Mariátegui: "Nacionalismo e vanguardismo"

30/07/2019

 


Na ideologia política

I

A afirmação de que o mais peruano, o mais nacional do Peru contemporâneo é o sentimento da nova geração, faz sorrir alguns dos recalcitrantes conservadores de incontestável boa-fé. Esta é, no entanto, uma das verdades mais fáceis de se demonstrar. Que o conservadorismo não possa nem sabe entende-la é uma coisa que se explica perfeitamente, mas, que não diminui nem obscurece sua evidência.


Para conhecer como sente e como pensa a nova geração, uma crítica leal e séria começará sem dúvida, por averiguar quais são suas reivindicações. Será constatado, por conseguinte, que a reivindicação capital de nosso vanguardismo é a reivindicação do índio. Este fato não tolera mistificações nem equívocos conscientes.

Traduzido a uma linguagem inteligível para todos, inclusive para os conservadores, o problema indígena se apresenta como o problema de quatro milhões de peruanos. Exposto em termos nacionalistas – insuspeitáveis e ortodoxos -, se apresenta como problema da assimilação à nacionalidade peruana das quatro quintas partes da população do Peru.

Como negar a peruanidade de um ideário e de um programa que proclama com tão veemente ardência, seu desejo e sua vontade de resolver este problema?

II
Os discípulos do nacionalismo monarquista, de “L’Action Française” provavelmente adotam a fórmula de Maurras: “Tudo o nacional é nosso”. Porém seu conservadorismo é cuidadoso de definir o nacional, o peruano. Teórica e praticamente, o conservador crioulo se comporta como um herdeiro da colônia e como um descendente da conquista. O nacional, para todos nossos passadistas, começa no colonial. O indígena é em seu sentimento, ainda que não seja em sua tese, o pré-nacional. O conservadorismo não pode conceber, nem admitir sua peruanidade, fora da formada nos moldes de Espanha e Roma. Este sentimento da peruanidade tem graves consequências para a teoria e a prática do próprio nacionalismo que inspira e gera. A primeira, consiste na que limita a quatro séculos a história da pátria peruana. E quatro séculos de tradição aparecem como muito pouca coisa a qualquer nacionalismo, ainda ao mais modesto e ilusório. Nenhum nacionalismo sólido aparece em nosso tempo como uma elaboração de somente quatro séculos de história.

Para sentir atrás de si uma antiguidade mais respeitável e ilustre, o nacionalismo reacionário recorre invariavelmente ao artifício de anexar não apenas o passado e toda a glória da Espanha, mas também todo o passado e a glória da latinidade. As raízes da nacionalidade resultam por ser hispânicas e latinas. O Peru, como é representado por essas pessoas, não descende do nativo Incaico; Ele descende do império estrangeiro que lhe impôs há quatro séculos sua lei, sua confissão e seu idioma.

Maurice Barrés, em uma frase que sem dúvida cabe como artigo de fé para nossos reacionários, dizia que a pátria são a terra e os mortos. Nenhum nacionalismo pode prescindir da terra. Este é o drama do qual no Peru, além de receber uma ideologia importada, representa o espírito e os interesses da conquista e da colônia.

III
Em oposição a este espirito, a vanguarda defende a reconstrução peruana, sobre a base do índio. A nova geração reivindica nosso verdadeiro passado, nossa verdadeira história. O passadismo contentou-se, entre nós, com as frágeis lembranças galantes do vice-reinado. O vanguardismo, no entanto, busca para sua obra, materiais mais genuinamente peruanos, mais remotamente antigos.

Seu indigenismo não é uma especulação literaria, nem um passatempo romântico. Não é um indigenismo que, como muitos outros, é resolvido e exaurido em uma inofensiva apologia do Império dos Incas e de seus faustos. Os indigenistas revolucionários, em vez de um amor platônico ao passado inca, mostram uma solidariedade ativa e concreta com o índio de hoje.

Este indigenismo não sonha com restaurações utópicas. Sente o passado como uma raiz, mas não como um programa. Sua concepção da história e de seus fenômenos é realista e moderna. Não ignora nem esquece nenhum dos fatos históricos que, nestes quatro séculos, tem modificado, com a realidade do Peru, a realidade do mundo.

IV
Quando se espera que os jovens sejam seduzidos por milagres estrangeiros e por doutrinas exóticas, há certamente uma interpretação superficial das relações entre nacionalismo e socialismo. O socialismo não é, em nenhum país do mundo, um movimento antinacional. Pode parecer que sim, talvez, em impérios. Na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos etc., os revolucionários denunciam e combatem o imperialismo de seus próprios governos. Mas, a função da ideia socialista muda nos povos política e economicamente coloniais. Nesses povos, o socialismo adquire, pela força das circunstâncias, sem renegar absolutamente nenhum de seus princípios, uma atitude nacionalista. Aqueles que seguem o processo das agitações nacionalistas egípcia, chinesa, hindu, etc., explicarão sem dificuldade este aspecto totalmente lógico da práxis revolucionária, observarão, desde o primeiro momento, o caráter essencialmente popular de tais agitações. O imperialismo e o capitalismo ocidental sempre encontram resistência mínima, se não submissão completa, nas classes conservadoras, nas castas dominantes dos povos coloniais. As reivindicações de independência nacional recebem seu impulso e sua energia da massa popular. Na Turquia, onde se tem operado nos últimos anos o mais vigoroso e afortunado movimento nacionalista, é possível estudar exata e cabalmente este fenômeno. A Turquia tem renascido como nação por mérito e trabalho de seus revolucionários, e não de seus conservadores. O mesmo impulso histórico que se lançou da Ásia Menor para os gregos, infligindo uma derrota ao imperialismo britânico, expulsou Califa e sua corte de Constantinopla.

Um dos fenômenos mais interessantes, um dos maiores movimentos desta época é, precisamente, este nacionalismo revolucionário, este patriotismo revolucionário. A ideia de nação – disse um internacionalista – é em certos períodos históricos a encarnação do espírito de liberdade. No ocidente europeu, onde a vemos envelhecida, foi, em sua origem e em seu desenvolvimento uma ideia revolucionária, que agora tem este valor em todos os povos, que, explorados por algum imperialismo estrangeiro, lutam por sua liberdade nacional.

No Peru, aqueles que representam e interpretam a peruanidade são aqueles que, concebendo-a como uma afirmação e não como uma negação, trabalham para devolver uma pátria àqueles que, conquistados e submetidos pelos espanhóis, a perderam quatro séculos atrás e ainda não conseguiram recuperá-la.
 
 
Na literatura e na arte

I
No terreno da literatura e da arte, os que não gostam de se aventurar em outros campos, perceberão facilmente o sentido e o valor nacional de todo positivo e autêntico

No campo da literatura e da arte, aqueles que não gostam de se aventurar em outros campos perceberão facilmente o significado nacional e o valor de toda a vanguarda positiva e autêntica. O mais nacional de uma literatura é sempre o mais profundo, revolucionário, e isso é muito lógico e muito claro.

Uma nova escola, uma nova tendência literária ou artística, busca seus pontos de apoio no presente e, se não os encontra fatalmente perece. Já as velhas escolas, as velhas tendências, contentam-se em representar os resíduos espirituais e formais do passado.

Portanto, somente concebendo a nação como uma realidade estática pode-se supor um espírito mais nacional e inspiração nos repetidores e rapsódias de uma arte antiga do que nos criadores ou inventores de uma nova arte. A nação vive nos precursores de seu futuro muito mais do que nas sobrevivências de seu passado.

II
Já tive ocasião de sustentar que no movimento futurista italiano não é possível, não reconhecer um gesto espontâneo do gênio da Itália e que os iconoclastas que pretendiam limpar a Itália de seus museus, suas ruínas, suas relíquias, todas as suas coisas veneráveis, foram movidos, no fundo, por um profundo amor da Itália.

O estudo da biologia do futurismo italiano, conduz irremediavelmente a esta constatação. O futurismo tem representado, não como modalidade literária e artística, mas, como atitude espiritual, um instante da consciência italiana. Artistas e escritores futuristas, insistindo insistentemente insubstancial e de forma desrespeitosa contra os vestígios do passado, afirmaram o direito e a capacidade da Itália de se renovar e se destacar na literatura e na arte.

Cumprida esta missão, o futurismo deixou de ser, como em seus primeiros anos, um movimento sustentado pelos mais altos e puros valores artísticos da Itália, entretanto, o estado de espírito que havia surgido permaneceu. E nesse estado de espírito estava preparado, em parte, o fenômeno fascista, tão puramente nacional em suas raízes segundo seus apologistas. O futurismo tornou-se fascista porque a arte não domina a política. E especialmente porque foram os fascistas que conquistaram Roma. Porém com idêntica facilidade, haveria se feito socialista se tivesse realizado vitoriosamente, a revolução proletária e neste caso sua sorte teria sido diferente. Em vez de desaparecer definitivamente como movimento ou escola artística, (este foi o destino que o tocou sobre o fascismo), o futurismo teria então conquistado um renascimento vigoroso. O fascismo, depois de ter explorado seu impulso e seu espírito, obrigou o futurismo a aceitar seus princípios reacionários, isto é, renegar a si mesmo teórica e praticamente. A revolução, no entanto, haveria estimulado e acrescentado sua vontade de criar uma nova arte e uma nova sociedade.

Este foi, por exemplo, o destino do futurismo na Rússia. O futurismo russo constituía um movimento mais ou menos gêmeo do futurismo italiano. Entre ambos futurismos, existiram constantes e estreitas relações e assim como o futurismo italiano seguiu o fascismo, o futurismo russo aderiu a revolução proletária. Rússia é o único país da Europa onde, como constata com satisfação Guilhermo de Torre, a arte futurista foi elevada à categoria de arte oficial.

Na Rússia, esta vitória não foi conquistada às custas de uma abdicação. O futurismo na Rússia continua sendo futurismo, não se deixou de domesticar como na Itália e continuou a se sentir como um fator do futuro. Enquanto na Itália o futurismo não tem mais um único grande poeta em total beligerância iconoclasta e futurista, na Rússia, Mayakowski, cantor da revolução, alcançou neste ofício, seus triunfos mais duradouros.

III
Para estabelecer mais exata e precisamente o caráter nacional de todo vanguardismo, retornamos a nossa América. Os novos poetas da Argentina constituem um interessante exemplo. Todos eles estão nutridos de estética europeia. Todos ou quase todos viajaram em um desses vagões da Compagnie des Grands Expres Européens, que, para Blaise Centrars, Valery Larbaud e Paul Morand são, sem dúvidas, os veículos da unidade europeia, uns dos elementos indispensáveis de uma nova sensibilidade literária.

E bem. Apesar dessa impregnação do cosmopolitismo, apesar de sua concepção ecumênica de arte, os melhores desses poetas de vanguarda ainda são os mais argentinos. A argentinidade de Girondo, Güiraldes, Borges, etc., não é menos evidente que seu cosmopolitismo. A vanguarda literária argentina chama-se "Martinfierrismo". Quem já leu o jornal desse núcleo de artistas, Martin Fierro, terá encontrado, ao mesmo tempo, os ecos mais recentes da arte ultramoderna da Europa, os mais autênticos sotaques gaúchos.

Qual é o segredo desta capacidade de sentir as coisas do mundo e da terra natal? A resposta é fácil. A personalidade do artista, a personalidade do homem, não se realiza plenamente senão quando saber ser superior a toda limitação.

IV
Na literatura peruana, ainda que com menos intensidade, advertimos sobre o mesmo fenômeno. Enquanto a literatura peruana manteve um caráter conservador e acadêmico, não sabia ser real e profundamente peruana. Até muito recentemente, nossa literatura não passava de uma modesta colônia de literatura espanhola. Sua transformação, no que diz respeito a outros, começa com o movimento "Colônida". Em Valdelomar, houve o caso da literatura em que o sentimento cosmopolita e o sentimento nacional se juntam. O amor snobista às coisas e às modas europeias não extinguiu nem atenuou em Valdelomar o amor às coisas rústicas e humildes de sua terra e sua aldeia. Pelo contrário, talvez tenha ajudado a despertá-lo e exaltá-lo.

E agora o fenômeno se acentua. O que mais nos atrai, o que talvez mais nos emocione no poeta César Vallejo é a trama indígena, o fundo nativo de sua arte. Vallejo é muito nosso, é muito índio. O fato de estimarmos e entendermos isso não é um produto do acaso. Nem é uma consequência exclusiva de seu gênio. É antes uma prova de que, ao longo desses caminhos cosmopolitas e ecumênicos, que estão sendo tão reprovados, estamos nos aproximando cada vez mais de nós mesmos.

Publicado em Mundial, Lima, a Novembro/Dezembro de 1925

Escrito por José Carlos Mariátegui

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