Vamos "voltar às bases" para quê?

04/06/2019

 

Há alguns anos isso já se fala, mas a narrativa veio a se fortalecer e generalizar mais durante as eleições presidenciais de 2018. Fala-se sobre a necessidade de que o campo democrático-popular – isto é, a “esquerda” – “retorne às bases”. Segundo esta narrativa, após anos de “conquistas para a classe trabalhadora” com quatorze anos de governos petistas, a “esquerda” se aburguesou e se institucionalizou, perdeu seus laços com o povo trabalhador, “inserindo-o na sociedade” apenas pelas vias do consumo. Alguns, que não caem nos devaneios de vomitar seu ódio contra nosso povo (estes “analfabetos políticos!”) por haver em parte votado em Jair Bolsonaro, recorrem a esta mesma narrativa para explicar o porquê de sua eleição. A esquerda perdeu os laços com o povo, o que levou logicamente para a eleição do fascista Bolsonaro. Portanto, agora, a “esquerda” precisa “voltar às ruas”, “às comunidades”, “às bases”... mas para quê?

A despeito de possíveis diferenças, a resposta dominante será “voltar às bases para combater o fascismo”, “voltar às bases para combater os retrocessos e garantir mais direitos ao povo”, dentre outras. Porém, tais respostas são difusas, genéricas e não dão ainda a dimensão política do problema da “volta às bases”, dimensão essa que deve ser compreendida para que não sigamos enfrentando novas derrotas por parte das forças do atraso.

A “institucionalização da esquerda” e a “perda de laços com o povo” foi um desvio no caminho?

A narrativa da “volta às bases” possui um problema político básico. Diz-se que a esquerda esteve com o povo, guiou-o em suas lutas e deste tirou seus quadros históricos. Trouxe conquistas e melhorias substanciais nas condições de vida das massas. Porém, à medida que as conquistas avançavam, a esquerda se acomodou, se institucionalizou e agora encontra-se perdida, sendo incapaz de dar resposta aos novos problemas da luta popular e da crise nacional que aparecem a cada dia. Neste sentido, a “institucionalização da esquerda” e a “perda de contatos com as bases” aparecem como um desvio no caminho em relação a quem sempre “esteve com o povo”. A “volta às bases” aparece como um “retorno ao caminho certo”. Há algo de verdade nesta narrativa?

Longe de ser um desvio no caminho, a situação na qual a dita esquerda se encontra atualmente é um reflexo direto, um desdobramento lógico das concepções que nesta prevalecem desde meados da década de 1970 e que se fortaleceram aos montes no início dos anos 1980 com a fundação do tal “Partido dos Trabalhadores”. Havia um ambiente extremamente favorável para o crescimento do que hoje se compreende como petismo. No seio do movimento operário brasileiro, as forças que então se reivindicavam comunistas – isto é, o “Partido Comunista Brasileiro”, o “Movimento Revolucionário 8 de Outubro” e (pasmem!) até mesmo o “Partido Comunista do Brasil” com sua retórica supostamente radical pró-Albânia e pró-Enver Hoxha – estavam envolvidas até a medula com o peleguismo mais podre, para não falar nos apoios dados e benefícios recebidos por pelegos históricos como Joaquinzão, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Num contexto como esse, seriam os futuros fundadores do PT e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) quem conduziriam a oposição operária contra os pelegos do sindicalismo. Dado que aqueles que se apresentavam como “comunistas” eram exatamente os pelegos do sindicalismo – pelegos históricos do movimento sindical já haviam passado pelas fileiras do PCdoB, por exemplo –, a oposição ao peleguismo e o crescimento do petismo passava necessariamente pelo anticomunismo.

Tratava-se de defender um sindicalismo anticomunista combativo em oposição ao sindicalismo pelego “comunista”. A retórica radicalóide também seria, na sua fundação, uma das marcas do PT em contraposição aos moderados e aburguesados PCBrasileiro e PCdoB. Defendia-se uma confusa “revolução socialista” em contraposição à “linha democrática” pacifista do PCBrasileiro (e também do PCdoB, por que não dizer?). Era este o ambiente extremamente favorável para que o petismo viesse a se tornar tremendamente popular e posteriormente hegemônico não só no movimento operário como também no movimento camponês e das minorias nacionais, nas lutas dos bairros, contra a carestia e a inflação, etc.

