A Segunda Guerra Fria avança ideologicamente no Brasil

03/02/2020

 
Não é de hoje que os maiores conglomerados de mídia do mundo, estão em guerra contra os povos ao redor deste. Durante a Segunda Grande Guerra, que envolveu todo o mundo numa disputa fratricida entre as maiores potências imperialistas mundiais pela partilha de colônias, Hearst, um empresário norte-americano do ramo editorial, criou uma narrativa em seus jornais que uma intensa fome havia sido causada na Ucrânia pessoalmente por Stalin e os bolcheviques, e teria levado a milhares de mortes, por puro e simples sadismo. Naquela época já era possível saber que todo ano aquela região era assolada por uma intensa fome em determinado período do ano, e que isso era muito aprofundado pelo atraso econômico, pela Guerra Civil causada pelas potências imperialistas, invadindo a Rússia, e pela Primeira Grande Guerra, e que teve o agravante dos capitalistas agrários que boicotavam a política de coletivização agrícola.

Hearst, nazista confesso, se aproveitou deste acontecimento para justificar uma invasão hitlerista na Ucrânia, e a antiga capital do Império Russo, que só existe enquanto país plurinacional e democrático, passaram a figurar nazistas como Stephan Bandeira, que tinham o objetivo de auxiliar, enquanto classes caídas, a invasão hitlerista, e escravizar o povo ucraniano.

Com o fim da Segunda Grande Guerra, 2/3 de todo o globo, haviam se tornado países socialistas ou democracias populares, se libertado do imperialismo e colonialismo, e emergiu uma nova potência, que se pôs a frente dos países capitalistas centrais que foi os Estados Unidos. Diversas políticas foram implementadas para conter o avanço da libertação nacional e do socialismo. Plano Marshall, que tornou os países capitalistas credores dos Estados Unidos, a Doutrina Truman, a criação da OTAN, o revisionismo soviético de Kruschov, o Macarthismo, e a ideologia anticomunista em todos os âmbitos.

Com o fim da União Soviética, e o refluxo do movimento comunista mundial, a bancarrota do socialismo em nível Global, se iniciou um período que foi denominado por Fukuyama de “o fim da história” a suposta vitória e superioridade do capitalismo sob o socialismo. Ainda nesse período, o anticomunismo não recuou em nenhum momento, mas fortaleceu suas posições cada vez mais, na luta do imperialismo pela manutenção do colonialismo, ele mudou de forma, mas não alterou sua essência, sendo ainda que fraco e em estado de refluxo, um perigo para o imperialismo a tomada de consciência nacional por parte de um povo colonial ou semi-colonial, o que vemos hoje com o antipetismo no Brasil, um anticomunismo disfarçado, uma ideologia antipopular.

Nos dias atuais a Segunda Guerra Fria aponta para os países que minimamente questionam a economia do dólar, ou tem um desenvolvimento independente. Como China, Rússia, Irã, República Popular Democrática da Coreia, Venezuela. Volta e meia tem algum alarde terrorista da mídia sobre o perigo desses países pra suposta paz mundial ou pra integridade territorial e democracia dos países do ocidente. Muitos anos desta década foi a Coreia, ameaçada por movimentos militares japoneses, americanos e sul-coreanos, e que através da política byungjin do Kim Jong-Un, elevou o patamar da qualidade de vida do povo, do desenvolvimento industrial e da capacidade de defesa com arsenal nuclear, política que se define em aliar o desenvolvimento econômico ao nuclear. A vitória da Coreia na assinatura do acordo, e o avanço na politica de reunificaçao pacífica do país, são inquetionáveis. Ainda assim, bombardeados por diversas matérias jornalisticas politizadas e pró-ocidentais, as pessoas nos países do ocidente e nos países coloniais e semi-coloniais, acredita que a vitória é do trumpismo, que a Coréia é uma ameaça (mesmo tendo sido os EUA que invadiu a Coreia) e que a Coreia é uma ditadura monárquica hereditária e tirânica.

Mais recentemente isso aconteceu com o Irã, com um ataque de drones norte-americanos e a morte do Martir Soleimani no Iraque, acusações de que era um terrorista, que punha em jogo “vidas americanas inocentes” e que o Irã apesar de não ter arma nuclear “era um perigo para a paz e estabilidade da região e do ocidente”. Não só isso, mas o debate moralista que se formou acerca da cultura iraniana, da questão dos direitos de diversidade sexual que o Irã ainda é atrasado, e a ou reprovação reacionária da política iraniana, se baseando em posições de partidos de esquerda pró-imperialistas como o Tudeh, que defendem uma posição na prática aliada de monarcas (de verdade) derrubados pela revolução como Pahlavi, ou até uma defesa do Irã, visto que reprovação da sua política interna é se aliar ao neocolonialismo, intervencionismo e uma psição objetivamente muito mais atrasada e reacionária, mas com “ressalvas”.

