A Doutrina Monroe no século XXI: conjuntura da América Latina

05/08/2019

 
Com a eleição de Donald Trump em 2016, deu-se início a uma virada ideológica na política e na sociedade dos países da América Latina e de outras regiões do mundo. É o que chamamos de “trumpismo”. Com a sua vitória, Trump inaugurou um outro projeto imperialista, diferente daquele seguido pelos Democratas, mas que no fundo tem a mesma natureza agressiva e colonizadora, portanto não se trata de uma contradição antagônica. Devemos destacar que a eleição de Trump representou a derrota de diversas franjas das elites estadunidenses e internacionais que apoiavam Hillary Clinton. A candidata do Partido Democrata seria a representante do capital financeiro e especulativo, tinha o apoio de toda mídia Ocidental, com raras exceções, como o Grupo Fox dos Estados Unidos. Grandes multinacionais como McDonalds, Starbucks, Kentucky Fried Chicken etc. que exploram o trabalho de imigrantes vindos de todas regiões da América Latina, principalmente do México, também financiaram Hillary Clinton no processo eleitoral. A genocida se apoiaria em uma política externa típica de um Império caótico em queda livre, lançando empreitadas bélicas diretas contra as semicolônias. Exatamente como Barack Obama fez na Síria, Líbia etc., e investindo em Revoluções Coloridas pelo globo. Com isso deve-se destacar que a indústria bélica obteria lucro com ambos os projetos imperialistas mundo afora.

Donald Trump se apresenta como elemento dos estratos burgueses ligados à indústria, à tecnologia, ao setor bélico e ao setor comercial. Tudo isso com o objetivo de arrebatar mercados e aliados estratégicos pelo mundo. O republicano focaliza no fortalecimento do estado nacional, como reza o seu slogan “fazer a América grande de novo”, no protecionismo econômico e no fortalecimento do mercado de trabalho interno. Em sua campanha Trump conseguiu conquistar os votos decisivos do proletariado branco do chamado Rust Belt, ou cinturão enferrujado, antigo polo industrial que agora acumula um grande contingente de desempregados. Trump prometeu mais empregos para os trabalhadores muitas vezes com tendências xenofóbicas e racistas de Michigan, Wisconsin, Indiana, Illinois, Ohio e Pennsylvania. Em relação ao plano internacional, prioriza a intervenção direta, mas por ora – exceto pelo bombardeio na Síria em 2017, seguindo o rastro de Obama –, não necessariamente através de guerras de agressão de tipo clássico, mas sim no sentido de facilitar que candidatos fantoches cheguem ao poder através de diversos métodos de Guerra Híbrida, como as Fake News. A grande semelhança entre esses dois projetos imperialistas de naturezas não distintas é continuidade das agressões comerciais e militares contra Rússia, China, países não alinhados do Oriente Médio, América Latina, Caribe etc. Além do mais a disputa encarniçada entre Republicanos e Democratas é travada no chamado Estado Profundo norte americano, o Deep State, que há muito tempo é dominado pela camarilha dos Clinton, entretanto com a eleição de Trump a correlação de forças no Estado Profundo vem se equilibrando. Quase que a totalidade da esquerda brasileira não consegue compreender as contradições no coração do imperialismo e seus reflexos no Brasil, distanciando-se de uma análise concreta da realidade concreta.

Uma das figuras centrais da ideologia por trás do “trumpismo” é Steve Bannon, estrategista de boa parte dos políticos dessa nova onda fascista que vem tomando o Ocidente. Bannon é ex-diretor do site Breitbart News, que divulga ideias que vão do supremacismo branco cristão, passando pelo antissemitismo, xenofobia, antiterrorismo, islamofobia, misoginia até o discurso anti-China. O ideólogo de Trump criou o grupo chamado “O Movimento”, justamente para disseminar essa visão de mundo retrograda. Atuou como estrategista de campanha do atual presidente norte-americano e de janeiro a abril de 2017 ocupou cargo no Comitê dos Diretores do Conselho de Segurança Nacional. Steve Bannon também ocupou o cargo de diretor da Cambridge Analytica, empresa responsável pelos disparadores de Fake News que ajudaram a promover a vitória do Brexit em 2016, de Trump e Bolsonaro. Essa estratégia se insere no cenário da formação de uma aliança global para nova empreitada fascista, sob a tutela dos EUA.

