Mariátegui: "Ética e Socialismo"

16/10/2019

 

Não são recentes as censuras ao marxismo por sua suposta posição antiética, por suas bases materialistas, pelo sarcasmo com o qual Marx e Engels tratam em suas páginas as polemicas da moral burguesa. A crítica neo-revisionista não diz, a este respeito, nenhuma coisa que já não tenham dito antes os utópicos e fariseus de outra era. Mas a reivindicação de Marx, do ponto de vista ético, já foi feita por Benedetto Croce, este é um dos representantes mais autorizados da filosofia idealista, cuja opinião parecerá para todos ser mais decisiva que qualquer deploração jesuíta da inteligência pequeno-burguesa. Em um de seus primeiros ensaios sobre o materialismo histórico, refutando a tese da posição antiética do marxismo, Croce escrevia o seguinte:

“Esta corrente tem estado determinada principalmente pela necessidade em que se encontraram Marx e Engels, frente as várias categorias dos socialistas utópicos, ao afirmar que a chamada coesão social não é uma questão moral (isto é, como deve ser interpretado, não sendo resolvido com a pregação e com os chamados meios morais) e por suas críticas duras as ideologias e hipocrisias de classe. Foi auxiliada mais tarde, pelo que me parece, pela a origem hegeliana do pensamento de Marx e Engels, sendo conhecido que na filosofia hegeliana a ética perde a rigidez que foi dada a ela por Kant e conservada por Herbart Y. finalmente, a denominação de “materialismo” não falta nesta eficácia, o que faz pensar imediatamente no interesse bem compreendido e no cálculo dos prazeres, mas é evidente que a idealidade e o absoluto da moralidade, no sentido filosófico de tais palavras, são pressupostos necessários do socialismo. Não é por acaso, um interesse moral ou social, como se quer decidir, o interesse que nos move a construir o conceito de mais-valia? Na economia pura, pode-se falar em mais-valia? O proletariado não vende sua força de trabalho pelo que ela vale, dada a sua situação na sociedade atual? E, sem esse pressuposto moral, como se explicaria, junto com a ação política de Marx, o tom de indignação violenta ou sátira amarga que é notada em todas as páginas do Capital? “(Materialismo Histórico e Economia Marxista).

Este julgamento de Croce me deixa tocado, sobre o tema de algumas frases de Unamuno, em A agonia do cristianismo, conseguindo que o brilhante espanhol, honrando-me com sua resposta, escrevesse que, em verdade, Marx não era um professor senão um profeta.

Croce já reiterou explicitamente, mais de uma vez, as palavras citadas. Uma de suas críticas conclusões sobre a questão é, precisamente, “a negação da intrínseca amoralidade e da intrínseca posição antiética do marxismo”. E, como no mesmo texto, se maravilha de que ninguém “tenha pensando em chamar Marx, à título de honra, de Maquiavel do proletariado”, onde pode se encontrar a explicação ampla e cabal em sua defesa do autor de O Príncipe, perseguido tão igualmente pelas deplorações de seus posteriores. Sobre Maquiavel, Croce escreveu que ele

“descobriu a necessidade e a autonomia da política, que ela está mais ao bem do que ao mal, que tem suas leis contra as quais se rebelar é um ato em vão e que ela não pode exorcizar o mundo com a água benta”.

Maquiavel, na opinião de Croce, se apresenta

“como dividido pelo animo e pela mente acerca da política, pela qual conseguiu descobrir a autonomia e que aparece hora triste necessidade de degradar as mãos por ter que que mexer com pessoas brutas, hora arte sublime de fundar e sustentar aquela grande instituição que é o Estado” (Elimenti di política).

A semelhança entre os dois casos foi expressamente indicada pelo próprio Croce, nestes termos:

“Um caso, análogo em certos aspectos é o das discussões sobre a ética de Marx e a crítica tradicional da ética de Maquiavel: crítica que foi superada por De Sanctis (no capítulo sobre Maquiavel em sua Storia Della Letteratura), mas que volta continuamente e se afirma na obra do professor Villari, onde se coloca que a imperfeição de Maquiavel é esta: que ele não se propôs a falar sobre a questão moral. E comecei a refletir e me perguntar, porque obrigação, qual contrato deveria fazer com que Maquiavel escrevesse sobre todas as questões, inclusive aquelas pelas quais ele não se interessava e sobre as quais ele não tinha nada a decidir. Seria o mesmo que se aproximar, a alguém que investiga a Química e perguntar a pessoa sobre as investigações gerais da metafísica sobre os princípios do real.”

A função ética do socialismo, sobre quais indubitavelmente enganam a pressa e exorbitâncias sumárias de alguns marxistas como Lafargue deve ser, buscada, não em grandiloquentes decálogos, nem em especulações filosóficas, que de nenhum modo constituem uma necessidade da teorização marxista, mas na criação de uma moral de produtores do próprio processo da luta anticapitalista.