Bem, nenhum desses senhores deveria então defender a Rússia socialista em seus primeiros anos, ainda com Lenin a frente, contra as potências imperialistas da Guerra Civil, ou até defender a Rússia da invasão nazifascista posterior, mas defender com “ressalvas” pela “tirania” do governo, ou por questões morais que envolvem a cultura russa, se hoje já é assim, a Rússia é reprovada como um “país conservador” pelos liberais, imagina no começo do Séc. XX, ou se o Exército Vermelho tivesse Twitter ou Facebook.

A idealização moralista da revolução, é até propagada por supostos “leninistas”, que acreditam piamente que Trotsky era um defensor dos direitos humanos e internacionalista, “visionário” homem que amava cachorros e era contra a “tirania”. Com as palavras o próprio Trotsky:

“Uma forma de pensar “puramente” normativa, idealista e ultimatista quer construir o mundo à sua imagem e desfazer-se simplesmente dos fenômenos de que não gosta. Só os sectários, quer dizer, a gente que é revolucionária só na sua própria imaginação, se deixam guiar por puras normas ideais. Dizem: não gostamos destes sindicatos, não os defendemos.” (Trotsky, “Um Estado Não Operário e Não Burguês”, 25 de Novembro de 1937)

“Que é democracia partidária aos olhos de um pequeno-burguês “culto”? Um regime que lhe permita dizer e escrever o que lhe apeteça. Que é o “burocratismo” aos olhos de um pequeno-burguês “culto”? Um regime no qual a maioria proletária fortalece com métodos democráticos suas decisões e disciplina. Operários, tenham isto bem presente!”(Leon Trotsky, “Os Moralistas Pequeno-Burgueses e o Partido Proletário”, 23 de Abril de 1940)

“Em seu recente artigo polêmico contra mim, Burnham explica a que o socialismo é um “ideal moral’. Na verdade, isto não é nada novo. No início do século passado, a moral serviu de base ao “verdadeiro socialismo alemão” que Marx e Engels submeteram à critica no próprio começo de suas atividades. No começo do nosso século. os socialistas revolucionários russos contrapunham o “ideal moral” ao socialismo materialista. Lamento dizer que esses defensores da moral se transformaram em vulgares vigaristas no campo da política. Em 1917, traíram completamente os operários a favor da burguesia e do imperialismo estrangeiro.”(IBID.)

“Os próprios Burnham e Carter afirmam, de passagem, que o Estado do proletariado pode, em função das condições objetivas e subjetivas, ‘exprimir-se em um considerável número de formas governamentais variadas’. Acrescentamos para clarificar as coisas: ou através de uma luta livre de diversos partidos no seio dos soviets ou através da concentração do poder de fato nas mãos de um só indivíduo. A ditadura pessoal significa, evidentemente, o sintoma do perigo extremo para o regime. Mas, ao mesmo tempo, aparece, às vezes, como a única forma de salvar o regime. Em consequência, a natureza de classe do Estado define-se, não por suas formas políticas, mas sim por seu conteúdo social, quer dizer pelo caráter das formas de propriedade e das relações de produção que o Estado em questão protege e defende. A dominação da social-democracia no Estado e os sovietes (na Alemanha em 1918-1919) não tinha nada em comum com a ditadura do proletariado, na medida em que deixava intacta a propriedade burguesa. Em contrapartida, um regime que conserva propriedade expropriada e nacionalizada contra o imperialismo é, por isso, independentemente das formas políticas, a ditadura do proletariado.” (Trotsky, “Um Estado Não Operário e Não Burguês”, 25 de Novembro de 1937).

E mais recentemente ainda, um anticomunismo visceral, guerrafriesco, propagado pelo jornal virtual The Intercept Brasil, que ficou famoso com o material do chamado “Vaza jato” que mostrou pro mundo o fato de que a Operação Lava-Jato foi um complot imperialista com o objetivo de vender a Petrobras e aplicar um Golpe de Estado. Vindo de comparações chulas e ahistoricas entre Bolsonaro e Hugo Chavez, Maduro e até com o Presidente Mao Tse-Tung, teoria da ferradura mais pura e anticientífica, tentando se mostrar como bom moço para a reação fascista e o imperialismo, comparando na última vez Hitler com Lenin, por conta do ministro nazista da Secretaria de Cultura colocado por Bolsonaro, e o aniversário de Lenin festejado por parlamentares como Talíria Petrone. “Ditadura que matou e torturou milhões de pessoas” simplesmente o movimento popular e o momento histórico mais importante da nossa época. Claro, embebidos até o talo de Hannah Arendt, teórica preferida dos liberais da teoria da ferradura, falam sobre como a política é negada pela violência, teórica que criticou os negros americanos por que eles recorriam a violência, e a política na verdade seria “diálogo”e “aceitação” com o inimigo, os negros que não professam o liberalismo e o pacifismo iniciaram a violência nos Estados Unidos. O regime de segregação racial Jim Crow no Sul dos Estados Unidos e foi um regime acima de tudo violento e humilhante, mas quem negou a política foi Malcolm X com seu radicalismo.

