"A partilha imperialista da África"

19/04/2019

 

Lenin muito raramente mencionou a África em seus escritos sobre o colonialismo, porém faz inferências sobre África podem ser percebidas no Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo e em outras obras. Boa parte dos escritores burgueses no tema da partilha da África fazem observações sarcásticas sobre a explicação Leninista do imperialismo. Pelo fato deles já terem estabelecido um quase monopólio do que é escrito sobre este assunto, é necessário enquadrar essa análise como uma refutação de equívocos comuns. Além disso - como também é um caso frequente com os trabalhos de Marx, Engels e Lenin - muitas críticas hostis são baseadas em pura ignorância dos textos. Portanto o leitor deve suportar citações frequentes.
 
Lenin geralmente é citado por ter professado uma teoria "econômica" do imperialismo. Isso deu a origem á crítica de que sua teoria era unilateral, porque os Europeus esculpiram a África por vários motivos econômicos, políticos, social-humanitário, psicológico, etc. É claro que o Marxismo não se preocupa somente com alguns tão falados aspectos "econômicos" da sociedade. É uma visão de mundo que percebe a presença de variantes múltiplas dentro da complexidade da sociedade humana, e procura desvendar suas relações com referência das condições materiais da existência. Lenin não tinha que soletrar essa posição Marxista elementar em tudo o que ele escreveu. Sua redação sobre o imperialismo lidou com a questão da expansão da economia capitalista. As dimensões não econômicas eram conhecidas, e foram tratadas como secundárias. Lenin fez duas referências de passagem neste ponto:
 
1 - Os capitalistas dividem o mundo, não por qualquer malícia particular, mas porque o nível de concentração que foram alcançadas os força á adotar este método para obter lucros. E eles dividem isso em proporção ao "capital", em proporção á "força", porque não pode ter qualquer outro sistema de divisão sob a produção de commodities e sob o capitalismo. Mas a força varia de acordo com o nível de desenvolvimento econômico e político. Para poder entender o que acontece, é necessário saber quais as questões são estabelecidas por essa mudança de forças. A questão de que se essas mudanças são "puramente" econômicas ou não-econômicas (por exemplo, militar) é secundária, o que não afeta de forma alguma a visão fundamental da atual época do capitalismo.  
 
2 - A superestrutura que cresce na base do capital financeiro, suas políticas e sua ideologia, estimula a luta pela conquista colonial.  
 
Nós precisamos estar informados de como mudanças na balança de poder politíco-militar e aspirações nacionais Europeias por dominação estimulou a luta por colônias em África. Tais fatores não estavam fora do campo de percepção de Lenin, e explorando-os de forma ampla não invalida suas teses de forma alguma. Por exemplo, tais fatos como que os franceses estão pendurados no "prestígio", ou essas mudanças ocorrem na tão falada balança de poder devem estar relacionadas com a economia política da Europa. Elas não surgiram do nada. Elas foram produtos do desenvolvimento do capitalismo monopolista dentro das fronteiras de diversas estados Europeus. A elaboração deste argumento nos levaria mais fundo no passado Europeu, o que está fora da mira desta breve análise. A pergunta mais pertinente é: Quão longe e de quê modos o capital monopolista impingiu na África durante o período de notória corrida?
 
Uma boa quantidade de encrenca aconteceu para mostrar que pouco capital foi investido na África antes da primeira guerra capitalista mundial. A Europa Ocidental investiu muito mais na Europa Oriental, nos EUA, América Latina e Ásia do que na África. Essa é uma contradição de Lenin apenas para aquelas que não leram Lenin. Os exemplos de Lenin de investimento por monopólios fora dos epicentros capitalistas estão situados na Europa Oriental, no Oriente Médio, e na América Latina. Ele citou a Rússia, Romênia, Turquia, e Argentina de forma mais vigorosa como países que receberem o investimento e exploração finais.  
 