O petismo supostamente radical abria uma disputa contra o “economicismo” dos pelegos. Sustentava que, ainda que a luta sindical por aumento dos salários fosse importante, o movimento operário não podia se limitar à luta econômica, mas deveria conduzir também a luta política. Era necessário que “os trabalhadores participassem da política.” Longe de a “luta política” petista ser uma luta política nos termos de despertar na classe operária a consciência socialista da luta contra a exploração do homem pelo homem e pela derrubada revolucionária da dominação dos grandes capitalistas e latifundiários e sua substituição pela ditadura do proletariado e dos camponeses, a tal “luta política” era, na prática, uma “luta” eleitoral, uma concepção de afundar o movimento operário no cretinismo parlamentar, torna-lo um apêndice do Estado reacionário, ainda que a mesma concepção fosse encoberta por uma retórica radicalóide que conseguiu enganar gerações inteiras dos movimentos de massas. A “luta política” do petismo, enfim, não era em nada diferente do economicismo do PCBrasileiro, PCdoB e outros grupos. Era também uma “luta” economicista, embora chamada de “luta política”.

Estas mesmas concepções oportunistas e direitistas do petismo sobre a “luta política” ficariam posteriormente mais sistematizadas no que se veio a compreender como “Programa Democrático-Popular” (que, no entendimento de alguns, seria uma guinada direitista em contraposição à confusa “revolução socialista” da “classe trabalhadora”) [1] e nas diferentes formas de compreender seu conteúdo na salada ideológica do petismo.

É por estas e outras razões que sustentamos que o atual estado de coisas vivido pela “esquerda” – divórcio em relação às massas, aburguesamento, institucionalização e domesticação, incapacidade para conduzir até mesmo lutas em defesa de reivindicações extremamente recuadas, confusão ideológica e programática completa – não pode ser compreendido como um desvio em relação ao que ela sempre foi, no sentido de “esteve com as massas mas depois as abandonou.” Com as concepções de mundo e organização que prevalecem na “esquerda” há cerca de quarenta anos, não havia outro caminho a chegar que não fosse este. A que poderiam levar concepções como “mudar o Estado por dentro” senão a própria institucionalização e domesticação da “esquerda”? Mesmo as grandes lutas conduzidas de meados da década de 1970 para cá – muitas delas, lutas heroicas, como aquelas conduzidas nos rincões do Brasil contra a classe latifundiária – por petistas também não podem ser de nenhuma forma separadas da concepção de mundo que não faz outra coisa que subordinar tais lutas de massas à “luta” parlamentar, ao cretinismo parlamentar.

Ao lado da palavra de ordem de “volta às bases”, a palavra de ordem da “autocrítica da esquerda”
Ao lado da palavra de ordem de “volta às bases”, há também a palavra de ordem da “autocrítica da esquerda”. Tornou-se lugar comum falar que “a esquerda deve fazer sua autocrítica”. É também uma palavra de ordem genérica. Em que termos deve-se fazer tal autocrítica, sobre quais posturas, posições, concepções, atitudes, não há um consenso. Há mesmo aqueles na “esquerda”, mais direitistas ainda, que sustentam a palavra de ordem da “autocrítica” para adaptar o campo democrático-popular ainda mais ao fascismo, ao bolsonarismo e ao cretinismo parlamentar. Há também uma grande maioria que acaba por sustentar, na prática, a palavra de ordem da “autocrítica” tão somente no sentido do “retorno às bases”, sem examinar profunda e claramente que concepções levaram ao verdadeiro divórcio com as bases das massas trabalhadoras.

Porém, a palavra de ordem de “autocrítica da esquerda” pode fornecer uma oportunidade muito importante para a condução de um amplíssimo e verdadeiro movimento de retificação, que será obrigado a retificar não somente as concepções prevalentes nos últimos quarenta anos como até mesmo erros históricos do movimento comunista brasileiro dos últimos cem anos.

Como “voltar às bases” e conduzir a “autocrítica da esquerda”?

Jamais conseguiremos “voltar às bases” se o fizermos para falar as mesmas coisas que já se falam há quarenta anos. Nosso povo é pensante e dinâmico, e não mais se deixará enganar por oportunistas sem qualquer vergonha que levantam que a saída para os problemas das massas reside na eleição de mais vereadores, deputados, prefeitos, senadores, etc., ainda que estes oportunistas se apresentem como sendo “de esquerda”. Para “voltar às bases”, é necessário antes demarcar posições, saber claramente o que somos, o que queremos, onde queremos chegar, para onde queremos conduzir as massas, qual nossa concepção de mundo, como relacionar as lutas de massas com a luta contra o governo, etc. Isso não significa, evidentemente, que este processo de discussões teóricas e práticas deva ser algo a preceder em termos cronológicos o processo de se ligar às massas trabalhadoras e suas lutas. Ambos se retroalimentam. Se por um lado as lutas do povo trabalhador não terão condições de avançar sem discussões teóricas e práticas sobre “o que fazer?”, “onde chegar?” e “o que somos?”, por outro lado, as próprias discussões teóricas e práticas se tornarão dogmas e truísmos pobres e sem vida e não terão condições de se enriquecer caso não se liguem intimamente ao povo trabalhador e suas lutas. Porém, em ambos os polos desta contradição – discussões teóricas e práticas, de um lado, e lutas de massas de outro –, há que se determinar qual é o aspecto principal, isto é, qual deve ser avançado e resolvido para que o aspecto atualmente principal passe a ser secundário e o secundário atualmente se torne principal posteriormente. Somente “pondo a mão na massa” seremos capazes de dar uma resposta suficientemente clara a esta pergunta.

Dado que as décadas de oportunismo causaram um prejuízo sem tamanho às discussões e à consciência política das bases dos partidos políticos e movimentos, pensamos ser necessário começar com discussões mais básicas para as pessoas com nível mais atrasado de consciência política.

1. Qual é a nossa ideologia? Somos “socialistas”, somos “comunistas” ou apenas “de esquerda”? O que significa ser “socialista”, “comunista” ou “de esquerda” nos tempos de hoje? Para conduzirmos eficientemente as lutas do povo nos dias de hoje, basta sermos “de esquerda”, “socialistas”, ou devemos também ser “comunistas”?

2. É possível uma “revolução clássica” nos dias de hoje? Há ainda em nosso país e no mundo atual uma “classe operária clássica”, isto é, caricata, “a la 1917”? Concepções sobre “revolução clássica” e “proletariado clássico” são corretas e nos servem positivamente ou apenas cumprem o papel de entravar a luta política? O proletariado está sendo numericamente reduzido como consequência da automação das empresas? Quais as tendências atuais do capitalismo no que diz respeito às crises econômicas, guerras de agressão, fascismo e demais fatores que demonstram seu esgotamento e putrefação?

3. Que tipo de organização a classe operária e o povo precisam? Se aceitamos que as revoluções seguem sendo não apenas possíveis como também uma necessidade histórica atual, e que a classe operária e o povo já possuem uma série de organizações suas – sindicatos, movimentos de massas, cooperativas, entidades e instituições –, que tipo de organização é necessária para conduzir a revolução? É ainda necessário um partido comunista enquanto destacamento de vanguarda da classe operária para conduzir a revolução, ou simples organizações como sindicatos, movimentos, cooperativas, etc. já dão conta sozinhos de dirigir a revolução? É até mesmo necessário falar em “força dirigente da revolução” ou há “muitas forças” que confusamente a dirigem?

4. Qual deve ser nossa atitude com relação ao caminho parlamentar eleitoral? Este serve ainda como “instrumento de luta” para o povo brasileiro? Que papel cumpre o Estado numa sociedade de classes? É ele um instrumento de conciliação de classes ou um instrumento de uma classe para oprimir outras classes? Devemos “mudá-lo por dentro” ou conduzir sua derrubada violenta para o estabelecimento da ditadura do proletariado e do povo?

Para os que já se reivindicam comunistas, compreendem a necessidade da revolução e do destacamento de vanguarda, há perguntas mais aprofundadas que devem ser respondidas.

1. Qual o caráter da sociedade brasileira? Seria o Brasil um país capitalista ou capitalista dependente? Seria um país capitalista desenvolvido, subimperialista ou até mesmo imperialista? Ou ao contrário, seria o Brasil um país atrasado, semicolonial e semifeudal, agrícola e profundamente dependente do imperialismo norte-americano e de outras potências? Qual o caráter da revolução brasileira? Seria uma revolução socialista, que após a tomada do poder marcharia diretamente para o socialismo, ou uma revolução democrática, na qual o proletariado haveria de resolver tarefas democráticas não-resolvidas pela burguesia para então – nas condições em que se encontra no poder político – passar ao socialismo? Devemos ou não colocar o problema da guerra? Que papel cumpre a guerra na revolução brasileira?

2. Que papel cumpre o Partido Comunista na revolução brasileira? Seria este seu verdadeiro destacamento de vanguarda ou apenas contribuiria com outras iniciativas, limitando-se a registrar e caminhar a reboque dos acontecimentos? Os partidos que atualmente se reivindicam comunistas são as “várias vanguardas” ou não é possível falarmos em “várias vanguardas”? Qual a relação entre o Partido Comunista e os diversos movimentos de massas e frentes de luta existentes em nosso país?

3. Desde 1848, com a publicação do Manifesto do Partido Comunista, houve dezenas ou mesmo centenas de revoluções, guerras de libertação nacional, movimentos políticos, etc., em todos os países do mundo. Que aportes cumprem os mais de 150 anos de lutas no enriquecimento geral da teoria do socialismo científico? Estes aportes são universais ou são apenas particularidades locais de cada país? O que é o socialismo científico nos dias de hoje? O que é socialismo científico e o que é revisionismo?

A partir de como os diferentes indivíduos respondem tais perguntas, podemos demarcar melhor os campos e avançar mais, servir melhor a nosso país e nosso povo.

Há certamente muito mais perguntas, e caso respondamos as perguntas acima sugeridas, apenas nos encontraremos diante de novas e novas perguntas que a prática da luta do povo brasileiro nos coloca a cada momento.

Podemos, porém, começar com as estas, em nossa opinião.

Mas se nem sequer passamos por triscas destas perguntas e “voltamos às bases” anarquicamente, sem concepções ou planos definidos, não só não “voltaremos às bases” como sofreremos derrotas ainda piores.

São questões a serem pensadas seriamente.


Nota
[1] Uma análise mais aprofundada do tal “Programa Democrático-Popular” pode ser vista no editorial do sexto volume da Revista Nova Cultura. É necessário ressaltar que muitos críticos do tal “Programa Democrático-Popular” também caíram em erros grosseiros, indo além e sustentando que a própria revolução democrático-popular seria uma variante de reformismo, em contraposição à qual seria necessária não mais uma revolução que cumprisse tarefas democrático-nacionais não realizadas pela burguesia, mas uma própria revolução socialista. Embora seja verdade – como sustentam os “críticos” também equivocados do PDP – que apenas o socialismo será capaz de garantir, ao menos a médio e longo prazo, o cumprimento das tarefas democráticas não realizadas pela burguesia, não se pode de maneira nenhuma derivar daí que, portanto, estas tarefas – reforma agrária e urbana, industrialização nacional, liquidação do atraso econômico, subdesenvolvimento, dependência em relação ao imperialismo, dentre outras – em si já seriam socialistas. Ao contrário, são tarefas democrático-burguesas em seu caráter, embora conduzidas pelo proletariado em aliança com os camponeses e outros estratos trabalhadores, e não mais pela burguesia.

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