Bancos sobem os juros em meio a crise: quem sofre com isso?

27/03/2020

 

Mais uma vez os bancos mostram que pouco se importam com desastres sociais que custarão milhares de vidas, desde que seus bolsos continuem cheios. Durante a crise causada pela epidemia do covid-19, os principais monopólios bancários em atividade em nosso país, ao contrário do que vinham anunciando publicamente, estão deliberadamente aumentando as taxas de juros da maioria das linhas de crédito e diminuindo os prazos de pagamento. A promessa feita em comunicado da Federação Nacional dos Bancos (FENABAN) de que as parcelas de dívidas poderiam ser suspensas por até 60 dias, também não está sendo cumprida. Essas medidas afetam especialmente pequenas e médias empresas, bem como trabalhadores que recentemente tomaram empréstimos para abrirem seus próprios negócios ou para lidar com a redução real dos salários dos últimos anos.

 

Em pronunciamento feito hoje (27/03), o governo reforçou as medidas financeiras para lidar com a crise, anunciando a redução da taxa de juros do cheque especial para 2,9% ao mês. Também foi anunciado a liberação de crédito, por meio do BNDES, de R$ 40 bilhões para ajudar no pagamento da folha salarial por até dois meses de pequenas e médias empresas. Essa também é uma resposta diante do oportunismo dos monopólios bancários, que mesmo recebendo ajudas bilionárias, não estão repassando o crédito para os seus clientes. Com as novas medidas, considerando também o movimento para criar uma renda mínima de emergência para parte população, aprovada ontem pela Câmara dos Deputados, podemos estar entrando em um período em que o parasitismo rentista volta a conviver e se acomodar com medidas intervencionistas, com o Estado injetando enormes quantias de dinheiro na economia a fim de evitar convulsões sociais e garantir o pagamento de parcelas de empréstimos bancários que vencerão no curto e médio prazo.

 

Sabemos que essas medidas não passam de paliativos anunciados por motivos diversos: o governo precisava responder de alguma formas as críticas que o acusavam não tomar as medidas exigidas pelas classes dominantes diante da crise, bem como manter a coerência de seu discurso de “preocupação” com a economia – isto é, com as taxas de lucratividade dos grandes monopólios. Além disso, a medida serve para tentar evitar a resposta das massas populares diante da crise. Entretanto, como paliativo, tais medidas apenas podem adiar o pior. A economia brasileira já sente os efeitos de uma crise capitalista global, que durará muito mais do que dois meses e implicará, apesar das respostas medíocres do governo, na falência de inúmeras médias e pequenas empresas, que poderão ser abocanhadas posteriormente pelos grandes monopólios.

 

As grandes empresas também são afetadas de alguma forma, como demonstra matéria da Uol, publicada no dia de ontem (26/03), que entrevistou representantes de sindicatos patronais de diversos setores da economia. Algumas das declarações desses senhores são bastante reveladoras, como a de Túlio Oliveira, vice-presidente do Mercado-Pago, que lida diretamente com os monopólios bancários:

 

"A gente sente que os bancos estão represando dinheiro e cobrando caro por ele. (Os juros subiram) duas vezes e meia (para a antecipação de recebíveis) em relação ao que cobravam antes (da pandemia de coronavírus) (...) A explicação que a gente escutou de alguns bancos é que estão represando (a oferta de crédito). Diante do cenário, (os bancos) estão sendo mais seletivos para quem eles alocam o capital. A informação que todos passam é que os bancos já estavam líquidos antes (já tinham dinheiro suficiente). Eles não tinham um problema de liquidez...”

 

Sabemos muito bem que a tendência de outros setores da burguesia – seja ela do setor industrial, varejista ou de serviços – é proceder de modo perfeitamente análogo ao dos banqueiros que agora criticam: da mesma forma que estes represam empréstimos e sobem os preços de seus produtos (os juros) em momentos oportunos, aqueles também represam os salários dos trabalhadores e cobram preços monopolistas sempre que lhes é possível. Da mesma forma que, na situação atual, a tendência é que essas empresas repassem as perdas financeiras geradas pelo aperto dos bancos para seus trabalhadores, que amargarão demissões, congelamentos ou redução de salários e outros tipos de ataques.

           

Outra tendência seguida por tais burgueses é o apelo ao Estado, que mais uma vez mostra sua função de defensor dos interesses e salva-vidas de uma classe que não para de gerar crises. Fernando Pimentel, presidente da ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), defendeu que o Estado crie um fundo garantidor de crédito, ou seja, que o Tesouro injete ainda mais dinheiro nesses monopólios bancários, como forma de supostamente garantir o acesso ao crédito. Lembrando que o Banco Central já anunciou a liberação de mais de R$ 1,3 trilhão para o sistema financeiro, além de flexibilizar regras para operações de crédito. Em um momento em que os trabalhadores estão ameaçados com cortes ou suspensões de salários em decorrência da crise sanitária, e que as favelas brasileiras podem se tornar o palco da maior tragédia gerada pelo coronavírus, o Estado brasileiro mostra com quem ele se preocupa e a quem ele realmente serve.

           

Esse aumento acontece após o Banco Central reduzir mais uma vez a taxa básica de juros, que está na faixa de 3,75% ao ano. Ainda que o juro real seja maior do que isso, ainda é mais aberrante o que está sendo praticado pelos monopólios bancários: em certa linha de crédito, o Santander chega a cobrar 49,71% ao ano. Os cartões de crédito, todos sabemos, praticam números ainda mais abusivos. Nada garante que eles seguirão as medidas anunciadas e irão diminuir bruscamente taxas ou aumentar prazos de pagamentos por conta da situação em que o país se encontra. Como disse o presidente do Banco do Brasil, a vida dos trabalhadores brasileiros “não tem valor infinito”, dando a entender que em momento de paralisia das empresas, não irá abrir mão de suas taxas de lucro. Como se pode ver, eles não vertem uma lágrima diante do drama do povo brasileiro.

           

Mas o verdadeiro problema não são os grandes empresários, que tem a oportunidade de expressar sua indignação na mídia, cobrar compensações do Estado ou repassar seus prejuízos aos trabalhadores. A questão aqui é que os juros inflacionados afetarão diretamente os pequeno-burgueses e trabalhadores que aspiravam também se tornar pequenos proprietários. A ilusão vendida pela ideologia liberal nos últimos anos em nosso país, que inebriou tantos trabalhadores desalentados, fez com que milhões de brasileiros tomassem empréstimos bancários na esperança de “empreender” para mudar de vida. Não é mais do que a velha ladainha que defende que basta seguir as regras do jogo e competir “livremente” no mercado que, ao fim, todos viraremos burgueses. O aumento dos juros revela que essa é uma ilusão e que, como tal, possui apenas um destino possível: se desiludir.

           

A proletarização cada vez maior das amplas massas populares é uma lei de tendência inexorável no capitalismo. Quando essa realidade se concretizar na vida de tantos que cultivaram o sonho liberal, será um luto doloroso, mas que encontrará alívio na solidariedade que existe entre o povo trabalhador. Que ao fim de tudo eles cobrem dos responsáveis por todo esse sofrimento – e com juros!  

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