As lutas operárias alcançam outro patamar

20/06/2019

 

IV

As lutas operárias alcançam outro patamar


Em princípios do século XIX, a miséria tomava conta das fábricas. Operários e operárias, incluindo crianças, trabalhavam até 15, 16 horas por dia. Domingos e feriados não existiam para os trabalhadores. Mulheres recebiam bem menos do que os homens. A exploração era terrível e a miséria se estendia aos camponeses e artesãos. As cidades se enchiam de mendigos. A degeneração social e moral da maioria da população era algo crescente e exposta nos centros urbanos. Já entre a minoria, os capitalistas, o enriquecimento era cada vez maior e o imperialismo florescia às custas da exploração sobre a massa de operários. Países como Inglaterra e França, onde o grau de industrialização era maior e mais acelerado, viviam em uma situação que chegavam até o absurdo de – no caso da região francesa da Bretanha – um recém-nascido filho de operários não ter nem um trapo para se enrolar e as mães, sem condições de se alimentarem, nem leite tinham para amamentação. E os salários, mesmo ínfimos, eram reduzidos a cada crise do capitalismo. A situação era caótica.

Em 1831, na cidade de Lyon, na França, esta situação aguda provocou uma forte mobilização operária contra a diminuição dos seus salários. Comissões de trabalhadores tecelões, das manufaturas de seda, foram formadas para negociar com os patrões e se chegou a um acordo. Eram as primeiras organizações próprias do operariado, chamadas Comissões Operárias. Mas, como na maioria das vezes, os donos das fábricas não cumpriram o prometido e o descontentamento dos operários atingiu o auge em 21 de novembro daquele ano. Foram três de luta armada e que rendeu muita repercussão em toda a Europa. As lutas operárias ganhavam um novo patamar na luta de classes com essas primeiras sublevações proletárias.

A segunda onda de sublevações em Lyon, em abril de 1834, foi ainda mais radical. A França vivia sob a monarquia liberal de Luís Felipe de Orleans e as contradições não mais se limitavam ao aumento de salários dos operários, mas, estes, reivindicavam, agora, a fundação de uma república democrático-burguesa. A consciência dos operários se elevava. Durante seis dias as ruas de Lyon viveram, em meio às barricadas, uma verdadeira guerra civil entre operários sublevados e os braços armados da burguesia. A revolta é esmagada e os operários, feitos prisioneiros, são fuzilados em massa.

Marx e Engels viram, nestas sublevações operárias de Lyon, um grande salto qualitativo na consciência das massas operárias e reconheceram a importância dos mártires que tombaram nas ruas da cidade francesa. As lutas operárias de Lyon influenciaram outras lutas em todo o continente europeu durante o século XIX. O movimento operário chamado cartista, representado pela Associação Geral dos Operários de Londres (London Working Men's Association), e que leva esse nome devido á Carta do Povo ao Parlamento inglês, escrita em maio de 1838 pelos líderes William Lovett e Feargus O'Connor, foi um desses movimentos influenciados pelas lutas na França. Mas, antes, foram os cartistas os responsáveis por mudanças significativas na legislação inglesa da época, como a primeira lei de proteção ao trabalho infantil (1833), a lei de imprensa (1836), a reforma do Código Penal (1837), a regulamentação do trabalho feminino e infantil, a lei de supressão dos direitos sobre os cereais, a lei permitindo as associações políticas e a lei da jornada de trabalho de 10 horas. Nesta Carta, que deu nome ao movimento, as principais reivindicações eram: o sufrágio universal masculino; o voto secreto através de cédula; eleição anual; igualdade entre os direitos eleitorais; participação de representantes da classe operária no parlamento; e que os parlamentos fossem remunerados. Estas reivindicações vieram após várias sublevações operárias em toda a Inglaterra, desde o início da década de 1830. A burguesia inglesa acabaria fazendo concessões à classe operária, após dez anos do movimento cartista mudar o sentido das lutas, de violentas para pacíficas. Os operários ingleses pensaram que com o sufrágio eleitoral universal e a participação no Parlamento burguês resolveriam seus problemas. Triste ilusão. No entanto, as lutas dos cartistas foram um avanço importante no movimento operário inglês e aumentou o grau de conscientização da classe operária.

Escrito por Clóvis Manfrini

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