Atualmente não ocupa mais nenhum cargo no governo norte-americano. Deixou o posto para se dedicar a uma cruzada esquizofrênica contra o “globalismo” e o “marxismo cultural”, que segundo ele vem destruindo os valores cristãos ocidentais. A Itália é a plataforma na qual Bannon, assessor do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e do vice primeiro ministro da Itália, Matteo Salvini, está articulando alianças para os próximos pleitos eleitorais na Europa.

Vemos na América Latina uma escalada no sentido da derrubada dos governos ditos progressistas como também o uso de mecanismos de Guerra Hibrida para impedir que essas figuras políticas de centro-esquerda sejam eleitas ou reeleitas. Essa empreitada continua na agenda dos latifundiários e da burguesia burocrático-compradora e, para não ser diferente, do imperialismo norte-americano, que vem perdendo influência no Oriente Médio e em outras regiões do mundo, sendo obrigado a recolonizar a América Latina. Afastar a crescente influência de China e Rússia na região também está na agenda do dia. É a famosa Doutrina Monroe mais presente do que nunca, ou, em outras palavras, um Plano Condor do século XXI. Essa recolonização do Cone Sul lançada por Trump visa destruir os movimentos populares, colaborar militarmente com os EUA e a OTAN – vide o caso colombiano – e difundir massivamente ideias de caráter anti-nacional, anti-esquerda, liberais etc. Não podemos deixar de mencionar os nomes das figuras do governo Trump que exercem imensa influência sobre este, como o destacado John Bolton, que ocupa o cargo de Conselheiro de Segurança Nacional, o Secretário de Estado Mike Pompeo, o vice presidente Mike Pence, Ellitot Abrams e Marco Rubio cuidando das intervenções na América Latina, Gina Haspel, diretora da CIA, e o sionista e conselheiro de Trump sobre os assuntos referentes ao Oriente Médio, Jared Kushner, entre outros psicopatas genocidas.

- Brasil
Aqui o reflexo desse processo é encarnado na figura de Jair Bolsonaro, cujo ideólogo é Olavo de Carvalho.  Bolsonaro chegou ao poder graças à Guerra Híbrida promovida pela sua campanha de governo, teleguiada, por sua vez, por Steve Bannon. O país é um dos eixos centrais dessas agressões devido às suas dimensões geopolíticas, recursos naturais e a relação com a China. A ascensão de Bolsonaro nada mais é que a reafirmação trumpista no cenário internacional.  A destruição da figura e governo de Jair Bolsonaro pela mídia ocidental, principalmente do bloco Atlantista – incluso a maioria da grande mídia burguesa brasileira -, historicamente aliada aos setores das elites representadas pelos Democratas, escancara as disputas no interior do imperialismo.

Por trás de Bolsonaro e ocupando diversos cargos no governo estão os militares. Sabemos que desde o golpe militar-fascista de 64, a Escola das Américas e seus agentes domésticos se dedicaram a expurgar todos os quadros nacionalistas e revolucionários do interior do exército; desde então podemos dizer que na alta cúpula existem militares fascistas e entreguistas em menor ou maior grau. Os militares veem em Bolsonaro uma catapulta para seus interesses, evidentemente todos funcionando no sentido do servilhismo aos EUA.

Em visita aos EUA, Jair Bolsonaro firmou acordos com Trump, que colocam o Brasil como um aliado extra-OTAN, um posto que permite a entrega de unidades de defesa e a elaboração de manobras conjuntas. Em outro ato de pura submissão, Bolsonaro deu de bandeja a base de Alcântara para os americanos, que agora irão mandar e desmandar no local. As políticas de segurança dos EUA em relação à América Latina e ao Caribe vêm sendo orientadas há décadas para garantir o acesso e o controle de recursos naturais. No caso brasileiro, o aprofundamento dos laços de defesa e segurança com os EUA anda de mãos dadas com a abertura de mercados para empresas estadunidenses, especialmente no setor de hidrocarbonetos. [1]

- Cuba
Como se não fosse diferente, na contramão de toda América Latina desde 1959, Miguel Díaz-Canel assume o governo convicto de que seguirá o legado de Fidel e Raul. Em abril de 2019 entrou em vigor a nova constituição cubana, aprovada pela Assembleia Nacional, recebendo aval por meio de consulta popular de mais de seis milhões de eleitores. A nova constituição, que substitui a de 1976, tem como meta atualizar os modelos econômicos e sociais da ilha caribenha. No campo social, o progresso promovido pela nova constituição em relação à igualdade de mulheres e homens é um dos pontos positivos a se destacar. A proibição da discriminação contra pessoas LBGT é outro ponto de grande relevância.

