Apontamentos sobre a contrarrevolução na Hungria Socialista em 1956

27/08/2019

 

Após a morte de Stálin, o Comitê Central do Partido dos Trabalhadores Húngaros (reunido entre os dias 27 e 28 de junho de 1953) critica os “erros” esquerdistas da direção de Rákosi, Gerö e Farkas. Esta mesma reunião nomeia o oportunista Imre Nagy, reabilitado no Partido, para o cargo de primeiro-ministro. Nagy era abertamente contra a ditadura do proletariado e defendia o capitalismo de Estado para, segundo ele, “desenvolver as forças de produção”. Mesmo com todas as manobras revisionistas, Gerö continua à frente da secretaria-geral do PTH.

Em novembro de 1955 Rákosi, que liderava o CC, havia expulsado Nagy do Partido. O XX Congresso do PCUS, realizado no início de 1956, dá nova vida a Nagy (e outros oportunistas em todo o campo socialista) que lidera a oposição ao “stalinismo” no país. A espionagem norte-americana, comandanda por Foster Dulles, dirige o movimento reacionário - através de transmissões da Rádio Europa Livre - para “desintegrar completamente o comunismo”, começando pelos países “satélites”. Dentro da Hungria, o chamado Círculo Petöfi [1], desde o ano anterior reunia intelectuais anticomunistas que vinham organizando reuniões e debates sobre o que diziam ser o “autêntico socialismo”. O Círculo influenciava setores estudantis da Universidade Politécnica de Budapeste e convoca para o dia 23 de outubro de 1956 uma manifestação em solidariedade às mudanças ocorridas na Polônia de Gomulka [2]. O famigerado nacionalismo burguês húngaro também é incentivado e utilizado principalmente contra a URSS. Entre 23 a 28 de outubro os ataques acontecem, rechaçadas por grande parte do Exército local e por milícias operárias antifascistas. Um “governo” liderado por Nagy divulga uma carta com 12 pontos, entre eles a saída do pacto de Varsóvia e as eleições livres.

Em outubro de 1956, após reunião do CC do Partido no dia 23, mesmo dia da convocação da “greve” pelos agentes provocadores anticomunistas, János Kádar (ligado ao líder iugoslavo Tito e, portanto, tão oportunista quanto os outros) e Ferenc Munnich defendem uma unidade do Partido com Nagy. Mathias Rákosi e Enrö Gerö são isolados. Nagy, reconduzido como primeiro-ministro e reabilitado no Partido, aplica os pontos dos contrarrevolucionários fascistas apoiados pela CIA, incluindo a retirada das tropas soviéticas do país e a volta do pluripartidarismo. A Igreja Católica dá total apoio. O cardeal nacionalista húngaro Mindszenty é libertado da prisão e volta à cena política. Nagy, agora com maioria, dissolve o Partido dos Trabalhadores Húngaros e cria uma nova organização socialdemocrata, o Partido Socialista Operário Húngaro. A propriedade privada é autorizada. Comunistas começam a ser presos e assassinados em todo o país pela polícia da “revolução nacional”. Em 1º de novembro, os revisionistas Kádar e Munnich rompem com o governo Nagy e proclamam, com apoio de Khruschev, um “governo revolucionário de operários e camponeses”, apoiado também pelo Exército Vermelho, embora continuem atacando Rákosi e Gerö e defendendo o “movimento popular” de 23 de outubro. Suslov, homem forte na URSS e Andropov, embaixador soviético em Budapeste, ainda tentam defender Nagy a esta altura. Kádar é confirmado como novo líder do PTH. O revisionismo continua apontando o “stalinismo” como principal motivador dos erros.

Revisionismo de Khruschev
Este roteiro contrarrevolucionário surge justamente ao mesmo tempo em que o Movimento Comunista Internacional, após as calúnias contra Stálin feitas por Nikita Khruschev, inicia um processo de implosão que beneficiaria a burguesia mundial, enfraquecendo o socialismo e os países do campo socialista incluindo a própria União Soviética.

No processo que corroeu a construção do socialismo na Hungria se deu com um argumento: o combate ao “stalinismo”. O próprio XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em princípios de 1956 foi o início de fato da contrarrevolução no Movimento Comunista Internacional e a implosão desse mesmo movimento. Foi determinante para o sucesso do desmonte o relatório “secreto” do então secretário-geral do PCUS, Nikita Khruschev. Stálin, colocado como culpado por todos os erros (e, para estes traidores, só existiram erros), virou um demônio e seu expurgo foi aceito sem muita resistência concreta por parte dos partidos comunistas. Somente o pequeno Partido do Trabalho da Albânia e o ainda não influente Partido Comunista da China ousaram, mesmo assim com alguns anos de atraso após o XX Congresso, em fazer duras críticas contra o revisionismo soviético. O Partido húngaro, assim como a grande maioria, seguiu fielmente a linha capitulacionista e de traição ao marxismo-leninismo proposta pelos bandidos liderados por Khruschev.

A contrarrevolução avança
A contrarrevolução tem início de fato em 23 de Outubro de 1956 quando as manifestações contra o governo socialista explodem. Estudantes e uma minoria operária iniciam provocações contra forças do governo socialista. Para Ludo Martens, a Rádio Europa Livre foi um dos principais responsáveis pela divulgação de informações falsas e com ajuda da Agência Central de Inteligência dos EUA, a famigerada CIA, pregando “uma política de ampla unidade popular, alertando contra qualquer forma de precipitação. É necessário glorificar os valores nacionais húngaros e pedir um ‘aperfeiçoamento’ e uma ‘retificação’ do sistema socialista. (...) Com essa finalidade, a CIA lança a palavra de ordem: ‘Fazer da revolução uma revolução permanente!’” [3].

