"Brasil: uma nação contaminada por agrotóxicos"

09/05/2019

 

O Brasil ocupa os primeiros lugares do ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Nas últimas duas décadas, o país aumentou principalmente a utilização do glifosato, depois da adoção de cultivos transgênicos em grande escala.

 

No gigante sulamericano, em dez anos, aumentou 190 por cento a utilização destes produtos. Somado ao anterior, o governo de Jair Bolsonaro, com pouco mais de cem dias no poder, confere ataques sistemáticos ao meio ambiente.

 

Em menos de quatro meses, a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina Correa, concedeu 152 licenças para o registro de novos agrotóxicos no território, alguns deles considerados nocivos pela comunidade científica internacional e proibidos em mercados consumidores como o europeu e o norte-americano.

 

Os especialistas indicam que, sob o argumento de incrementar a produção, o executivo patrocina o envenenamento dos produtos dirigidos ao povo brasileiro. A longo prazo, isso contribui também à perda de compradores estrangeiros, pois, a tendência global é reduzir os produtos químicos.

 

“Aproximadamente 70 por cento dos alimentos estão contaminados. Lamentavelmente, este fenômeno ocorre da mesma forma na agricultura familiar, pois, nos últimos 30 ou 40 anos, os agricultores não tiveram muitas opções, nem assistência técnica ou alternativas ao uso de agroquímicos ou fertilizantes”, afirma Nilto Tatto, Deputado Federal pelo Partido dos Trabalhadores em São Paulo, em declarações exclusivas à Telesur.

 

Daí que, ao juízo do parlamentar, a maioria dos alimentos em supermercados e feiras possuem esses venenos. Segunda a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, cada habitante consome uma média anual de 7,3 litros destas substâncias.

 

No Brasil, o processo de aprovação de um agrotóxico incluía sua avaliação pelo Ministério da Agricultura, o da saúde e o do Meio Ambiente, representados pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.

 

Não obstante, desde o impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016, tem ocorrido um desmonte dos dois últimos órgãos e o Ministério da Agricultura, tradicionalmente voltado ao agronegócio e ao lucro, atende aos interesses das grandes corporações agroquímicas – Bayer, Basf, Syngenta e Monsanto – e flexibiliza a legislação, liberando o uso de mais venenos.

 

“Precisamos de um trabalho profundo com a população. Ela deve tomar consciência dos males que os agrotóxicos causam ao meio ambiente, o segundo fator de contaminação da água no Brasil. Um estudo recente assegura que um de cada quatro rios do país possui 27 tipos diferentes de agrotóxicos.”, adverte Nilto Tatto.

 

Agrotóxicos: inimigos silenciosos 

Segundo uma pesquisa revelada no ano passado, do ano de 2007 até 2017, cerca de 40 mil pessoas foram atendidas no sistema de saúde brasileiro, depois de serem expostos à agrotóxicos.

 

Os médicos confirmaram que, deste número, 26 mil pacientes sofreram de intoxicação a partir de sintomas clínicos como: náuseas, diarreias e problemas respiratórios. Os exames determinaram também a presença de alterações bioquímicas no sangue e na urina. O número confirma que pelo menos sete pessoas são intoxicadas por dia.

 

“Na cidade de Teresina, ao extremo nordeste do país, foi encontrado leite materno contaminado com glifosato; com uma gravidade ainda maior porque estas senhoras investigadas não são trabalhadoras rurais. Mas, onde adquiriram o glifosato? Pela água. Quer dizer, a agua que estamos tomando já está contaminada pelo veneno”, informa João Pedro Stédile, da Direção Nacional do Movimento Sem Terra, em entrevista exclusiva à Telesur.

 

João Daniel, Deputado e Coordenador do Núcleo Agrário do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados, afirma que a pulverização aérea e a matança das abelhas ocasionaram o fim da produção de mel em várias regiões.

 

“Nós temos 8 milhares de pessoas com câncer. No entanto, a medicina brasileira, raras vezes diz que esses problemas de saúde são causados pelos agrotóxicos. As empresas não permitem que o Ministério de Saúde, os municípios, estados e os cidadãos exijam delas que paguem a cura das doenças causadas pelos venenos que elas vendem”, explica o parlamentar à Telesur.

 

Para João Daniel é muito difícil a luta contra a força conservadora do agronegócio, as grandes transnacionais e o capital, fundamentalmente, porque elas também impulsionam a indústria farmacêutica. “Além de produzir os venenos, fabricam remédios para curar as doenças e assim o capital se alimenta deste ciclo”.

 

Na visão de Stédile, os únicos números que o Ministério da Saúde do Brasil acompanha, são daqueles trabalhadores do campo que, afetados por alguma pulverização do veneno, acabam desmaiando e falecem. “Estes são por volta de 200 a 300 trabalhadores por ano, um número menor que o real”.

 

“Os mais graves são os efeitos que esses alimentos contaminados causam nas pessoas lentamente e a longo prazo. O glifosato, como principal matéria prima de todos esses venenos, causa câncer. Está comprovado por vários estudos na Europa, Estados Unidos e aqui no Brasil no Instituto Nacional do Câncer”, afirma.

 

Agroecologia e Movimento Sem-Terra

Uma lei sancionada em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, exige que não se utilizem contaminantes intencionais no processo de produção; a conservação da diversidade biológica dos ecossistemas; o uso saudável do solo, da agua e do ar; assim como a reciclagem dos resíduos orgânicos e a redução ao mínimo emprego de recursos não renováveis.

 

O Movimento Sem-Terra do Brasil defende o produto agroecológico. Em sua concepção, resgata as técnicas pré-industriais utilizadas na agricultura familiar: menos agressivas com o ecossistema, relacionadas com o conhecimento científico moderno de análise das águas e do solo, e dos hábitos e necessidades da fauna local.

 

“Nós debatemos com a sociedade acerca do consumo agroecológico como alternativa ao veneno. O povo precisa despertar sobre a urgência da reforma agrária e o combate às doenças causadas pelo modelo de agricultura capitalista”, lembra Alexandre Conceição, da Coordenação Nacional do Movimento Sem-Terra em declarações à Telesur.

 

Stédile explica que é preciso realizar uma campanha massiva de informação sobre esse fenômeno. “Conseguimos que constasse no rótulo das mercadorias se o produto é transgênico e aprovamos isso na época de Lula, mas, não há uma identificação nos produtos com o rótulo do agrotóxico, para que a pessoa quando vai ao supermercado tenha a opção de recusá-lo”.

 

Outro dos benefícios da agroecologia é que a rotação de cultivos, está em conformidade com a lógica da alimentação da família produtora e não com a planificação financeira dos latifundiários, o que permite uma produção mais diversificada.

 

“Alguns artistas e personagens conhecidos na sociedade brasileira têm somado a nossa luta. Existe uma preocupação nos formadores de opinião, todavia, o povo trabalhador é vítima, não tem opção, tem que comprar o que lhe oferecem, neste caso, a mercadoria afetada pelos agrotóxicos”, conclui Stédile.

 

6 de maio de 2019

 

Escrito por Danay Galletti Hernández, correspondente da Telesur em Brasília.

 

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