“Em vão — Kautsky afirmou que busca inspirar o trabalhador inglês com sermões morais — há uma concepção mais elevada da vida, o sentimento de esforços mais nobres.”

A ética do proletariado emana de suas aspirações revolucionárias; são eles que lhe dão mais força e elevação. É a ideia da revolução que salvou o proletariado do seu rebaixamento.

Sorel adiciona que para Kautsky a moral está sempre subordinada a ideia do sublime, e, embora em desacordo com muitos marxistas oficiais que falam sobre paradoxos e praticam zombarias com os moralistas, concorda-se que

“os marxistas tinham um motivo particular para desconfiar de tudo o que tocava na ética; propagandistas da reforma social, utopistas e democratas haviam cometido tal abuso de justiça que havia o direito de ver qualquer dissertação a esse respeito como um exercício de retórica ou sofisticação, destinado a enganar as pessoas que se ocupavam no movimento trabalhista”.

Ao pensamento soreliano de Eduardo Berth, devemos um pedido de desculpas a essa função ética do socialismo. “Daniel Halevy”, diz Berth, parece acreditar que a exaltação do produtor deve prejudicar a do homem; ele me atribui um entusiasmo totalmente americano por uma civilização industrial. Não é bem assim; a vida do espírito livre é tão cara quanto é para si mesmo, e estou longe de acreditar que não há mais nada que a produção no mundo.

É sempre, no fundo, a antiga censura feita aos marxistas, acusados de serem moral e metafisicamente materialistas. Nada mais falso; o materialismo histórico de forma alguma impede o desenvolvimento mais alto do que Hegel chamou de espírito livre ou absoluto; É, pelo contrário, sua condição preliminar. E nossa esperança é precisamente que em uma sociedade baseada em uma ampla base econômica, constituída por uma federação de oficinas, onde trabalhadores livres sejam incentivados por um entusiasmo aguçado pela produção, arte, religião e filosofia, que possam dar um impulso tão prodigioso e o mesmo ritmo ardente e frenético o transportará para as alturas.

A sagacidade, não sem a fina ironia francesa, de Luc Durtain confirma essa ascendência religiosa do marxismo, no primeiro país cuja constituição está de acordo com seus princípios. Historicamente, já estava provado, pela luta socialista do Ocidente, que o sublime proletário não é uma utopia intelectual ou uma hipótese de propaganda.

Quando Henri de Man, reivindicando que no socialismo há um conteúdo ético, se esforça para demonstrar que o interesse de classe não pode, por si só, ser um mecanismo suficiente de uma nova ordem, não vai absolutamente “além do marxismo”, nem repara coisas que não já foram avisados ​​por críticas revolucionárias. Seu revisionismo ataca o sindicalismo reformista, em cuja prática o interesse de classe é satisfeito com a satisfação de aspirações materiais limitadas. Uma moral dos produtores, como concebida por Sorel, como concebia Kautsky, não surge mecanicamente do interesse econômico: é formada na luta de classes, travada heroicamente, com vontade apaixonada. É absurdo buscar o sentimento ético do socialismo nas uniões burguesas — nas quais uma burocracia domesticada enervou a consciência de classe — ou em grupos parlamentares, assimilados espiritualmente ao inimigo que luta com discursos e movimentos. Henri de Man diz algo perfeitamente ocioso quando diz: “O interesse da classe não explica tudo. Não cria motivos éticos”. Essas descobertas podem impressionar um certo gênero de intelectuais do século XIX que, ignorando clamorosamente o pensamento marxista, ignorando a história da luta de classes, facilmente imaginam, como Henri de Man, ultrapassando os limites de Marx e de sua escola.

A ética do socialismo é formada na luta de classes. Para que o proletariado cumpra, em progresso moral, sua missão histórica, é necessário que adquira consciência prévia de seu interesse de classe; Mas o interesse de classe por si só não é suficiente. Muito antes de Henri de Man, os marxistas entenderam e compreenderam isso perfeitamente. A partir daqui, precisamente, eles começam suas críticas amargas contra o reformismo. “Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária”, disse Lenin, referindo-se à tendência de esquecer o final revolucionário, atendendo apenas às circunstâncias atuais.

A luta pelo socialismo eleva os trabalhadores, que com extrema energia e convicção absoluta participam, a um ascetismo, que torna totalmente ridículo colocar de lado seu credo materialista, em nome de uma moral de teóricos e filósofos. Luc Durtain, depois de visitar uma escola soviética, perguntou se não conseguia encontrar uma escola secular na Rússia, até aquele ponto o ensino marxista parecia religioso para ele. O materialista, se professa e serve sua fé religiosamente, somente por uma convenção de linguagem ele pode se opor ou distinguir do idealista. (Já Unamuno, tocando outro aspecto da oposição entre idealismo e materialismo, disse que “como a matéria não é para nós mais do que uma ideia, materialismo é idealismo”).