Já no mesmo dia 23 os primeiros ataques armados contrarrevolucionários contra Budapeste acontecem e militares que deveriam reprimir as ações mudam de lado a aderem à contrarrevolução. O general Andras Zako, líder da organização fascista Veteranos da Hungria e colaborador dos nazistas, assume o comando da insurreição armada que também conta com membros das milícias fascistas da organização Cruzes de Setas e desertores do exército húngaro. Por outro lado, o Partido organiza milícias operárias para defesa da revolução. O exército húngaro em sua maioria permanece fiel e recebe apoio de oficiais soviéticos, assim como de milícias operárias antifascistas. Poucos dias depois os bandidos fascistas estão praticamente derrotados.

O revisionismo do Partido dos Trabalhadores Húngaros liderado por Nagy acaba por prevalecer em momentos decisivos. Rákosi e Gero, isolados e chamados de “stalinistas”, embora os mais combativos eram minoria; Kádar e Munnich, “centristas”, pregam uma unidade até com o traidor Nagy que conspirava contra o socialismo junto a estudantes e intelectuais. Ainda segundo Martens, Kádar diria mais tarde que foram “reticentes em tomar a decisão muito séria de revelar ao mundo que não havia unidade no seio do órgão dirigente superior do Partido e do Governo”.

Em 28 de outubro, Nagy decreta um cessar fogo e anuncia a adoção do Programa contrarrevolucionário criado pela CIA, classificando como “nacional e democrático” o movimento fascista. Imre Nagy se torna a principal liderança dessa contrarrevolução. Alegando combater o “stalinismo”, Nagy declara em 30 de outubro que: “o governo reconhece todas as autoridades locais, autónomas e democráticas, criadas pela revolução (grifo nosso), nós apoiamo-nos nelas e pedimos-lhes o seu apoio (...). O gabinete aboliu o sistema de partido único e coloca o governo na base da cooperação democrática entre partidos de coligação, como existiam em 1945”. É um ato típico de bandidos contrarrevolucionários. Em meio a essas declarações, o próprio PTH é dissolvido e criado um novo, o Partido Socialista Operário Húngaro. Outros partidos são recriados e todos defendem a volta da propriedade privada (incluindo aí o grande latifúndio) como centro das reivindicações. O cardeal nacionalista Mindszenty, entusiasta da contrarrevolução fascista, é outro dos defensores da restauração do regime burguês.

Nagy também declararia o afastamento da Hungria do Pacto de Varsóvia e a neutralidade (sic) no plano internacional. Essa neutralidade significava na verdade uma aproximação do país ao imperialismo norte-americano e o recebimento de empréstimos para uma suposta recuperação econômica do país. Era a decretação do fim da construção socialista na Hungria e a capitulação diante do inimigo imperialista. Mesmo para o revisionismo de Khruschev e do Partido Comunista da União Soviética, a contrarrevolução húngara era muito acelerada e colocava em riscos a manutenção da própria URSS.

A partir de 1º de novembro, a caça aos comunistas se inicia e mais de três mil são presos. A social-democracia europeia colabora com a contrarrevolução, enviando ajuda e os trotskistas, a exemplo do alemão Ernest Mandel, comemoravam a “revolução húngara” como antiburocrática e popular e defendendo que a partir dali se caminhava para um verdadeiro “socialismo democrático”. Até hoje o trotskismo vê com simpatias a contrarrevolução húngara. Fica bem clara, nesse sentido, a união de fascistas, socialdemocratas e trotskistas na cruzada contra o socialismo. No mesmo dia, Kádar e Munnich rompem com Nagy e proclamam um Governo Revolucionário de Operários e Camponeses e iniciam, com ajuda das tropas do Pacto de Varsóvia, ofensivas contra os grupos fascistas. Cerca de três mil provocadores são mortos. No entanto, Kádar continuava atacando os revolucionários Rákosi e Gero. Para Ludo Martens, Rákosi era um autêntico bolchevique e falhou na tentativa de organizar um Partido marxista-leninista de fato após a Grande Guerra. O Partido húngaro saído da destruição pós-nazistas era um verdadeiro balaio de gatos, com uma pequena hegemonia social-democrata (de onde sairia Kádar) e outras várias tendências confusas da pequena-burguesia. Foi o XX Congresso sob Khruschev que reabilitou todos os inimigos do socialismo como Nagy, Rajk e do próprio Kádar. Com todas as demonstrações de traição por parte de Nagy, desde o início da contrarrevolução, os dirigentes soviéticos encarregados das relações exteriores, Suslov e Andropov, “perdoam” o húngaro e o garantem no poder. O caminho para a restauração capitalista fora adiado, mas não liquidado.

A derrocada do socialismo no Leste da Europa, promovida pelo revisionismo, estava só começando...

Escrito por Clóvis Manfrini

Notas
[1] Em homenagem ao poeta nacionalista Sándor Petöfi e que, como forma de mobilização, cantavam o hino burguês A marselhesa em suas manifestações.
[2] Władysław Gomułka, revisionista, secretário-geral do Partido Operário Unificado da Polônia que iniciou uma série de reformas liberalizantes após o XX Congresso do PCUS.
[3]  https://www.marxists.org/portugues/martens/1991/veludo/cap04.htm

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