderá a se intensificar, e com ela, a luta de classes entre exploradores e explorados. Dessa forma, o desenvolvimento histórico não estagnou, mas avança sem cessar.

 

Mesmo em meio à quarentena, lutas populares têm se desenvolvido. Operários, camponeses, favelados, as camadas médias, intelectualidade etc. têm dirigido seu protesto principalmente contra o Governo Bolsonaro em decadência. Vejamos tais exemplos.

 

Escrachos contra carreatas bolsonaristas

 

Ganharam certa repercussão, nos últimos dias, carreatas de carros de luxo (compostas pelos setores mais reacionários da burguesia e das camadas medidas) em apoio ao governo federal reacionário e contra a quarentena, pedindo a retomada da atividade econômica mesmo em meio à pandemia, às custas de milhões de cadáveres. Todavia, muitas destas carreatas reacionárias foram recebidas à altura pela população local.

 

No município de Balneário Camboriú, Santa Catarina, uma carreata bolsonarista composta por pouco mais de vinte carros (que se reuniu no dia 27 de março) foi respondida com hostilidade pelos transeuntes que passavam pelo local, a ponto de muitos terem se organizado e jogado estercos de cavalo contra os veículos dos ricaços, que saíram completamente desmoralizados.

 

Em João Pessoa, capital paraibana, uma carreata pró-Bolsonaro também foi recebida com não menos hostilidade. Enquanto passava pelas avenidas nos bairros de classe média, os moradores dos apartamentos faziam panelaços contra Bolsonaro e jogavam ovos contra os luxuosos carros dos bolsonaristas.

 

Metalúrgicos se recusam a trabalhar em meio à pandemia e sindicato decreta estado de greve em SP

 

Recusando-se a conceder licença remunerada para os operários e forçando-os a trabalhar mesmo em meio à pandemia, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (estado de São Paulo) decretou em 23 de março uma greve geral na categoria, que mobilizou cerca de 40 mil operários. Os trabalhadores das empresas Elgin e JC Hitachi estiveram entre os primeiros a entrar em greve, seguidos pelos operários da Embraer, Latecoere e Avibras. Não demorou muito tempo para que a greve geral compelisse os patrões a concederem licença remunerada à maioria dos operários, fábrica após fábrica.

 

Tal situação na qual as empresas têm coagido os trabalhadores a manterem a produção não têm se limitado, obviamente, à região de São José dos Campos. Na região de São Carlos, proliferam denúncias contra as arbitrariedades do patronato em meio à crise sanitária. De acordo com informações de 30 de março, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 22 denúncias contra as empresas, que têm desrespeitado os direitos dos operários no contexto da quarentena. Há relatos de falta de fornecimento de álcool gel, atrasos e cortes nos pagamentos de salários. O Sindicato dos Metalúrgicos recebeu também mais de 300 denúncias da mesma natureza. Segundo seu presidente, Vanderlei Strano, apenas 30% dos operários da região estão de licença remunerada – permanecem amontoados nas fábricas inúmeros operários já idosos, ou com doenças crônicas, e que estão enfrentando, portanto, risco de morte para manter os lucros dos capitalistas.

 

As futuras mortes que veremos entre operários da região por conta da Covid-19 deve ser completamente atribuída aos patrões, não à pandemia em si.

 

Entregadores de aplicativos protestam contra abandono por parte das empresas

 

Entregadores de aplicativos realizaram, no dia 23 de março, uma paralisação nacional com uma série de reivindicações da categoria. Com o início da pandemia, estima-se que os pedidos de entrega em domicílio tenham aumentado em 30% por toda a América Latina. Porém, mesmo expostos constantemente ao risco de contágio do coronavírus, para si e suas famílias, os entregadores seguem trabalhando constantemente sem o recebimento de quaisquer adicionais (as empresas Rappi e IFood o justificam pela inexistência de vínculo trabalhista), com as empresas de aplicativo prometendo remunerações proporcionais apenas em caso de contágio confirmado.

 

No caso da empresa Rappi, que sustentou estar fornecendo álcool gel aos entregadores, muitos dizem que sequer foram notificados do benefício.

 

Durante a paralisação nacional, os entregadores fizeram reivindicações que pusessem fim a tais descasos por parte das grandes empresas de aplicativos.

 

Lavradores lutam contra despejos do latifúndio e grandes empresas em plena crise sanitária

 

Desde o início da pandemia, os ataques da classe latifundiária contra o campesinato e as populações originárias seguem sem cessar, principalmente sob forma de assassinatos contra militantes do movimento rural organizado, despejos indiscriminados contra famílias posseiras, e grilagem de terras. Latifundiários e grandes companhias agroindustriais não têm escrúpulos em jogarem milhares nas ruas como mendigos, completamente desamparados e jogados para serem devorados pela pandemia, apenas para satisfazer a sede para ampliarem seus grandes domínios. Assim, nas últimas três semanas, ocorreram despejos, assassinatos e ações de grilagem em Pernambuco, Maranhão, Rondônia, Bahia e Piauí e outros estados. Todos esses ataques são respondidos devidamente com lutas combativas pelas populações.

