"Sobre o futuro do maoísmo no Nepal"

26/09/2019

 

O Site Redspark.nu conversou com o Camarada Basanta, um membro do Departamento Político da PCN (Maoísta Revolucionário), o partido liderado pelo Camarada Kiran no Nepal. Desde 1997, o Camarada Basanta tem trabalhado nas relações internacionais entre Maoístas do Nepal e o resto do mundo. Somos gratos que ele tenha concordado em nos responder algumas questões:

Redspark: No MCI (Movimento Comunista Internacional), muitas pessoas estão confusas sobre a fusão dos partidos de Prachanda e Oli. Você poderia nos dar sua perspectiva do que aconteceu e por quê?
O PCN (Maoista) e o PCN (MLU - Marxista-Leninista Unificado) foram dois partidos políticos atuantes no Nepal até recentemente. O PCN (MLU) seguiu uma linha revisionista de direita conhecida como democracia multipartidária do povo. Seguiu o caminho parlamentar eleitoral para atingir seu objetivo político final logo após a fundação da chamada democracia multipartidária, em 1990, sob a monarquia constitucional. O PCN (Maoísta) foi um partido revolucionário desde a sua formação, em 1992, e se engajou na luta armada para derrubar o sistema parlamentar reacionário e, então, estabelecer a Nova República Democrática do Nepal. Em 13 de fevereiro de 1996, iniciou a Guerra Popular Prolongada. Subsequentemente, o PCN (MLU) rotulou o PCN (Maoísta) como uma organização terrorista, e a última denominou a primeira como um grupo reacionário. Portanto, eles estavam posicionados em pólos diametralmente opostos, com a mesma sigla: O Partido Comunista do Nepal com suas identidades em parênteses.

No entanto, esses dois partidos, o PCN (MLU) e o PCN (Centro Maoísta) [renomeado depois], liderados respectivamente por KP Oli e PK Dahal, uniram-se em 17 de maio de 2018 para formar um novo partido: o Partido Comunista do Nepal (PCN). Agora, a questão que assombra o povo é: como esses dois partidos, anteriormente posicionados em pólos opostos, chegaram a um ponto de convergência?

Para isso acontecer, uma das três condições a seguir deve ser cumprida. Um: ambos alcançarem uma unidade ideológica e política sobre as questões básicas da transformação revolucionária do Nepal, travando uma séria luta de duas linhas em seus respectivos partidos. Dois: o PCN (MLU) abandonar a linha e o legado revisionista de seu passado e concordar com a linha revolucionária seguida pelo PCN (Maoísta). Três: o PCN (Centro Maoísta) abandonar a linha revolucionária e seguir o caminho PCN (MLU). Para colocar de outra maneira, como é possível que dois pedestres, que caminhavam em duas direções opostas, apontassem na mesma direção, a menos que um deles fizesse uma inversão de marcha ou ambos decidissem mudar suas respectivas direções e seguissem o mesmo? É uma importante questão.

Aqui, surge uma questão: o Centro Maoísta adotou a linha MLU apenas no processo de unidade? Não, isso começou um bom tempo antes. O antigo PCN (Maoísta) começou a conceber a linha MLU desde o dia que foi colocado, na conferência do partido, um documento intitulado “Democracia no século 21”. Depois, a reunião do Comitê Central Chunwang deu à luz à República Democrática. A eleição da assembleia constituinte, a reestruturação do Estado, a compreensão dos 12 pontos, etc. foram eventos que colocaram um tijolo no processo dos maoístas deslizando em direção à linha MLU. Ao chegar ao chamado acordo de paz abrangente, o desarmamento do Exército de Libertação do Povo (ELP), a declaração do fim da guerra popular, a submissão do ELP ao Exército Nepalês e a promulgação de uma constituição reacionária a partir da segunda assembleia constituinte, o curso do Centro Maoísta em transformar-se, ideológica e politicamente, na linha MLU foi essencialmente concluído. Desde então, os dois partidos (CM e MLU) existiram separadamente apenas no nome. A recente fusão foi apenas uma revelação aberta de sua essência ideológica e política compartilhada. Isso foi uma clara manifestação da degeneração de Prachanda em reação. Todo este processo, uma vez mais, justificou a assertiva de Mao que, em última análise, o revisionismo é a reação.

Redspark: Como essa fusão modifica a situação para os revolucionários?
De um modo geral, a fusão de dois “gigantes partidos comunistas” se tornou um problema de grande clamor público entre o povo, nacional e internacionalmente.

