"As relações de Marx com Blanqui"

08/05/2019

 

Marx e Engels foram acusados por muito tempo de Blanquismo. Bernstein foi ainda mais além. Tão cedo como em 1898 ele declarou: "Na Alemanha, Marx e Engels, sobre a base da radical dialética Hegeliana, avançaram uma teoria próxima ao Blanquismo". Não tendo conta da sua constante e afirmada rejeição do Putschinismo, Bernstein também declarou: "eles (os escritos inspirados por Marx e Engels na época da Liga dos Comunistas. - D.R.) são ao longo infuinfundidos com um espírito Blanqui-Baboeufista". [1]  
 
A melhor prova desta contenção, na opinão de Bernstein, é apoiada na atitude na qual Marx tomou sobre os eventos da Revolução de Fevereiro. Enquanto Bernstein considerou o partido de Louis Blanc e a Comissão de Luxemburgo como o "único partido proletário", Marx, ao contrário, considerou os Blanquistas como tais.  
 
Bernstein apela ao circular da Liga dos Comunistas (Address to the Central Committee of the League in June, 1850), mas ele pdoeria apontar com maior justificação para as seguintes frases de As Lutas de Classes na França de Marx - uma passagem na qual ele claramente negligencia, como também Kautsky o fez, que interpreta a "Ditadura do Proletariado" como uma mera frase casual, que Marx acidentalmente deixou escapar da boca pra fora, e que não é no mínimo a própria essência da estratégia revolucionária Marxiana.  
 
"Enquanto a utopia, o socialismo doutrinário  (i.e., o Socialismo de Louis Blanc e seu tipo - D.R.) , que submete a totalidade do seu movimento a um dos aspectos daquela; que coloca no lugar da produção comum, da produção social, a actividade cerebral de um qualquer pedante e sobretudo elimina fantasiosamente a luta revolucionária das classes com as suas necessidades através de pequenos passes de mágica ou de grandes sentimentalismos; enquanto este socialismo doutrinário, que no fundo apenas idealiza a sociedade actual, dela recolhe uma imagem sem sombras e pretende impor o seu ideal contra a realidade dela, enquanto este socialismo é cedido pelo proletariado à pequena-burguesia; enquanto a luta dos diversos chefes socialistas entre si mesmos põe em evidência que cada um dos chamados sistemas se apega afincadamente a um dos pontos de trânsito da revolução social contrapondo-o aos outros, o proletariado agrupa-se cada vez mais em torno do socialismo revolucionário, em torno do comunismo, para o qual a própria burguesia tinha inventado o nome Blanqui".  
 
Qual é o conteúdo deste Socialismo?
 
"Este Socialismo é a declaração da permanência da revolução, a ditadura de classe do proletariado como um estágio necessário para a abolição de todas as diferenças de classe, a abolição de todo um sistema de produção na qual eles estão, a abolição de todas as condições sociais que correspondem á essas relações de produção, a destruição de todas as ideias que surgem destas condições sociais". [2]
 
Bernstein recorreu a um truque ainda mais despresível que ele fez pouco uso de outros papéis como os de MS. de Engels sobre Naturdialektik que estava em sua posse, uma ação que foi calculada para destruir a última dúvida da influência "perversa" empregada sobre Marx e Engels pela dialética Hegeliana. Veio desta forma. Entre os papéis legados á ele pelo seu antigo professor havia um encobrimento pacífico por três décadas de nada menos que um tesouro de um acordo com os Blanquistas, assinado por Marx e Engels com suas próprias mãos, no qual cada Comunista Alemão, Francês e Inglês eram para organizar uma "Liga Mundial de Comunistas Revolucionários".  
 
No primeiro parágrafo do documento diz:-
 
"O objetivo da associação é a queda de todas as classes privilegiadas, e a subjeição dessas classes á ditadura do proletariado por meio de manter a revolução em permanência até a realização do Comunismo, que é a forma final de organização da sociedade humana". [3]
 
O acordo foi assinado por Adam e Vidil em nome dos Blanquistas, por Willich, Marx e Engels para os Comunistas Alemães e Harney para os Comunistas Ingleses.
 
Vamos comparar com o texto da Seção Um dos Artigos da Liga dos Comunistas.  
 
"O objetivo da Liga é a queda da burguesia, o governo do proletariado, a abolição da velha sociedade burguesa baseada em antagonismos de classe, e o estabelecimento de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada". [4]  
 
A diferença é óbvia. O "governo do proletariado" é trocado por "ditadura do proletariado", a revolução é transferida para uma "revolução em permanência" (“la révolution en permanence”).
 