O trabalhador, indiferente à luta de classes, feliz com seu teor de vida, satisfeito com seu bem-estar material, pode chegar a uma moralidade burguesa medíocre, mas nunca alcançará uma ética socialista. E é uma farsa fingir que Marx queria separar o trabalhador de seu trabalho, privá-lo de tudo o que o unisse espiritualmente ao seu ofício, para que o demônio da luta de classes se apoderasse dele. Essa conjectura é concebível apenas para aqueles que aderem às especulações de marxistas, como Lafargue, o apologista do direito à preguiça.

A fábrica, a fábrica, atua de maneira física e mental. O sindicato, a luta de classes, continuam e completam o trabalho, a educação que aí começa.

“A fábrica — aponta Gobetti — dá uma visão precisa da coexistência de interesses sociais: a solidariedade do trabalho. O indivíduo se acostuma a se sentir parte de um processo produtivo, uma parte indispensável da mesma maneira que insuficiente. Aqui é a escola mais perfeita de orgulho e humildade. Sempre me lembrarei da impressão que tive dos trabalhadores, quando me ocorreu visitar as fábricas da Fiat, um dos poucos estabelecimentos capitalistas anglo-saxões, modernos e capitalistas que existem na Itália. Sentia neles uma atitude de domínio, uma segurança sem pose, um desprezo por todo tipo de dilentantismo. Quem mora em uma fábrica, tem a dignidade do trabalho, o hábito de sacrifício e da fadiga. Um ritmo de vida que se baseia severamente no senso de tolerância e interdependência, que habita pontualidade, rigor, continuidade. Essas virtudes do capitalismo se ressentem de um ascetismo quase árido; mas, por outro lado, o sofrimento alimenta, exasperado, a coragem da luta e o instinto de defesa política. A maturidade anglo-saxônica, a capacidade de acreditar em ideologias precisas, de enfrentar os perigos de fazê-las prevalecer, a rígida vontade de praticar a luta política com dignidade, nascem desse noviciado, que significa a maior revolução que veio depois do cristianismo”.

Esse ambiente severo, de persistência, de esforço, de tenacidade, temperou as energias do socialismo europeu que, mesmo em países onde o reformismo parlamentar prevalece sobre as massas, oferece aos indo-americanos um exemplo admirável de continuidade e duração: Cem derrotas sofreram nesses países os partidos socialistas, as massas sindicais, no entanto, a cada ano novo, a eleição, o protesto, qualquer mobilização ordinária e extraordinária, os achava sempre acentuados e teimosos. Labriola louvou, no socialismo alemão,

“este caso verdadeiramente novo. Essa é uma grande consciência da pedagogia social, ou seja, em um número tão grande de trabalhadores e pequenos burgueses, forma-se uma nova consciência, para a qual o sentimento principal da situação econômica, que induz a luta, e a propaganda do socialismo, era entendida como objetivo e ponto de chegada”.

Se o socialismo não deveria ser realizado como uma ordem social, esse trabalho formidável de educação e elevação seria suficiente para justificá-lo na história. O próprio homem admite esse conceito dizendo, embora com intenções diferentes, que “o essencial do socialismo é a luta por ele”, uma frase que lembra muitos daqueles em que Bernstein aconselhou os socialistas a se preocupar com o movimento e não com o fim, dizendo , segundo Sorel, uma coisa muito mais filosófica do que o líder revisionista pensava.

De Man não ignora a função pedagógica e espiritual do sindicato e da fábrica, embora sua experiência seja mediocramente social-democrata.

“As organizações sindicais — observa — contribuem, muito mais do que a maioria dos trabalhadores e quase todos os empregadores supõem, para fortalecer os laços que vinculam o trabalhador ao trabalho. Eles obtêm esse resultado quase sem saber, tentando manter a aptidão profissional. e desenvolver a educação industrial, organizando o direito de inspeção dos trabalhadores e democratizando a disciplina da oficina, pelo sistema de delegados e seções, etc. Dessa forma, eles fornecem ao trabalhador um serviço muito menos problemático, considerando-o como cidadão de uma cidade futura, ao invés de buscar o remédio no desaparecimento de todas as relações psíquicas entre o trabalhador e o ambiente da oficina".

Mas o neo-revisionista belga, apesar de sua vanglória idealista, encontra a vantagem e o mérito disso no crescente apego do trabalhador ao seu bem-estar material e na medida em que o torna um filisteu.

Paradoxos do idealismo pequeno-burguês!

Capítulo VI da obra Defensa del Marxismo

Escrito por José Carlos Mariátegui

Do marxists.org

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