Aos 98 anos morre Riachão, sambista e cronista popular

31/03/2020

 

Os últimos anos têm sido difíceis para o samba...

 

De 2016 para cá nos despedimos de Beth Carvalho, Élton Medeiros, Luiz Melodia, Wilson das Neves, Mário Sérgio, Almir Guineto, Dona Ivone Lara... e, nesta segunda feira (30), de Riachão.

 

O extravagante sambista, que sempre vinha a público com cachecóis e meias coloridas em contraste com a boina e o paletó brancos, morreu na mesma Salvador que o pôs em vida — melhor dizendo, o estreou.

 

Embora fosse um expoente do samba baiano, Clementino Rodrigues, o Riachão, não conseguiu lograr tanto sucesso em âmbito nacional. O soteropolitano só foi obter maior notoriedade quando, em 1972, Gilberto Gil interpretou a sua “Cada macaco no seu galho”, em seu célebre LP “Expresso 2222”. Os royalties auferidos, acompanhados da justíssima fama, lhe conferiram a possibilidade de gravar seu primeiro LP. E assim o fez: em 1973, saía o “Sonho de malandro”, que contava com a faixa “Eu também quero” — cuja letra, que relata o aparecimento do tíquete-refeição, demonstra a sua concatenação com a vida do proletário brasileiro. [1]

 

Riachão foi alfaiate, vendedor de cachorro-quente e office boy, e demorou para granjear alguma riqueza a partir do ofício de sambista. Assim como aconteceu com diversos outros sambistas, as injustiças da indústria fonográfica e das multinacionais do som lhe acometeram. Riachão passou boa parte de teu período criativo à sombra da dominadora frente Bossa Nova-MPB-Tropicália. 

 

Ademais teve boa parte de suas músicas dos anos 1930 e 1940 perdidas em virtude de um incêndio na Rádio Sociedade da Bahia. [2]

 

Mas isso não fora suficiente para solapar a tua contribuição para o crisol musical brasileiro. Ao lado da finada Dona Ivone Lara e do inveterado Nelson Sargento, Riachão e tua obra constituíram os alicerces do samba popular. Vale citar aqui algumas de suas composições clássicas, como “Vá morar com o diabo”, “Parabéns”, “Meu patrão” e “Judas traidor”. Além de Gil, foi gravado por Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso, Dona Ivone Lara, Batatinha e Panela e tantos outros.

 

Há de se destacar o trabalho da cantora Vânia Abreu, que em 2013 “enfiou” o bamba em um estúdio em São Paulo e o fez cantar, à capela, à medida que ia lembrando, alguns de seus sambas que já iam ficando pelas brumas do tempo — o trabalho pode ser conferido no CD “Mundão de Ouro”, de 2013. [3]

 

O jeito de cronista e as composições concernentes a vida do proletariado urbano atestam tanto a tua aderência entre as massas quanto a tua atualidade no meio musical popular e brasileiro. Riachão foi porta-voz da experiência rítmica e espiritual acumulada por anos pelas classes trabalhadoras.

 

O sambista velha guarda, eterno namorado de Dona Dalva, vibrante em letras e melodias, descansou. Mas a imagem que guardamos do malandro de peculiar indumentária é “em pé, sambando”. [4]

 

 

 

 

 

NOTAS

 

[1] “Riachão” — Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: http://dicionariompb.com.br/riachao

 

[2] "Aos 91 anos, compositor do samba “Cada macaco no seu galho” renega a Bossa Nova", de Anna Virgínia Balloussier. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/serafina/2013/08/1316265-aos-91-anos-compositor-do-samba-cada-macaco-no-seu-galho-renega-a-bossa-nova.shtml

 

[3] “Mundão de Ouro”, de Marcos Lauro. Disponível em: https://rollingstone.uol.com.br/guia/cd/mundao-de-ouro/

 

[4] “Lugar de malandro é em pé, sambando, diz Riachão aos 97 anos”, de André Carvalho. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/07/lugar-de-malandro-e-em-pe-sambando-diz-riachao-aos-97-anos.shtml

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