No Brasil de hoje, com intervenção militar nas favelas cariocas, país campeão nas mortes campesinas por motivos políticos, e governos que defendem tortura, aniquilamento dos movimentos populares e democráticos, e supressão dos direitos democráticos (a vida, organização, reunião), e que defende a criminalização do comunismo, pensam os geniais e visionários “democratas” que os comunistas tinham que simplesmente deixar de existir, e que o comunismo deve ser reprovado por conta de um “ideal democrático” que o artigo não diz qual é, para que assim possamos “nos unir aos adversários políticos da extrema-direita em pontos comuns”, que seriam por exemplo a Reforma da Previdência e o Pacote Anticrime do Ministro Sérgio Moro. Ataques abertos aos direitos do povo, mas que “são necessários” “são efeitos colaterais”, como se a dominação imperialista, a exploração a miséria e a supremacia branca fossem um consenso que deve se defendido, mesmo que o chicote estrale.

Lenin, não é apenas o líder da primeira revolução proletária do mundo, um dos pilares do socialismo científico, e o eterno líder dos comunistas ao redor do mundo, mas um intenso patriota russo, um democrata de fato que defendia politicamente em conteúdo as aspirações democráticas do povo, como a saída da Guerra, a terra para os camponeses, a derrubada do czarismo, o desenvolvimento econômico russo no sentido industrial, agrícola, e militar. Por isso, inspirou diversos patriotas e lutadores anti-imperialistas ao redor do mundo, que era um deles Ho Chi Minh, que disse que chegou ao leninismo através do nacionalismo. Nisso a famosa frase do camarada Stalin também serviria, “Após a minha morte, jogarão muito lixo sobre o meu túmulo, mas os ventos da história o removerão”, e os ventos da história são violentos, e a ditadura do proletariado é implacável.

Os autofágicos, os idealistas, utópicos, pró-imperialistas e pró-fascistas, não tem lugar entre as fileiras do povo mas sim entre as fileiras do inimigo, tem uma preocupação irremediável com a imagem que tem perante o inimigo, buscam mesmo acima de qualquer coisa, de todos os princípios serem aceitos pelo inimigo, para que assim possam salvar suas peles. Com as palavras, o suposto defensor da “democracia” Trotsky:

“Nos períodos de reação triunfante, veem-se os senhores democratas, social-democratas, anarquistas e outros similares representantes da esquerda segregar moral em dose dupla, da mesma maneira que as pessoas transpiram mais quando estão com medo. Repetindo, à sua maneira, os dez mandamentos ou o sermão da montanha, estes moralistas dirigem-se menos à reação triunfante do que aos revolucionários perseguidos, cujos “excessos” e cujos princípios “amorais” “provocam” a reação e fornecem-lhe uma justificação moral.[Hoje em dia o equivalente consiste em concordar com tudo que diz a propaganda anticomunista sobre a União Soviética]” (Leon Trotsky, “Moral e Revolução” ou “Nossa Moral e a Deles”, 1936, “Eflúvio Moral”)

“A sua base política [do moralismo, do endossamento da difamação da URSS] reside na impotência e no desespero diante da ofensiva da reação. A base psicológica no desejo de superar o sentimento da própria inconsistência usando uma barba postiça de profeta. [Esses gênios da Internet completamente desligados da política que aparecem com "soluções milagrosas", "novo socialismo", "temos que parar com esses conflitos ideológicos", etc..? A sua época, Trotsky se refere especialmente a homens como Burnham e Schattman que criavam um "terceiro campo", "nem URSS nem Alemanha", que consideram ultrajante apoiar a URSS]

Longe de defender o Trotskismo, por seus posicionamentos quinta-colunistas, capitulacionistas, obreiristas, como a defesa de abandono dos camponeses pelo Partido, ou que o Exército Vermelho deveria invadir a Europa, ou que os sindicatos deveriam ser militarizados, essas passagens demonstram ainda assim, como os supostos “leninistas” tem uma cegueira congênita quando o assunto é o Comunismo, e apenas falam de Trotsky para como ele mesmo disse, impotência e desespero diante do avanço da reação, “me desculpe pelas mortes”, “me desculpe pela perseguição stalinista”, que é o caminho mais fácil para ser aceito pela reação e um respeito velado pela moral burguesa, o crédito à ideologia da Guerra Fria.

 

29 de janeiro de 2020

Escrito por P. Fernandes

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