Apenas a Grã Bretanha, com um grande número de colônias velhas e novas, estava exportando uma proporção significativa de seu capital para suas colônias políticas no início deste século. A França estava investindo principalmente na Rússia, e a Alemanha dividiu seus interesses entre a Europa Oriental e nas Américas.
 
Lenin citou o geógrafo Supan para o efeito que a característica principal do final do século dezenove foi a divisão da África e da Polinésia. Ele então adicionou que "A conclusão do Sr Supan deve ser levada adiante, e nós devemos dizer que a característica principal deste período é a partilha final do globo, não no sentido de que uma nova partilha é impossível; pelo contrário, novas partilhas são possíveis e inevitáveis, mas no sentido que a política colonial dos países capitalistas tem completado a apreensão dos territórios não ocupados em nosso planeta". A ênfase de Lenin no "completado" é significante, porque coloca a corrida pela África dentro do contexto de um processo único emanando da Europa e espalhando  por todo o mundo. Sua intensidade não foi a mesma em todos os pontos. Grandes quantias de capital não foram inicialmente investidas na África, mas a África não poderia escapar do processo inexorável de expansão, dominação e partilha que tem suas raízes no capital monopolista.  
 
Lenin tomou dores para mostra que a divisão do mundo entre monopólios capitalistas e de nações-estados nos quais estavam incrustados não era uma opção política que poderia também ser substituída por um pensamento mais iluminado. Ele enfatizou a lógica interna que fez a partilha internacional inseparável da natureza do capital monopolista naquela época. África era o grande continente desconhecido. Os Europeus sonhavam com seu grande potencial. Certas observações de Lenin são particularmente aptos nessa questão:
 
O capital financeiro não está apenas interessado nas fontes de matéria prima já conhecidas, ... porque o desenvolvimento técnico dos dias atuais é extremamente rápido... Daí vem a luta inevitável do capital financeiro para estender seu território econômico no geral. Da mesma forma que trustes capitalizam suas propriedades estimando-as por duas ou três vezes seus valores, levando em conta seus retornos "potenciais" (e não presentes), e os resultados posteriores do monopólio, então o capital financeiro luta para apreender a maior quantidade possível de terras de todos os tipo e em qualquer lugar possível, e por qualquer meio, contando com as possibilidades de encontrar matéria bruta e temendo ficar por fora na luta insensata pelas últimas sobras disponíveis de território não dividido.  
 
Tomou-se um tempo considerável antes das potências imperialistas fazerem esforços para investir grandes quantias de capital na África como um todo. No caso da França, investimento capital significativo na África é um fenômeno pós Segunda Guerra Mundial. Lenin notou que a possibilidade de exportar capital para países atrasados foi criado por aqueles países foi desenhado anteriormente para relações capitalistas internacionais, assim criando condições elementares (tal como o início da construção de ferrovias e portos) para envolvimentos posteriores mais avançados. A infraestrutura necessária estava emergindo na Europa Oriental, nas Américas, e em partes da Ásia; mas isso ocorreu de forma escassa em todos os lugares na África durante o século dezenove e início do século vinte. Lenin, como Marx antes dele, reconheceu a tremenda contribuição feita pela África para a acumulação de capital durante a época do comércio de escravos. O fato de que ele não lidou com a África de qualquer modo no contexto do imperialismo não foi um descuido, já que naquela época a África era marginal para o desenvolvimento do capitalismo.  
 
Uma compreensão disso frequentemente foi obscurecida por uma tendência de caricaturar a teoria de Lenin sobre o imperialismo, dando o significado á ela como a divisão do mundo em colônias políticas. Desde que a África foi o exemplo clássico de partilha política, seguiria então que a África fosse o continente no qual o monopólio estivesse principalmente interessado. Lenin falou primeiro e acima de tudo sobre a "luta por território econômico". Nações imperialistas ás vezes acharam possível e necessário transformar seus território econômicos em colônias políticas, para assim reforçar a exploração e proteger sua competição capitalista estrangeira. Como Lenin coloca: "A posse colonial por si dá garantia completa de sucesso para os monopólios contra todos os riscos de luta com seus competidores, incluindo o risco que o último irá se defender por vias legais estabelecendo um monopólio estatal". Todavia, o capital monopolista frequentemente estabeleceu esferas de interesse econômico nas quais retiveram níveis variados de independência política.  
 