Na esfera econômica, a propriedade privada assume um papel complementar na economia. O reconhecimento do enriquecimento individual, da liberdade de expressão e do Estado Laico também foram garantidos. Na atualidade, Cuba contabiliza mais de 500 mil trabalhadores no setor privado e de serviços. A economia planificada foi mantida. Entre as mudanças políticas, a nova constituição cria o cargo de primeiro ministro como chefe de governo. O presidente permanecerá como chefe de Estado e terá um mandato de cinco anos, com direito a uma reeleição que só será permitida em sujeitos com até 60 anos idade. A regra de partido único não foi alterada e o Estado mantém o monopólio das terras. [2]


Frente a esse cenário de avanços e readaptações, os EUA endurecem ainda mais as sanções contra Cuba, em um processo que vem desde 2017, destruindo os acordos que Obama havia traçado em sua visita à ilha em 2016. Agora os cidadãos norte-americanos não poderão mais viajar em grupo para Cuba. Outro exemplo de retrocesso promovido por Trump é a nefasta Lei Helms-Burton, aprovada em 1996 no governo de Bill Clinton – época do chamado período especial cubano – mas implementada apenas agora.  A Lei permite ações na Justiça americana contra empresas estrangeiras que usam propriedades confiscadas pelo governo de Cuba no início dos anos 60. Essa medida irá afetar investimentos europeus e canadenses no país [3]. Para além das sanções econômicas, o imperialismo vem tentando investir na formação de “lideranças cubanas” engajadas na luta pelos “direitos humanos contra a ditadura”, exatamente como fizeram com Juan Guaidó na Venezuela. [4]

- Venezuela
Com a premissa de que “todas as opções estão sobre a mesa”, Trump continua a sangrar a Venezuela por todas as vias. As pressões contra o país de Bolívar e Chavez foram redobradas em 2019 com a tentativa frustrada de Golpe. O fato teve várias consequências: destruiu por completo a imagem do serviçal incapaz Juan Guaidó e a oposição do governo foi enfraquecida, restando isolados os agentes políticos mais radicais. Como no processo ocorrido no curso das Guarimbas, estancadas de 2014 e 2017, os rachas na oposição vêm crescendo.

Mesmo com os recentes fracassos, os Estados Unidos tentam continuamente promover a mudança de regime contra Nicolás Maduro por meio de diversas frentes. Uma delas é a tentativa de cooptar os militares de alto escalão a trair a Revolução Bolivariana, empreitada que por ora demonstra ser um grande fracasso. Outra articulação reside na persuasão e compra de políticos, formação de lideranças e o financiamento de protestos violentos. [5]
A derrubada de Maduro tem como objetivo a rapina das abundantes jazidas de petróleo, a ampliação de sua influência geopolítica e geoestratégica, e a interrupção da expansão das zonas de influência de Rússia e China na porção sul do continente.

- Nicarágua
Na mira do Império, mesmo com uma paulatina perda de sua essência política, guinando à direita, o governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) de Daniel Ortega, que foi reeleito em 2007, vem sendo atacado pelas guarimbas promovidas pela direita – leia-se EUA. A degeneração de Ortega se escancara com o esgotamento do pacto de “unidade nacional” que alia o empresariado, senhores de terra, a burguesia que ascendeu com o governo da FSLN e os sindicatos sandinistas. Estes últimos foram cooptados e domesticados, movimento parecido com o que o PT fez no Brasil.

Como sabemos, a traição social democrata é um dos lados da moeda fascista. Na segunda passagem de Ortega (2007 – atualmente), a oposição mais agressiva é composta por vários grupos políticos com pouca base popular, mas que fazem muito barulho: uma constelação de ONGs beligerantes, meios de comunicação da mídia burguesa local e a retrógrada Igreja Católica. Essas forças se sustentam através do patrocínio da National Endowment for Democracy (NED) e da United States Agency for International Development (USAID), da União Europeia e é claro, do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Na ainda poderosa Igreja Católica existe uma cisão entre a ala pró Papa Francisco e a ala abertamente reacionária e golpista, conjuntura local que refrata a disputa pútrida no Alto Clero do Vaticano. Os setor mais reacionário da Igreja Católica possui grande influência de Steve Bannon.