A primeira alteração pode ser considerada de natureza editorial, embora ela resultou das experiências da Revolução de 1848, e especialmente dos eventos em Paris entre 24 de Fevereiro e os dias de Junho; o último formado em adição, que, como eu já coloquei em outro lugar, foi primeiro resolvido sobre após 1848-49, apesar da expressão ter aparecido nos primeiros trabalhos de Marx sobre as lições da grande Revolução Francesa, particularmente sobre as lições providas pelos Jacobinos que apoiaram a “révolution en permanence.”
 
O acordo reproduzido aqui é composto no espírito do famoso circular da Liga dos Comunistas. É bem conhecido que a Liga não viveu por muito tempo, já que cedo como Setembro de 1850, houve a cisão na fração de Marx e na fração de Willich-Schapper. Nos signatários do acordo, Vidil apareceu ao lado de Willich e Adam, de Marx. A cisão na Liga dos Comunistas foi refletida em uma cisão também nas categorias dos "Socialistas democráticos" Franceses, entre quais um número considerável eram conhecidos por Louis Blanc, que estava então esforçando-se para um entendimento com os Radicais burgueses. Os Blanquistas que estavam aliados com ele (Louis Blanc) se viram compelidos, na época do Banquete dos Iguais(Banquet des Egaux), que ocorreu em 1851, no terceiro aniversário de 24 de Fevereiro, para manter em segredo o manifesto [5] recebido por eles de um Blanqui aprisionado, no qual ele criticou devastadoramente a atitude de Ledru-Rollin, e ainda mais de Louis Blanc. Nós devemos falar destes episódios interessantes na história da emigração em maiores detalhes em outro lugar. Aqui nós iremos nos restringir para dar a atenção ao leitor para os numerosos pontos de contato entre a crítica de Marx ao governo provisório de Lamartine, Ledru-Rollin e Louis Blanc, e dos Blanquis.  
 
Apêndice I  
A Liga Mundial de Comunistas Revolucionários (Société Universelle des Communistes Révolutionnaires)


(1) O objetivo da Associação é a queda de todas as classes privilegiadas, e a subjeição dessas classes á ditadura do proletariado por meio de manter a revolução em permanência até a realização do Comunismo, que deverá ser a forma final de organização da comunidade humana.
 
(2) Para favorecer a realização deste objetivo, a Associação irá conectar todas as seções do Partido Comunista revolucionário, desconsiderando as fronteiras nacionais de acordo com os princípios da irmandade republicana.  
 
(3) O comitê original da Liga é constituída como um comitê central, e irá estabelecer comitês sempre que for necessário para realizar o trabalho que estará em toque com o comitê central.  
 
(4) Não há limite para o número de membros da Liga, mas nenhum membro será admitido que não é eleito por unanimidade. Em nenhum caso as eleições serão conduzidas por uma cédula secreta.
 
(5) Todos os membros da Liga juram manter os parágrafos das regras presentes no sentido mais completo. Qualquer modificação que pode resultar no enfraquecimento dos objetivos expressos neste parágrafo lança os membros da Liga de seus compromissos.  
 
(6) Todas as decisões da sociedade serão adotadas se elas obterem dois-terços da maioria dos eleitores.  
 
(assinado) J. Vidil, Adam, August Willich, K. Marx, G. Julian Harney, Fr. Engels.

 

Originalmente publicado no Unter dem Banner der Marxismus (segundo ano, No. 1-2, 4-5)

 

Escrito por David Riazanov

 

Tradução de Ukyo
 
Notas
[1] Ed. Bernstein, Die Voraussetzungen des Sozialismus, Stuttgart, 1899, pp.28, 29.
[2] Karl Marx, Die Klassenkämpfe in Frankreich, Berlin, P. Singer, 1911, pp.93, 94.

[3] Cf. Appendix I.
[4] Archiv fur die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung, Jahrgang 9 (1920), p.334.
[5] Ver http://www.marxists.org/reference/archive/blanqui/1851/toast.htm.

Please reload

Leia também...

"Se querem a paz, vocês têm que lutar por ela"

10/12/2019

O Socialismo Científico de Marx e Engels e o combate às ideias antiproletárias

09/12/2019

"Conversa entre J.V. Stalin e Mao Tsé-tung"

29/11/2019

"Carta da Komintern ao Comitê Central do PCB em 1933"

28/11/2019

1/3
Please reload

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube