"Existe um pensamento hispano-americano?"

26/04/2019

 

I

Há quatro meses, num artigo sobre a ideia de um congresso de intelectuais ibero-americanos, formulei esta interrogação. A ideia do congresso teve muito progresso nestes quatro meses. Agora aparece como uma ideia meio vaga, porém, que simultaneamente é latente em vários núcleos intelectuais da América indo-ibérica. Como uma ideia que germinava ao mesmo tempo em diversos centros nervosos do continente. Antes esquemática e embrionariamente, no entanto, hoje começa a adquirir um certo grau de desenvolvimento e de corporeidade.

 

Na Argentina, um grupo animado e volitivo se propõe a assumir a função de animar e realizar esta ideia. O trabalho deste grupo tende a ser ligado com os afins dos demais grupos ibero-americanos. Circulam entre estes grupos alguns questionários que pensam ou insinuam os temas que devem ser discutidos no congresso. O grupo argentino tem esboçado o programa de uma “União Latino-Americana”. Em suma, existem os elementos preparatórios de um debate, no curso do qual se elaborarão e apreciarão os fins e as bases deste movimento de coordenação ou de organização do pensamento hispano-americano, ainda que, um pouco abstratamente, para poder ser definidos por seus iniciadores.

 

II

Me parece, portanto, que é tempo de considerar e esclarecer a questão pensada em meu mencionado artigo. Existe já um pensamento caracteristicamente hispano-americano? Acredito que, a esse respeito, as afirmações dos colaboradores de sua organização vão longe demais. Certos conceitos de uma mensagem de Alfredo Palacios à juventude universitária da Ibero-América tem induzido à alguns temperamentos excessivos e tropicais, a uma estimação exorbitante do valor e da potência do pensamento hispano-americano. A mensagem de Palacios, entusiasta e otimista em suas asserções e em suas frases, como convém a seu caráter de ladainha ou de proclamações, tem gerado uma série de exageros. É indispensável, portanto, uma retificação desses conceitos demasiadamente categóricos.

 

“Nossa América –escreve Palacios– até hoje tem vivido tendo a Europa como guia. Sendo orientada e nutrida pela cultura europeia. Mas a última guerra tornou evidente o que já se adivinhava: que no coração desta cultura estão os germes de sua própria dissolução”. Não é possível se surpreender que estas frases estão estimulando uma interpretação equivocada da tese da decadência do Ocidente. Palacios parece anunciar uma radical independência de nossa América da cultura europeia. O tempo verbal presta-se ao equívoco. O julgamento do leitor simplista deduz da frase de Palacios que “até agora a cultura europeia tem nutrido e orientado” a América; mas, desde hoje não nutre nem orienta mais. Resolve, ao menos, que a partir de hoje a Europa tem perdido o direito e a capacidade de influenciar espiritual e intelectualmente nossa jovem América. E esse julgamento se acentua e se exacerba, inevitavelmente, quando, algumas linhas depois, Palacios acrescenta que “não nos servem os caminhos da Europa nem as velhas culturas” e quer que nos emancipemos do passado e do exemplo europeus.

 

Nossa América, segundo Palacios, se sente na iminência de dar à luz a uma nova cultura. Extremando esta opinião ou esta adivinhação, a revista Valoraciones fala de “contas liquidadas com os tópicos habituais, expressões agonizantes da alma decrépita da Europa”.

 

Devemos ver neste otimismo um sinal e um dado do espírito afirmativo e da vontade criadora da nova geração hispano-americana? Eu acredito reconhecer, antes de tudo, um traço da velha e incurável exaltação verbal de nossa América. A fé da América no seu futuro não necessita se alimentar de um artificial e retórico exagero de seu presente. É bom que a América acredite estar predestinada a ser o lar da futura civilização. É bom que diga: “Por minha raça falará o espirito”. [1] É bom que se considere eleita para ensinar ao mundo uma nova verdade. Mas, não que se suponha as vésperas de substituir a Europa nem que declare a hegemonia intelectual do povo europeu já extinta e pisoteada.

 

A civilização ocidental se encontra em crise; mas não existe ainda nenhum indício de que esteja próxima de cair num colapso definitivo. A Europa não está, como absurdamente se diz, exausta e paralítica. Em malgrado, a guerra e o pós-guerra conserva seu poder de criação. Nossa América continua importando da Europa ideias, livros, máquinas, modas. O que acaba, o que declina, é o ciclo da civilização capitalista. A nova teoria da decadência do Ocidente, produto do laboratório ocidental, não prevê a morte da Europa, mas, da cultura que é sediada ali. Esta cultura europeia, que Spengler julga em decadência, sem prognosticar por isto um falecimento imediato, sucedeu a cultura greco-romana, também europeia. Ninguém descarta, ninguém exclui a possibilidade de que a Europa renove e se transforme mais uma vez. No panorama histórico que nossa visão alcança, a Europa se apresenta como o continente das máximas palingeneses. [2] Os maiores artistas, os maiores pensadores contemporâneos, não são, todavia, europeus? A Europa se nutre da seiva universal. O pensamento europeu se submerge nos mais distantes mistérios, nas mais velhas civilizações. Mas, isto mesmo demonstra sua possibilidade de convalescer e renascer.

 

III

Retornemos a nossa questão. Existe um pensamento caracteristicamente hispano-americano?

 

Me parece evidente a existência de um pensamento francês, de um pensamento alemão, etc., na cultura do Ocidente. Não me parece igualmente evidente, no mesmo sentido, a existência de um pensamento hispano-americano. Todos os pensadores de nossa América foram educados numa escola europeia. Não se sente em seu trabalho o espirito da raça. A produção intelectual do continente carece de traços próprios. Não tem contornos originais. O pensamento hispano-americano geralmente, não é nada mais que uma rapsódia composta com motivos e elementos do pensamento europeu. Para comprová-lo basta revisitar a obra dos mais altos representantes da inteligência indo-ibérica.

 

O espírito hispano-americano está em elaboração. O continente, a raça, também estão em formação. As aluviões ocidentais, nos quais se desenvolvem os embriões da cultura hispano ou latino-americana, - na Argentina, no Uruguai, pode-se falar de latinidade – não tem conseguido se envolver nem se solidarizar com o solo sobre o qual a colonização da América os depositou.

 

Em grande parte de Nossa América constituem um estrato superficial e independente ao qual não aflora a alma indígena, deprimida e taciturna, por causa da brutalidade de uma conquista que em alguns povos hispano-americanos não mudaram até agora os métodos. Palacios disse: “Somos povos nascentes, livres de ligaduras e atavismos, com imensas possibilidades e vastos horizontes diante de nós. O cruzamento de raças nos deu uma nova alma. Dentro de nossas fronteiras acampa a humanidade. Nós e nossos filhos somos sínteses de raças”. Na Argentina é possível pensar assim; no Peru e em outros povos da Hispano-América não. Aqui a síntese não existe. Os elementos da nacionalidade em elaboração, ainda não podem se fundir ou se soldar. A densa camada indígena se mantém quase totalmente estranha ao processo de formação dessa peruanidade que tendem a exaltar e inflar nossos cidadãos nacionalistas, predicadores de um nacionalismo sem raízes no solo peruano, aprendidos nos evangelhos imperialistas da Europa, que, como já tive a oportunidade de remarcar, é o sentimento mais estrangeiro e postiço que existe no Peru.

 

IV

O debate que começa deve esclarecer precisamente todas estas questões. Não se deve preferir a cômoda ficção de declará-las resolvidas. A ideia de um congresso de intelectuais ibero-americanos será válida e eficaz, antes de tudo, na medida em que se consiga cria-lo. O valor da ideia está quase integralmente no debate que ela suscita.

 

O programa da seção Argentina da esboçada União Latino-Americana, o questionário da revista Repertorio Americano da Costa Rica e o questionário do grupo que aqui trabalha pelo congresso, convidam aos intelectuais de nossa América a pensar e opinar sobre muitos problemas fundamentar deste continente em formação. O programa da seção Argentina tem o tom de uma declaração de princípios, sem dúvida prematura. No momento, é apenas uma questão de elaborar um plano de trabalho, no “plano da discussão”. Mas, nos trabalhos da seção Argentina incentiva-se um espirito moderno e uma vontade renovadora. Esse espirito, essa vontade, conferem a eles o direito de dirigir o movimento. Por que o congresso, se não representar e organizar a nova geração hispano-americana, não representará nem organizará absolutamente nada.

 

Publicado em Mundial: Lima, 19 de maio de 1925. Reproduzido em El Argentino: La Plata, 14 de junho de 1925.

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Notas

[1] Lema criado por José Vasconcelos para a Universidade Nacional de México.

[2] Ressureições, regenerações.

 

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