Com essa enxurrada de dinheiro estrangeiro em 2018 a Nicarágua sofreu com as guarimbas ao estilo venezuelano [6]. Notícias falsas nas redes sociais ou o rotineiro jornalismo tendencioso e distorcido da mídia burguesa provinciana fazem de tudo para mascarar ou moldar a realidade. De acordo com o blogueiro Max Blumenthal, em junho de 2018 um grupo de “ativistas” da oposição se reuniu em Washington D.C com líderes da Freedom House, instituição famosa por financiar e articular revoluções coloridas pelo mundo. O grupo de traidores da pátria conhecido como M19 foi implorar para que Donald Trump e o governo dos EUA ajudassem a combater a “ditadura” de Daniel Ortega.

A USAID foi quem promoveu mais ativamente as mudanças de regime contra governos progressistas na América Latina, sendo que só na Nicarágua em 2018 o orçamento da USAID ultrapassou 5,2 milhões, sendo grande parte dessa quantia destinada à “formação da sociedade civil” e “organização da mídia”. Entre as subversões da ONG norte-americana podemos destacar: incentivar a participação dos cidadãos no processo eleitoral, incubar uma cultura de transparência na juventude, treinar jovens estudantes de comunicação para produzir histórias que promovam auto eficácia, criar multimídia para governança democrática, dentre outros mecanismo de guerra não convencional. [7]

- Bolívia
Devido à nacionalização das reservas de gás natural e petróleo por Evo Morales a partir de 2006, a Bolívia está a há mais de uma década crescendo a uma média anual de 5%, número muito superior à dos Estados Unidos e à dos países sul-americanos. Por mais que a experiência boliviana seja mais frágil que a venezuelana e não chegue nem perto de tocar nas estruturas, desde que foi eleito, Evo Morales continua promovendo uma série de progressos para a sociedade, economia e política boliviana. Mesmo não sendo por ora o alvo principal, o imperialismo já começa a cravar suas garras no país andino, fazendo uso das mesmas metodologias de desestabilização dos outros países da América Latina e Caribe.

Em novembro de 2018, o candidato às eleições gerais de outubro de 2019, Victor Hugo Cárdenas, liderou a manifestação de caráter homofóbico “Con mi hijos no te metas” (“Não se meta com meus filhos”), colocando como principais inimigos a “ideologia de gênero”, o “marxismo cultural” e a “doutrinação” nas escolas. Falácias muito semelhantes às usadas por Jair Bolsonaro. A figura de Victor Cárdenas vem ganhando prestígio na sociedade boliviana. O candidato foi o primeiro indígena vice-presidente da República na história da Bolívia no governo neoliberal de Sanchéz de Lozada nos anos 90. O que não passa de uma mera fachada para um governo que massacrou os povos indígenas. O destaque de Cárdenas é mais uma peça na reconfiguração da direita latino-americana sob tutela de ala trumpista do imperialismo. No início de 2019, uma pesquisa eleitoral colocou o neoliberal Carlos Mesa em pé de igualdade com Evo Morales, com 32% da preferência dos bolivianos números que mostram o esgotamento do projeto político do presidente boliviano [8].

- Paraguai
O país ainda sente a ressonância do golpe de 2012 no moderado Fernando Lugo. O atual presidente, o conservador Mário Benítez do Partido Colorado, cresceu no círculo de Alfredo Stroessner, o ditador carniceiro que ficou nada mais nada menos que 35 anos no poder. Nenhum presidente da América Latina do século XX ficou tanto tempo no cargo como Stroessner.


Benítez veio ao Brasil em março de 2019 reforçar alianças com Jair Bolsonaro. Ambos trataram de questões como Itaipú, segurança de fronteira e cooperação comercial. O direitista Benítez demonstrou solidariedade ao governo brasileiro em relação às ações deste contra a Venezuela.

- Uruguai
Um período de relativa estabilidade política e social foi instaurado no Uruguai com os governos de centro-esquerda da Frente Ampla (Tabaré Vázquez, Mujica e Tabaré Vázquez novamente). Mas a onda direitista já demonstra ter chegado no pequeno país da América do Sul.

O Partido Nacional, de oposição à Frente Ampla, obteve 41,6% do total dos votos nas eleições primárias no Uruguai em julho de 2019, enquanto que o Partido de Tabaré Vázquez recebeu apenas 23,6% dos votos. Seguindo a tendência da todo continente, as eleições primárias foram movidas por Fake News nas redes sociais e outros métodos que condizem com a cartilha de Steve Bannon. O empresário milionário Juan Sartori é um dos políticos que vem se beneficiando dessa sujeira. O presidenciável é genro de Dimitri Rybolovlev, um oligarca russo bilionários que foi ligado a campanha de Donald Trump [9].

- Colômbia
No dia de 31 de maio de 2018, o ex-presidente colombiano Juan Manoel Santos se reuniu com a alta cúpula da OTAN em Bruxelas para firmar um acordo que coloca a Colômbia como “parceira global” da aliança militar composta essencialmente pelos EUA, seu manda chuva, e quase todos os países da Europa. Com isso a Colômbia passa a ser o primeiro país da América Latina a compor a OTAN. Primeiramente, é claro que a adesão à OTAN por parte da Colômbia segue os interesses norte-americanos na região. Sabemos que já existe nessa nação uma massiva presença militar norte-americana, que dispõe de diversas bases em território colombiano, e com a eleição do fascista Ivan Duque todo esse cenário vai se agravar.


Sobre as motivações por trás desse acordo nefasto para a América Latina:


- O país possui uma posição geográfica privilegiada, pois tem parte da sua costa direcionada para o Oceano Pacífico e parte para o Caribe. Na porção terrestre faz divisa com Brasil, Equador, Peru e Venezuela. Isso faz com que uma Colômbia cada vez mais colonizada pelos EUA seja peça chave para o controle geopolítico ianque na região, em mais uma empreitada de consolidar o seu poder militar na América do Sul, cujas metas são:
- A desestabilização por vias militares da Revolução Bolivariana na Venezuela.
- O controlar movimentos populares na cidade e no campo.
- Combater o narcotráfico (um velho pretexto).

As forças Armadas da Colômbia estão no segundo lugar em poderio militar na América Latina, atrás somente do Brasil. O orçamento militar da Colômbia é o maior da região, dedica 3,4% do PIB anual à defesa, frente a 1,3% do Brasil e 1% da Argentina, dados referentes a 2016 [10]. Esse gasto exorbitante soma-se à ajuda em equipamentos prestada pelos Estados Unidos. Ademais, as Forças Armadas da Colômbia possuem uma das mais hábeis atuações no plano terrestre da América do Sul, devido à sua luta de décadas contra a atuação das guerrilhas, como as FARC. Como o México, a Colômbia desde os anos 80 vem sendo uma espécie de laboratório para a repressão de movimentos sociais, protestos, organizações, jornalistas, estudantes universitários etc.; o Brasil já pode ser posto nesse grupo reacionário. Sabemos que ao lado de Brasil e Filipinas, a Colômbia possui uma das maiores taxas de assassinatos contra camponeses e conflitos agrários no mundo, graças à atuação da violência reacionária das oligarquias rurais colombianas, muitas vezes financiadas pelos EUA, que como no Brasil estão no poder há centenas de anos.

Em resumo, devido a todos esses fatores a OTAN, leia-se EUA, firmaram a integração da Colômbia na sua lista imunda de reféns. Esse cenário de terra arrasada para os povos da América Latina encarnado pela OTAN e deixado pelo presidente Juan Manuel Santos será segmentado e aprofundado na presidência de Iván Duque. O candidato de extrema-direita do Centro Democrático Iván Duque Márquez foi eleito presidente da Colômbia em 2018. As abstenções no processo eleitoral atingiram o altíssimo número de 48%, e entre aqueles que votaram temos 262.073 votos nulos e 795.510 votos em branco, sintoma da falência total da democracia burguesa.

Duque representa o que há de mais retrógrado na política colombiana. É um mero vassalo da oligarquia e fantoche do imperialismo, como o seu apoiador e ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), e agora assumirá as rédeas do país que é o maior violador dos direitos humanos na América do Sul. Duque tem uma carreira política curta, possui dois mestrados na área de economia e gestão pela universidade de Washington e trabalhou por anos no Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foi amplamente apoiado pelo mercado financeiro graças às suas propostas de campanha. Duque arrebatou a confiança da oligarquia ultra reacionária prometendo intervir no acordo de paz feito com as FARCs, considerando o governo de Juan Manuel Santos muito benevolente com os ex-guerrilheiros. Ambos acontecimentos, a questão da OTAN e a eleição de Iván Duque, fazem parte de um mesmo contexto: um cenário mais desolador se avizinha para o povo latinoamericano. Em contraponto a isso, a luta contra essa nova onda fascista e entreguista irá escalar [11].