No entanto, um revolucionário deve olhar para isso de dois ângulos, principalmente. Um: uma liderança que retratou uma imagem revolucionária no passado agora se submeteu a um partido reacionário por meio dessa fusão. Revolucionários em todo o mundo são prejudicados por isso. Isso causou grande frustração e pessimismo entre os povos revolucionários e desconfiança para com os Maoístas. Dois: esse evento trouxe a verdadeira essência revisionista do PK Dahal à tona aos povos do mundo. Agora, ele não terá mais oportunidade de tirar vantagem de seu legado revolucionário e de confundir o povo revolucionário. Ninguém mais terá que ouvir as terminologias como Maoísmo, Guerra Popular, Nova Democracia, ELP, revolução, etc. em seus discursos nos dias por vir. As classes dominantes imperialistas e expansionistas tornaram-se seus irmãos de classe. Através da fusão, ele deu um salto para a forma que convinha com sua essência; ele esclareceu de qual lado está. Esse é o aspecto positivo que se deve notar da fusão do CM com a MLU. De fato, esse ato expôs o revisionismo que tem prevalecido em Prachanda. Nesse sentido, ele deve ser agradecido.

Redspark: Ao mesmo tempo, podemos ver que seu Partido vem desenvolvendo novas organizações de massa no último ano. O que ela conseguiu alcançar até agora? Você pode nos dar como exemplos algumas de suas campanhas que você liderou?
Sim. Subsequentemente à deserção do Grupo Badal para formar o Centro Maoísta em 2016, nosso partido enfrentou uma situação difícil. Nós conscientemente enfrentamos esse desafio em quatro passos. O primeiro passo: nós convocamos uma conferência nacional em outubro de 2017 para adotar nossos documentos ideológicos e políticos e, assim, aprimorar nossa compreensão. O segundo passo: colocamos ênfase na organização e desenvolvemos uma rede mínima de trabalho do partido e das organizações de massa, tanto vertical e horizontalmente, em quase todo o país. O terceiro passo: decidimos nos engajar na organização e luta simultaneamente, mas fazendo um deles como principal, dependendo da situação dada. E o quarto passo: decidimos em dar ênfase nas diferentes formas de luta e expansão, e em consolidar nossa organização através disso. Baseados nesses pontos, agora estamos tentando desenvolver várias formas de luta centradas na independência nacional, nos direitos democráticos do povo e em seu sustento à nível nacional. Além disso, agora estamos trabalhando duro para desenvolver uma luta de classes revolucionária e a resistência contra as variadas formas de inimigos de classe em nível local e, assim, expandir e consolidar nosso partido e organizações de massa.

Redspark: Desde a capitulação da Guerra Popular, muitas coisas mudaram no Nepal. Qual é a opinião de seu Partido sobre a estratégia revolucionária que deve adaptar?
Sua afirmação na questão: “Desde a capitulação da Guerra Popular, muitas coisas mudaram no Nepal” é superficialmente verdadeira. Definitivamente, houve mudanças na forma, mas a essência permanece a mesma. As mudanças que foram trazidas são: república, federalismo, secularismo, etc.

Elas representam apenas reformas triviais sob a ordem reacionária democrática da burguesia. O país ainda continua a ser semi-feudal e semi-colonial e, principalmente, em condição neocolonial. A nova democracia, a estratégia política mínima de tais países está longe de se materializar. No entanto, houve algumas mudanças em alguns fatores objetivos e subjetivos no Nepal. Mas essas mudanças têm mais relação com aspectos globais do que com as domésticas. Eles podem ser brevemente apontados como segue.

Eles representam apenas reformas triviais sob o establishment reacionário democrático da burguesia. O país ainda continua em semi-feudal e semicolonial e principalmente em condição neocolonial. A nova democracia, a estratégia política mínima de tais países, está longe de se materializar. No entanto, houve algumas mudanças em alguns fatores objetivos e subjetivos no Nepal. Mas, essas mudanças têm mais relação com aspectos globais do que as domésticas. Eles podem ser brevemente apontados como segue.

A lacuna entre as áreas urbanas e rurais se estreitou. A capacidade de vigilância dos reacionários chegou aos cantos mais distantes do país, graças ao desenvolvimento da tecnologia da informação. A história da luta do povo no Nepal mostra que há uma relação recíproca entre as lutas nacionais e locais, em que uma influencia instantaneamente na outra. Há uma história gloriosa de lutas pacíficas e violentas no Nepal, e elas se tornaram úteis uma para a outra. Há um grande potencial de constituir uma frente única ampla e abrangente entre todo o povo oprimido e formar um ELP forte. Os revolucionários adquiriram uma experiência inestimável na construção e liderança no passado. Estes são os ganhos revolucionários, adquiridos principalmente da Grande Guerra Popular e das lutas de massas realizadas no passado no Nepal.

Os fatores citados decidirão o caminho da revolução adequado para realizar a Nova Revolução Democrática no Nepal. Desse ponto de vista, nosso partido decidiu que o caminho da revolução não será uma insurreição do modelo russo nem a Guerra Popular Prolongada do modelo chinês. Nós temos que desenvolvê-lo. Ele incorporará táticas adequadas de ambos os modelos, mas será baseado no princípio da insurreição armada do povo. Na verdade, será uma insurreição armada do povo de tipo Nepalês.

26 de julho de 2019

Entrevista realizada pelo redspark.nu

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