"Kampuchea democrático: nascido da guerra popular de libertação anti-imperialista"

03/06/2019

 
Pol Pot é, no jargão internacional dos revisionistas, o que foi López Rega [1]. Se quiserem imaginar um demônio, imaginem Pol Pot.

Saloth Sar (este é o verdadeiro nome do camarada Pol Pot) nasceu em 19 de maio de 1925 em uma aldeia da província de Kompong Thom. Seu pai, Phen Saloth, era um camponês médio proprietário de doze hectares de terra. Aos dezesseis anos, Pol Pot frequentou a escola secundária na movimentada cidade mercantil de Kompong Cham. Em 1948, enquanto aprendia carpintaria, sua vida mudou. Recebeu una bolsa para estudar radioeletricidade em Paris. Partiu junto com outro jovem, Mey Mann. Voltaria cinco anos mais tarde. Sua filiação ao PCF (Partido Comunista da França) o levou a se descuidar dos seus estudos e priorizar as atividades militantes das quais formara o Grupo de Estudo de Paris, célula dedicada ao aprofundamento teórico do marxismo-leninismo. Sempre relacionado ao PC francês, trabalha arduamente para aderir aos estudantes cambojanos contra a monarquia. Em sua obra Monarquia ou Democracia, Pol Pot escreve: "A monarquia é um vil postulado que vive do sangue e do suor dos camponeses. Só a Assembleia Nacional e os direitos democráticos darão aos cambojanos um espaço de descanso. A democracia que substituirá a monarquia é uma instituição sem igual, pura como um diamante". O Grupo de Estudo de Paris havia lançado uma revista de politica e teoria intitulada Khemara Nisit.

Estabelecem contato com Ho Chi Minh, reconhecido por seus escritos anticolonialistas no periódico L¨Humanite do PC francês. Constituem a aliança comunista Annamita-Khemer (em alusão aos grupos étnicos majoritários da Indochina). O Grupo de Estudo de Paris tinha como premissa básica trabalhar de forma autossustentada, democrática e independente de toda influência que impeça o desenvolvimento orgânico do grupo. Em outras palavras, a independência cambojana deveria ser obra dos próprios cambojanos. Em julho de 1946 os membros do Grupo recusaram a assistir a uma reunião em Fontainebleau, próximo de Paris, onde Ho Chi Minh, já convertido em líder indiscutível do PC de Indochina [2], seria o principal orador; "Apresentaram seus respeitos ao Tio Ho", lhes disseram os membros da delegação vietnamita. Não será a única nem a última vez que as discrepâncias entre comunistas cambojanos e vietnamitas se tornariam visíveis. O PC indochino se dissolveu em 1951 em suas três frações nacionais (Camboja, Laos e Vietnã). A facção cambojana daria origem ao PRPK (Partido Revolucionário Popular de Kampuchea). Enquanto isto, no Camboja, a repressão aos comunistas por ordem do monarca Norodom Sihanouk era sanguinária. Em julho de 1962 foi assassinado Tou Samouth, o principal líder do PRPK. Tou Samouth e Son Ngoc Minh haviam formado um Issarak (Movimento de Libertação Nacional), como a verdadeira liderança do Movimento que teve os vietnamitas como vencedores de Dien Bien Phu. A direção do Partido rompeu com os líderes deste Movimento, refugiados em Hanói, em 1963. Son Ngoc Minh morreria de uma enfermidade em 1972. Em 1954 o PC cambojano era basicamente rural, budista e pro vietnamita. Já em 1970 sua força dirigente era urbana, formada na França no calor do Maio Francês, ortodoxa e anti-imperialista. Pol Pot tomou a frente no Secretariado do Partido na mais dura das clandestinidades, reorganizando às golpeadas estruturas partidárias. Neste trabalho paciente e em silêncio (não se soube mais nada dos comunistas até 1967, ano de uma nova insurgência comunista) possibilitou um ressurgimento vigoroso que dava voz e ouvidos aos oprimidos. A nova direção, autenticamente comunista, via no campesinato uma força decisiva. Havia que determinar as classes nas zonas rurais.

Em sua maioria o campesinato era pobre e estava endividado, outra parte estava composta por pequenos proprietários e existia uma classe latifundiária ínfima. Isto era resultado das nefastas políticas do autocrata feudal Sihanok. Entre 1950 e 1970 a quantidade de camponeses sem terras havia aumentado de 4% a 20%, e a quantidade de despossuídos sem dúvida aumentou em una grande proporção durante os bombardeios dos B-52 estadunidenses. Em meio a tudo isto em 18 de março de 1970 ocorre um golpe de Estado por parte do General Lon Nol. Os imperialistas queriam militarizar a região e ter a menor quantidade de impedimentos para o aprofundamento de sua guerra imunda (vale recordar que Nixon incrementava por estes anos os bombardeios com napalm, inclusive sem a aprovação governamental). O PRPK passou a se chamar Partido Operário do Camboja (POC), e se criou uma guerrilha denominada Oficina 100 nas fronteiras com Vietnã do Norte, ao nordeste de Camboja. O Vietminh (Exército de Libertação Nacional do Vietnã) pediu para atrasar sua agenda até que os estadunidenses fossem expulsos do Vietnã do Sul.