- México
Na contramão de diversos países da América Latina, o México consegue respirar por meio de aparelhos com a eleição de Manuel López Obrador em 2018. Obrador foi eleito pela coalizão “Juntos Faremos História”, fruto de uma aliança com o Partido do Trabalho (PT), de centro-esquerda, e o Partido Encontro Social (PES), de centro-direita, com forte ligação com os evangélicos. Prometendo governar para os pobres e indígenas e acabar com a máfia do poder, o presidente focou no tema da corrupção em sua campanha, mote central em um México que se afunda há décadas na narcopolítica.


O presidente eleito está promovendo mudanças na estrutura salarial da sociedade mexicana. O aumento salarial para os mais pobres é um dos mais importantes nos últimos tempos no país. Em fevereiro de 2019, o Congresso mexicano aprovou em grande medida o pacote econômico (AMLO) enviado por Obrador. Até o momento não se prevê o aumento da dívida pública, a projeção da inflação é calculada a taxas inferiores ao ano passado e o crescimento econômico se aproxima dos 2%. Por mais que essas medidas sejam modestas, ainda  assim representam um alívio se comparadas com o neoliberalismo feroz dos governos anteriores. [12]

- Equador
A chamada Revolução Cidadã de Rafael Correa foi apunhalada pelas costas por Lenín Moreno do mesmo Partido, o Aliança País, após ser eleito em 2017. O Equador sob o governo de Moreno promove um giro diplomático, estreitando a cooperação com os Estados Unidos e com os oligarcas locais. Lenín segue em queda livre perante a opinião pública, não tem apoio popular e o setor empresarial também tem se distanciado do presidente. Como bom fantoche útil, foi usado e em breve será descartado.

Lenín soma uma série de retrocessos em seus poucos anos de mandato, perseguiu Rafael Correa judicialmente e outros políticos do governo anterior, desmontou o Estado com uma grande onda de privatizações, deixou o caminho aberto para o FMI corroer o Equador, abriu escritórios dos EUA no país ao estilo de “bases militares” na época da Guerra Fria, apoiou o golpista Juan Guaidó e como cereja do bolo do casamento Equador-Estados Unidos, removeu o asilo de Juan Assange, violando o direito internacional. [13]


Camponeses, indígenas, trabalhadores e outros setores da população mobilizaram, do dia 15 a 19 de julho, uma greve geral com o objetivo de rechaçar a entrega da ilha de Galápagos às Forças Armadas ianques para “operações militares” e combate ao “tráfico de drogas”. Os grevistas também se postaram contra a assinatura de um acordo do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que já impõe uma série de duras reformas ao país.

- Peru
Em 2017, o liberal do PPK (Peruanos Por el Kambio) Pedro Pablo Kuczynski venceu a candidata conservadora Keiko Fujimori, filha do ditador sanguinário Alberto Fujimori. Após a denúncia de que a empresa de consultoria de Kuczynski teria recebido propinas da construtora brasileira Odebrecht, um processo de impeachment foi aberto contra o presidente, que deixou o cargo em março de 2018. Após isso, assumiu Martín Vizcarra. O ex-banqueiro e atual presidente articula junto com os governos arque reacionários de Brasil e Colômbia as agressões contra a Venezuela.

- Chile
O conservador Sebastián Piñera venceu o jogo presidencial em 2017 interrompendo o governo liberal com verniz de progressista de Michelle Bachelet. Em março de 2019, Piñera recebeu Bolsonaro em La Moneda, onde discutiram sobre a solução da “crise” venezuelana através da “restauração da democracia” e traçaram acordos comerciais.

- Argentina
O neoliberalismo sangue puro de Macri continua levando o país a bancarrota. Macri é um bom entreguista e está completamente alinhado com os interesses de Washington. Enquanto isso a grande mídia latinamericana evita de falar sobre os “feitos” de seu governo. Só recentemente os jornais noticiaram que a Argentina vive profunda crise cambial e decide pedir ajuda ao FMI.


