Gramsci: "Socialistas e Fascistas"

12/09/2019

 

A posição política do fascismo é determinada pelas seguintes circunstâncias básicas.

1. Os fascistas, nos seis meses de sua atividade militante, se sobrecarregaram com uma bagagem extremamente pesada de atos criminosos que permanecerão impunes apenas enquanto a organização fascista for forte e temida.


2. Os fascistas puderam realizar suas atividades apenas porque dezenas de milhares de funcionários do Estado, especialmente nas forças de segurança pública (polícia, guardas reais, carabineiros) e na magistratura, se tornaram seus cúmplices morais e materiais. Esses funcionários sabem que sua impunidade e suas carreiras estão intimamente ligadas às fortunas da organização fascista e, portanto, têm todo o interesse em apoiar o fascismo em qualquer tentativa que possa fazer para consolidar sua posição política.


3.Os fascistas possuem, espalhados por todo o território nacional, estoques de armas e munições em quantidades que são suficientes para criar pelo menos um exército de meio milhão de homens.


4. Os fascistas organizaram um estilo militar de sistema hierárquico que encontra seu ápice natural e orgânico no Estado-Maior.

É lógico que os fascistas não querem ir para a prisão e que, ao invés disso, querem usar sua força — toda a força que têm à disposição — para permanecerem impunes e alcançarem o objetivo final de todo movimento: manter o poder político.

O que os socialistas e os líderes da Confederação pretendem fazer para impedir que o povo italiano seja submetido à tirania do Estado-Maior, dos grandes proprietários de terras e dos banqueiros? Eles estabeleceram um plano? Eles têm um programa? Parece que não. Poderiam os socialistas e os líderes da Confederação estabelecer um plano clandestino? Isso seria ineficaz, porque apenas uma insurreição das grandes massas pode esmagar um golpe reacionário; e insurreições das grandes massas, apesar de precisarem de preparação clandestina, também precisam da legalidade, de propaganda aberta para orientar o espírito das massas e preparar sua consciência.

Os socialistas nunca encararam seriamente a possibilidade de um golpe de estado, nem se perguntaram que provisão deveriam fazer para se defender e passar à ofensiva. Os socialistas, acostumados como são a mastigar estupidamente algumas pequenas fórmulas pseudomarxistas, rejeitam a ideia de revoluções "voluntaristas", "esperando milagres" etc, etc. Mas se a insurreição do proletariado fosse imposta pela vontade dos reacionários, que não podem ter escrúpulos "marxistas", como o Partido Socialista deveria se comportar? Deixaria, sem resistência, a vitória para a reação? E se a resistência fosse vitoriosa, se o proletariado se levantasse e derrotasse a reação, que slogan o Partido Socialista daria: entregar as armas ou levar a luta até o fim?

Acreditamos que essas questões, neste momento, estão longe de serem acadêmicas ou abstratas. Pode ser, é verdade, que os fascistas, que são italianos, e que têm toda a indecisão e fraqueza de caráter da pequena burguesia italiana, imitarão a tática seguida pelos socialistas na ocupação das fábricas: irão recuar e abandonar à justiça punitiva de um governo dedicado à restauração da legalidade daqueles que cometeram crimes e seus cúmplices. Pode ser esse o caso. No entanto, é uma tática ruim colocar a confiança nos erros de seus inimigos e imaginar que os inimigos são incapazes e inaptos. Quem tem força, usa. Quem sente que corre o risco de ir para a prisão, fará o impossível para manter sua liberdade. Um golpe de Estado dos fascistas, isto é, do Estado-Maior, dos proprietários de terras e dos banqueiros, é o espectro ameaçador que paira sobre essa legislatura desde o início. O Partido Comunista tem sua linha: lançar o slogan da insurreição e levar o povo em armas à sua liberdade, garantida pelo Estado operário. Qual é o slogan do Partido Socialista? Como as massas ainda podem confiar neste partido, que limita sua atividade política a gemer, e propõe apenas garantir que seus deputados façam discursos "magníficos" no Parlamento?

11 Junho 1921

 

Escrito por Antonio Gramsci

Publicado no L'Ordine Nuovo


Do marxists.org

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