 

Na comunidade Engenho Barro Branco, município de Jaqueira-PE, funcionários a mando da empresa Negócios Imobiliária S. A. foram deslocados nos dias 19 e 20 de março para colocar cercas elétricas em torno de uma das fontes de água da comunidade, o que impossibilitaria os moradores de acessarem-na para terem acesso às medidas higiênicas preventivas básicas, bem como para a mínima sobrevivência. A resposta dos camponeses foi imediata: reuniram-se em mutirão para marretar as instalações e taparam outros buracos pelas quais passariam as cercas elétricas.

 

Em 27 de março, o chamado “general” Augusto Heleno assinou uma resolução que requisitava para o Estado brasileiro cerca de oito mil hectares de terras para a expansão do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA, a chamada “Base de Alcântara”) no município de Alcântara-MA. Não só Alcântara como os municípios dos entornos são grandemente povoados por comunidades quilombolas, e organizações quilombolas estimam que tal medida despejaria aproximadamente 800 famílias quilombolas em Alcântara. Tais organizações que mobilizam o povo quilombola têm novas lutas em perspectiva nos próximos dias.

 

MST realiza ações de solidariedade com o povo durante a crise sanitária

 

Nesta pandemia, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) tem mobilizado parte de sua estrutura para prestar assistência ao povo.

 

No Triângulo Mineiro, cerca de seis assentamentos na região têm fornecido cestas básicas a preços módicos para a população mais necessitada. Mesmo tendo sido uma iniciativa feita a partir de 2018 com cerca de 30 cestas básicas mensais, as entregas se elevaram para 550 cestas básicas mensais neste período de crise sanitária.

 

Em Pernambuco, o MST colocou à disposição do governo estadual – para o combate ao coronavírus – o Armazém do Campo e o Centro de Formação Paulo Freire (este último será utilizado como hospital de campanha). Ademais, distribuirá marmitas e realizando cafés de manhã para as populações de rua nos entornos da Arquidiocese de Olinda e Recife durante o período da pandemia.

 

População faminta conduz saques nos centros urbanos

 

Toda a demagogia feita por Paulo Guedes e demais figurões do governo federal em fornecer assistência para a população desempregada, informais e pequenos produtores urbanos não se sustenta diante da realidade. A proposta de fornecer míseros R$600,00 mensais (com a possibilidade de se elevar para R$1200,00 no caso de mães que sejam chefes de família) para estes trabalhadores, que dependem do auxílio para ontem já tem esbarrado na morosidade do governo – usando como pretexto o “receio de fraudes” – e em objeções do próprio proto-ministro Paulo Guedes, para quem uma medida desta natureza demandaria uma alteração na Constituição.

 

Enquanto os engravatados seguem se engatanhando, mesmo os apoiadores do tímido pacote de ajuda às populações mais pobres concordaram em marcar para que seja sacado a partir de... 16 de abril! Querem que o povo passe fome por mais de duas semanas para que só então tenha acesso a um valor que, mantendo-se intactos os pagamentos dos aluguéis, contas de luz e água, etc., é nada mais que mixaria!

 

As medidas de extermínio do governo parecem estar surtindo o efeito desejado. A fome já se alastra pelos lares proletários das grandes cidades brasileiras, sobre as famílias cuja única opção atualmente é recorrer ao saque de supermercados, feiras, etc., para que não sucumbam à desnutrição. Não tendo sido ainda generalizada em virtude de ainda nos encontrarmos no início da crise, trata-se de uma legítima luta de massas que deve ser divulgada e apoiada.

 

Na capital São Paulo, do dia 19 de março para cá, foram registrados saques a supermercados principalmente em bairros da periferia da cidade, como Jardim Popular, Itaim Paulista, e no distrito Vila Jacuí. Dezenas pessoas têm sido arrastadas às prisões durante os saques e, mesmo ostentando de forma oportunista um discurso pseudo-humanista (principalmente para se aproveitar dos resultados da ruína de Jair Bolsonaro que se aproxima) de “defesa da vida”, o governador reacionário João Dória tem intensificado a militarização das comunidades e o policiamento para intensificar a repressão aos saques.

 

No Rio de Janeiro, 24 de março, um grupo de seis pessoas arrombou um supermercado na zona norte da cidade, ação esta que terminou fracassando, com a prisão de um adulto e apreensão de cinco menores de idade – ainda que nada tenham levado da loja.

 

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