Em outubro de 2018, será realizado o pleito eleitoral na Argentina entre Macristas e Kirchneristas. As pesquisas mostram um crescimento lento do presidente Mauricio Macri, que disputará a reeleição, e uma estagnação de Alberto Fernández, o homem que encabeçará a chapa que tem Cristina Kirchner como candidata a vice-presidente. Macri e Fernández estão hoje empatados e monopolizam, juntos, quase 80% das intenções de voto. Vemos na Argentina um cenário de polarização extrema. [elpais]. A ex-presidente Cristina Kirchner está sendo vítima da Guerra Jurídica (Lawfare), a guerra jurídica, mesmo mecanismo que encarcerou Lula e persegue o equatoriano Rafael Correa. Em um ato de pura submissão ao Pentágono, o presidente Mauricio Macri, aprovou a construção de ao mínimo três bases militares nas províncias de Neuquén (onde fica a jazida de gás de xisto Vaca Muerta), Misiones e Tierra del Fuego, de onde se pode controlar a Antártida.

- Honduras
Desde o golpe de 2009 desferido contra Manuel Zelaya a situação no país não se estabilizou. Existem provas concretas de que as eleições de dezembro de 2017 foram fraudadas e com isso o povo saiu às ruas em protesto. Como nos casos dos outros países assolados por golpes, Honduras vive um cenário de caos social e político. A sangria atual é consequência de três golpes de Estado, um militar e dois eleitorais, em dez anos. Desde então exatamente como no exemplo brasileiro o receituário neoliberal – privatização da saúde e da educação e a submissão ao FMI são uns dos poucos exemplos – vem no sentido de recolonizar o país da América Central pelos Estados Unidos.

Mas o povo hondurenho desde abril de 2019 vem demonstrando a sua ira contra o latifúndio e a burguesia burocrático-compradora, com uma série de protestos contra o inimigo do povo Juan Orlando Hernández. O presidente hondurenho teve que acionar o exército e já houveram três mortes e 20 feridos nos protestos. Com 9,1 milhões de pessoas, hoje a pobreza atinge 60% da população hondurenha, 23% das crianças são subnutridas, atingido os 40% em alguns períodos, segundo dados das Nações Unidas. Mais de dois terços das famílias (72%) vivem da agricultura, como pequenos proprietários ou trabalhadores em grandes explorações agrícolas de banana, café ou açúcar [14].

Escrito por A.L

Notas

[1] https://revistaopera.com.br/2019/07/15/eua-brasil-defesa-seguranca-e-subordinacao/?fbclid=IwAR2wvpVRlA7eZ78OE8DgeyknE5WSu-aj8xDO4WYpw3P4WovZ8E7Ujo6zDKY
[2] http://www.granma.cu/file/pdf/gaceta/Nueva%20Constituci%C3%B3n%20240%20KB-1.pdf
[3] http://pt.granma.cu/mundo/2019-06-20/a-lei-helms-burton-tambem-e-ilegal-dentro-dos-estados-unidos
[4] https://revistaopera.com.br/2019/07/03/estados-unidos-querem-criar-um-guaido-cubano/
[5] http://media.cubadebate.cu/wp-content/uploads/2019/02/Estados-Unidos-y-la-guerra-4g-contra-Venezuela-467-kb.pdf
[6] https://www.telesurtv.net/news/parecido-protestas-nicaragua-venezuela-20180424-0003.html
[7] https://www.novacultura.info/single-post/2018/07/21/Nicaragua-e-o-alvo
[8] https://revistaopera.com.br/2019/02/20/a-carta-da-oposicao-boliviana-contra-evo-morales/
[9] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/21/internacional/1561136386_900824.html?id_externo_rsoc=FB_CC&fbclid=IwAR0UuiA4IB-nXtHSr4fBNMZXiYkdwTcVtNRlnZkL8NSPodNtOpeeiTPKKAE
[10] http://www.nuevamayoria.com/index.php?option=com_content&task=view&id=5465&Itemid=30
[11] https://www.novacultura.info/single-post/2018/06/22/A-adesao-a-OTAN-e-as-eles-presidenciais-na-Colombia
[12] https://revistaopera.com.br/2019/02/07/a-longa-marcha-de-obrador-pela-justica-salarial-no-mexico/
[13] https://revistaopera.com.br/2019/04/18/adeus-lenin-no-equador/
[14] https://outraspalavras.net/blog/honduras-seria-possivel-refundar-um-pais/

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