Os principais membros do Angkar (Comitê Central) viajam a Pequim, onde são recebidos como heróis, e decidem adotar o Pensamento Mao Tsé-tung como parte do desenvolvimento ideológico que necessita o Partido para ascender à tomada do poder. Muda-se pela última vez o nome da vanguarda política organizada, desde a viagem a Pequim se chamou PCK (Partido Comunista do Kampuchea). Depois de uma reunião no Vietnã do Norte, Pol Pot se tornou comandante da guerrilha e, compreendendo que se havia chegado a um ponto de equilíbrio estratégico no plano militar, cria o Exército Revolucionário do Camboja para liderar una guerra de movimentos. Surgem sublevações de massas em todo o país e o PC logra o controle do norte de Camboja com vitórias rápidas e avanços irrecuáveis. O cerco às cidades avançava, fecharam desde então todos os pontos do país a Phnom Penh e o ditador Lon Nol começava a permanecer sem peões para suas jogadas de resistência. Em 1974 os comunistas tomam a cidade de Udong, antiga capital do país localizada a poucos quilômetros ao norte de Phnom Penh. Em 17 de abril se produz a caída de Phnom Penh. O aeroporto de Pochetong foi palco de intensos ataques, mas ainda assim não se pode impedir a fuga de Lon Nol em um helicóptero estadunidense até o Havaí, onde morreria em 1985. A revolução havia triunfado.

Criação do Kampuchea Democrático
Quando o PCK toma Pnom Penh, a capital estava lotada por mais de dois milhões de camponeses e habitantes do interior do Kampuchea, refugiados da guerra revolucionária contra os ianques e contra o regime fascista de Lon Nol, que também foi sustentado pela URSS. Sobreviviam em condições miseráveis, dormiam nas ruas. Então o PCK se propôs a resolver o problema trasladando essa população ao campo para trabalhar a terra. A ideia central era estender a produção de arroz, milho, feijão, borracha, pimenta, gergelim, soja, mamão, algodão, tabaco, banana, entre outros cultivos característicos da região. Os revisionistas falam de "mobilização forçada dos habitantes das cidades para trabalhar no campo". É uma falácia absoluta. Para começar, o Camboja era (e é) um país agrário, sua indústria era artesanal e sua economia se sustentava na exportação de arroz, borracha e pesca. Junto com o Laos, o Camboja tem o triste reconhecimento de ser o país mais bombardeado da história. Em comparação com seus vizinhos Tailândia e Vietnã, o Camboja tem geografia compacta, demografia dispersa, unificação linguística, homogeneidade étnica, carência de diversificação econômica e subdesenvolvimento político. É um pais absolutamente isolado, sem saída ao mar. O Camboja pré-revolucionário estava composto por 80% de camponeses. A economia era absolutamente rural e sua sociedade de aldeias se encontrava descentralizada com uma economia desintegrada. Entre novembro e dezembro de 1975 se levou a cabo um encontro nacional de membros do Partido no Estádio Olímpico de Phnom Penh. Nuon Chea proclamou o início do que se conheceu como O Grande Salto. Esta política conformou uma organização social nova que unificava a direção política, econômica, militar e cultural do Camboja. De modo que as massas de trabalhadores camponeses avançaram no difícil e tortuoso caminho de ir tomando em suas mãos a direção dos assuntos, ou seja, autogovernar-se. Os revisionistas silenciam, depreciam, o trabalho entusiasta, abnegado, criador, de milhares e milhares de homens e mulheres. Só têm olhos para ver os indivíduos que escamoteavam ou fugiam do trabalho coletivo, roubavam e especulavam. Minimizam a miséria, o atraso, a exploração e a brutal opressão da monarquia, que obrigava a todos os habitantes a pagar impostos da forma que possam manter os seus apetites de um zangão, de um "rei". Numa revolução se ganha o direito de se apoderar de tudo e isto inclui a vida de seus inimigos, dos inimigos do povo, dos títeres contrarrevolucionários. Tudo isto é acionar e o seu grau de aplicação está indissoluvelmente ligado à luta de classes e a quem detenha o poder. Assim, quando a burguesia criou centros de detenção e tortura, eram eles quem torturavam, assassinavam e faziam desaparecer os corpos dos revolucionários; assim, quando o povo criou e estabeleceu o Novo Poder, a situação se invertia (com a diferença de que os revolucionários não torturamos, explicamos o motivo da execução e se procede a mesma sem preâmbulos). Em 5 de janeiro de 1976 se fundou o novo Estado com o nome de Kampuchea Democrático.

Publicado pelo Partido Comunista Popular de Argentina (PCPA)

Traduzido por Clóvis Manfrini

Notas
[1] Maçom e fundador do grupo de extermínio Aliança Anticomunista Argentina ("Triple A"), de extrema-direita, que torturou e assassinou militantes de esquerda na Argentina.

[2] A Indochina, colônia francesa, incorporava os seguintes países atuais: Vietnã, Laos e Camboja.

 

Nota dos editores: nem todas as posições expressas neste texto condizem necessariamente e/ou integralmente com a linha política de nosso site ou da União Reconstrução Comunista.

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