"O papel das mulheres na defesa de Stalingrado"

13/11/2019

 

"Recordando a batalha nas margens de Volga, devo conter-me por um momento em uma questão importante que, na minha opinião, não tem recebido grande atenção na literatura da guerra e que, ás vezes, sem motivo, é desprezada, na intenção de tirar conclusões de nossa experiência com ela. Estou pensando no enorme papel desempenhado na guerra pelas mulheres, não apenas na retaguarda, como também na linha de frente. Suportaram as dificuldades da vida militar do mesmo modo que os homens e os acompanharam até Berlin.
 
Houve muitas mulheres na história militar, desde as marketankti dos tempos de Pedro, O Grande e Suvorov até as guerrilhas de 1812, as irmãs da caridade na defesa de Sevastopol e de Porto Arthur, as mulheres da Primeira Guerra Mundial, que recordamos como russas dedicadas e patriotas. Porém, em nenhuma guerra antes, haviam mulheres desempenhando um papel tão importante como na guerra germano-soviética de 1941-1945.  
 
A pesar de que, no passado, muitas mulheres haviam servido no exército e na linha de frente por sua própria iniciativa, as mulheres soviéticas partiram para a frente convocadas pelo Partido e pelo Komsomol [1], profundamente conscientes de seus deveres na defesa dos intereses de sua pátria socialista. Haviam sido preparadas para isso pelo Partido Comunista, porque neste momento, nosso Estado era o único no mundo onde as mulheres disfrutavam, de acordo com a Constituição, dos mesmos direitos dos homens.  
 
Ainda há quem provavelmente não compreenda o que fizeram como construtoras do socialismo e defensoras dos interesses dos trabalhadores. Eis porque, na guerra contra os invasores nazistas, vimos as mulheres soviéticas servindo como enfermeiras, levando dezenas e centenas de feridos para a retaguarda, como médicas, realizando intervenções cirúrgicas sob ataque aéreo de artilharia, ou como telefonistas e rádio-operadoras, cuidando das conversações operacionais e da administração em batalha. Vimo-las trabalhando nos comandos e nas organizações políticas, onde realizavam trabalhos de administração militar e educavam as tropas no espírito da tenacidade em combate. Quem quer que visitasse a frente veria mulheres agindo como artilheiras em unidades antiaéreas, como pilotos combatendo contra os ases alemães, como comandantes de barcos blindados, na Frota do Volga, por exemplo, transportando cargas da margem esquerda para a margem direita, ida e volta, em condições incrivelmente difíceis.
 
Não há exagero em dizer que as mulheres combateram juntamente com os homens, em toda a parte, durante a guerra.
 
Deve-se também recordar que, na segunda metade de 1942, quando os nossos exércitos haviam se retirado para uma linha que corria por Leningrado, Mozhaysk, Voronezh, Stalingrado e Mozdok, deixando áreas densamente povoadas em mãos inimigas, novos recrutas eram necessários. As mulheres, em massa, se apresentaram como voluntárias ao Exército e isto nos tornou possível repor em toda sua eficiência as nossas unidades e estabelecimentos.
 
Tínhamos unidades inteiras (como as baterias anti-aéreas e os regimentos noturnos de bombardeio PO-2) em que a maioria dos artilheiros e das tripulações era constituída de mulheres. E é de justiça dizer que essas unidades cumpriram as suas tarefas tão bem quanto as unidades em que predominavam os homens. Podemos tomar, por exemplo, dois tipos de trabalho das operações de defesa – a artilharia antiaérea e as comunicações.
 
A maioria dos artilheiros no corpo de defesa antiaérea de Stalingrado, tanto das baterias antiaéreas como dos holofotes, eram mulheres. Porém, a eficácia dessas tripulações e baterias não eram de modo algum inferiores à das unidades anti-aéreas que vimos no Don e em outros pontos da frente, onde a maioria da tripulação era de homens. Em termos de tenacidade e abnegação, na batalha contra os aviões de mergulho alemães as guarnições antiaéreas femininas às margens do Volga eram modelos de coragem. Elas se agarravam aos seus canhões e continuavam disparando mesmo quando as bombas explodiam à sua volta, quando parecia impossível, não apenas disparar com pontaria certeira, mas até mesmo ficar ao lado dos canhões. Envolvidas em fogo e fumaça, em meio a explosões de bombas, aparentemente sem tomar conhecimento das colunas de terra que saltavam no ar em redor delas, mantinham-se firmes até o fim. As incursões da Luftwaffe [2] sobre a cidade, a despeito de pesadas perdas entre as guarnições anti-aéreas, eram sempre recebidas com fogo concentrado, que em regra fazia grande número de baixas entre os aviões atacantes. As nossas artilheiras antiaéreas derrubaram dezenas de aviões inimigos sobre a cidade em chamas.
 
As tropas do 2º Exército jamais esquecerão como as artilheiras antiaéreas resistiram na estreita faixa de terra às margens do Volga e combateram os aviões inimigos até o último tiro.
 
Em Outubro de 1942, encontrei uma tropa que continha cinco garotas, muito jovens, porém combatentes e corajosas. Jamais esquecerei a tristeza que se estampou no rosto de uma moça loura a quem, após disparar contra uma formação de nove aviões inimigos, e derrubar um deles, uma das companheiras disse que, na sua opinião, teria sido possível derrubar dois ou três.
 
As garotas das unidades antiaéreas da cidade não fechavam os olhos ao perigo, não cobriam a cabeça nem corriam para se protegerem, mesmo nos dias em que o inimigo fazia mais de 2000 saídas aéreas.  
 
Estou certo que não havia soldado no 62º Exército que tivesse alguma coisa a reprovar a mulheres que, com eles, defendiam a sua terra natal.
 
As unidades de comunicações do 62º Exército compunham-se principalmente de mulheres, que executavam com dedicação as suas instruções. Se as mandávamos para um posto de comunicações, podíamos estar certos de que as comunicações estavam asseguradas. A artilharia e os morteiros podiam disparar contra o posto, aviões podiam atirar bombas contra ele, as tropas inimigas poderiam cerca-lo –mas, a menos que recebessem ordens de o fazer, as mulheres não abandonavam o seu posto nem mesmo diante da morte.
 
Conheço o caso de uma garota que estava em um posto de comunicações próxima á estação de Basargino, uma jovem chamada Nadya Klimenko. Suas companheiras tinham sido mortas ou feridas, porém ela permaneceu em seu posto e seguiu informando o que ocorria no campo de batalha Este foi o seu último informe ao centro de comunicações do Exército: “Não há mais ninguém no posto. Estou só. Obuses explodem em redor...À direita posso ver carros, com cruzes pintadas sobre eles, em movimento, com a infantaria atrás...É tarde demais para eu sair. Não me importo que atirem! Continuarei a informar do mesmo modo. Escutem! Um carro se aproxima do meu posto. Dois homens saltam dele...Estão olhando em volta –penso que são oficiais. Vêm na minha direção. O meu coração parou de bater com receio do que possa acontecer...”. Isto foi o fim. Ninguém sabe o que aconteceu a Nadya Klimenko.
 
(...)
 
Frequentemente lembro das condições em que nossas camaradas tinham que trabalhar e viver. Nos combates nas cidades ninguém faziam-lhes refúgios ou trincheiras; elas mesmas, sozinhas, ou em conjunto, cavaram trincheiras e sobre elas colocaram uma fina cobertura de tudo o que puderam conseguir e durante meses sem fim viveram juntas nessas trincheiras. Muitas vezes foram soterradas onde trabalhavam.
 
Em outubro, quando o inimigo destruiu todos os refúgios do QG, as condições em que as mulheres trabalhavam e viviam se tornaram ainda mais difíceis. Trabalhavam em abrigos abafados e empoeirados, repousavam a céu aberto, comiam o que podiam conseguir e durante muitos meses não viam água quente.  
 
Como quer que a vejamos, a vida era dura e difícil para as mulheres na frente. Mas elas não se deixaram vencer pelas dificuldades e executaram as suas tarefas militares com integridade e abnegação.
 
Na divisão de Batiuk havia uma enfermeira chamada Tamara Shmakova. Eu a conheci pessoalmente. Ganhou fama por sua capacidade de retirar soldados gravemente feridos da linha de frente, quando parecia impossível levantar um dedo sequer do solo.  
 
Se arrastava até o ferido,  esticava-se ao seu lado e observava os ferimentos. Tendo se certificado do seu estado, decidia então o que fazer. Se o soldado estava tão gravemente ferido que não podia continuar no campo de batalha, tomava medidas para evacuá-lo imediatamente. Para remover um soldado do campo de batalha normalmente são necessários dois homens, com ou sem padiola. Muitas vezes, porém, Tamara o fazia sozinha. O que fazia era pôr-se em baixo do ferido e arrastar-se de volta, tendo às costas um peso muitas vezes o dobro do seu. Mas, quando o ferido não podia ser levantado, ela abria um tapete, enrolava-o nele e, novamente, rastejando, o trazia a reboque.
 
Tamara Shmakova salvou muitas vidas. Muitos homens que estão vivos hoje lhe devem a vida. Os soldados salvos da morte, vezes nem sequer sabiam o nome da moça que os socorrera. Ela trabalha atualmente como médica, no distrito de Tomsk.
 
Havia muitas heroínas como Tamara no 62º Exército. Mais de mil mulheres foram condecoradas. Entre estas estavam Maria Ulyanova, que se empenhou na defesa da Casa do Sargento Pavlov do começo ao fim, Valia Pakhomova, que retirou mais de 100 feridos do campo de batalha, Nadia Koltsova, duas vezes condecorada com a Ordem da Bandeira Vermelha, a dra. Maria Velyamidova, que cuidou dos ferimentos de centenas de soldados, sob fogo, nas posições avançadas, e muitas outras. Não terá sido uma heroína Lyuba Nesterenko, que, no prédio sob ataque do tenente Dragan, curou os ferimentos de centenas de guardas feridos e, sangrando gravemente, morreu com uma bandagem na mão ao lado de um camarada ferido?
 
Me recordo das mulheres que trabalhavam nos batalhões de saúde das divisões e nos pontos de evacuação nas margens de Volga; cada uma delas, em cada noite, tratava e curava as feridas de centenas de soldados. Houve casos em que a equipe médica de qualquer ponto de evacuação enviava, em apenas uma noite, de dois a três mil feridos até o outro lado de Volga. E fizeram tudo isso debaixo do incessante bombardeio e fogo de todos os tipos de armamento...
 
Este era o tipo de mulheres que tínhamos na frente".


Extraído das Memórias do Marechal Vassilli Ivanovitch Chuikov, comandante do 62º Exército de Stalingrado. 

Notas
[1] Komsomol, em russo, КОМСОМОЛ, também comumente abreviado como ВЛКСМ  (VLKSM) vem de Всесою́ зный ле́нинский коммунисти́ческий сою́ з молодёжи (Liga Comunista Leninista da Juventude de Toda a União), era a juventude do Partido Comunista da União Soviética, fundada em Outubro de 1918.
[2] Luftwaffe foi a força aérea do Exército Alemão (Wehrmacht) durante a Segunda Guerra Mundial.

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