Lenin: "A Questão Agrária na Rússia"

17/07/2019

 

A questão agrária na Rússia é de tremenda importância no tempo atual. É de conhecimento comum que esta questão tem sido elevada ao primeiro grau de importância, não somente pelas amplas massas do povo, mas também pelo governo. 

 

Historicamente, o movimento de 1905 foi caracterizado precisamente pelo fato da vasta maioria da população na Rússia, nomeadamente, o campesinato, fazer da questão agrária um ponto chave. Tanto o Partido da burguesia liberal quanto o Partido da classe operária tomaram esse fato em consideração em seus respectivos programas. Por outro lado, quando o governo, em seu regime de 3 de Junho, realizou uma aliança entre os latifundiários e o alto estrato da burguesia, isso fez da questão agrária o pivô desta política ( a forçosa destruição da posse de terras comunais e a conversão da divisão de terras em propriedade privada, principalmente no sistema de herdades[1]).

 

Qual é a essência econômica da questão agrária na Rússia? É a reorganização da Rússia nas linhas democrático- burguesas. A Rússia se tornou um país capitalista, burguês, mas o sistema de propriedade da terra neste país tem em grau muito elevado a permanência feudal, no que se refere tanto aos latifúndios quanto à distribuição de posse das terras camponesas. Em muitos dos casos o sistema de economia da terra permaneceu feudal: o serviço do trabalho e a corvéia, sob os quais os semiarruinados, pauperisados, e famintos pequenos proprietários arrendam terra, campos e pastagens e tomam empréstimos dos senhores de terra, com a obrigação de reembolsar a dívida trabalhando nas suas glebas de terra.

     

Quanto mais a gleba da Rússia rural e feudal fica para trás da industrial, comercial, capitalista Rússia, mais completa será o rompimento inevitável com o antigo, sistema feudal da propriedade da terra, tanto do latinfúndio quanto da distribuição da posse.

 

Os latifundiários tentaram efetuar este rompimento à moda dos latifundiários, para satisfazer aos interesses dos latifundiários, retendo seus próprios terrenos, e ajudando os kulaks a arrancar as terras dos camponeses. A maioria dos camponeses tentou fazê-lo à moda dos camponeses à moda camponesa, para satisfazer os interesses camponeses.

 

Em qualquer caso a reforma permanece burguesa no caráter. Em seu Miséria da Filosofia, no Capital, e no Teorias da Mais-Valia, Marx provou amplamente que economistas burgueses exigiram a nacionalização da terra, por exemplo, a conversão de toda a terra em propriedade pública, e que esta medida era uma medida completamente burguesa. O capitalismo se desenvolverá mais amplamente, mais livremente e mais rapidamente a partir de tal medida. Esta medida é muito progressiva e muito democrática. Ela acabará completamente com a servidão, quebrará o monopólio da terra, e abolirá o arrendamento absoluto (existência da qual o liquidacionista P. Maslov. seguindo o caminho do despertar dos estudiosos burgueses, erroneamente nega).  Ela acelerará o desenvolvimento das forças produtivas na agricultura e purgará o movimento de classe entre os assalariados.

 

Mas, nós repetimos, esta é uma medida democrático-burguesa. Como o Sr. V-dimov em Smelaya Mysl, os Narodniks de esquerda[2] persistem em chamar a nacionalização burguesa da terra de “socialização” e persistentemente ignoram as explanações compreensivas de Marx do que a nacionalização da terra sob o capitalismo implica.

 

Os Narodniks de esquerda persistem em reiterar a teoria puramente burguesa da “economia do trabalho” e seu desenvolvimento sob a “socialização”, ao passo que, de fato, com a nacionalização da terra, é a propriedade de terra capitalista em sua mais pura forma, livre do feudalismo, que se desenvolverá inevitavelmente mais amplamente e rapidamente.

 

A palavra-chave da “socialização da terra” meramente denota a falha completa dos Narodniks em apreender os princípios da economia política de Marx, e o fato de que eles estão passando (furtivamente, por ajustes e avanços, e frequentemente inconscientemente) para o lado da economia política burguesa.

 

Marx aconselhou os trabalhadores com consciência de classe, enquanto estava formando uma ideia clara do caráter burguês de todas as reformas agrárias sob o capitalismo (incluindo a nacionalização da terra), a apoiar reformas democrático-burguesas contra o feudalismo e a servidão. Mas marxistas não podem confundir medidas burguesas com socialismo.

 

 

Notas do tradutor:

 

[1] Aqui se refere às terras que possuem terreno e casas anexas para moradia. Também são chamadas de sítios ou fazendas. O termo retoma, no contexto estadunidense, as terras cedidas aos colonos pelo governo. Na área jurídica, está relacionado à propriedade herdada de família que é, por isso mesmo, inalienável.]

[2] São os social-revolcionários (SRs): membros de um partido pequeno-burguês que fora fundado em 1902, tal grupo executava ações de terrorismo individual contra representantes isolados do czarismo e por isso entravavam o desenvolvimento da luta revolucionária das classes operárias e camponesas contra o capitalismo e o regime autocrático do czar.

 

 

Publicado por V. I. Lenin no Trudovaya Pravda nº22, 22 de junho de 1914

 

Traduzido por Glauco Lobo

 

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