O capital monopolista tinha uma pequena representação no continente Africano relativa á sua presença na Ásia e na América, mas apareceu com força suficiente para precipitar a corrida implacável pela África. É necessário ter em mente que tal capital que foi investido na África foi concentrada em duas áreas chaves: África do Sul e Egito, com o Congo, Magreb e Nigéria como outros pontos decisivos. Olhando para a África Oriental, um historiador burguês (Koebner) comentou que "A Companhia Imperial Britânica da África Oriental certamente não era uma galáxia de grandes interesses capitalistas". Isso foi entendido como algo aparte na qual colocaria para baixo a interpretação Leninista, e é na realidade factualmente precisa ainda que lamentavelmente fora de foco. A posição de Lenin não implica que toda parte da África estava enchendo com capital excedente trazido por grandes monopólios europeus. Não é necessário, por exemplo, procurar uma razão específica do porquê os Europeus queriam a região que agora é a República Centro-Africana. É o suficiente saber que o capital monopolista estava interessado em algumas partes do continente onde o potencial era verificado até certo ponto. Nas lutas por essas áreas, os Europeus também consideraram proveitoso a repartição entre eles mesmos as grandes expansões desconhecidas - especialmente já que ninguém queria perder uma parte, nem mesmo a Espanha ou a Itália.
 
Os principais elementos da época de Cecil Rhodes na região Sul da África são muito bem conhecidas para exigir atenção aqui. Todos os ingredientes nos quais Lenin falou estavam claramente presentes. Havia Rhodes e De Beers representando o capital monopolista; havia ouro e diamantes e a possibilidade do desenvolvimento extensivo de ferrovias; também havia a competição Anglo-Alemã; e havia o espetáculo de ambos Boers e os Africanos sendo submetidos e incorporados no extenso império do capital. A cena Egípcia é igualmente bem conhecida, o canal Suez sendo simbólico de grandes ambições do capital financeiro Europeu. Disraeli não era ninguém menos que um homem de frente para os Rothschilds, que depois utilizaram sua influência política para trazer a conquista do Egito. Além disso, o interesse na Índia pelos capitalistas Britânicos teve um bom motivo para querer derrubar os franceses e colonizar o Egito e o Sudão.
 
No Egito, a Grã-Bretanha e a França investiram capital diretamente no Canal e indiretamente em outros setores através de empréstimos. Os Franceses eram muito interessados no capital de empréstimo, como Lenin observou, quando ele disse que "O imperialismo Francês pode ser denominado como a usura do imperialismo". Isso foi bem exemplificado em Magrebe. A ocupação francesa na Tunísia foi conquistada através de uma política de empréstimos financeiros em taxas extravagantes para uma Bei de Tunes igualmente extravagante, que ainda existiu na atmosfera feudal das Cruzadas, e que provou ser uma presa fácil para as manipulações dos financistas Europeus. A Grã-Bretanha e a Itália também estavam no negócio, porém a França os trancou por um ataque armado em Tunis em 1881-expressivamente denominado como o Golpe de Bourse. O Sultão do Marrocos foi pego no mesmo saco quando em 1904 negociou um empréstimo de 62,5 milhões de francos de bancos Franceses, prometendo 60% da receita aduaneira da nação como seguro.  
 
A Argélia foi uma exceção, mesmo que uma não tão importante vindo de um ponto de vista analítico. Suas costas foram presas da ganância Francesa desde 1830, e então o início de sua colonização não foi parte da expansão imperialista geral. No entanto, desde a década de 1880 o interesse na Argélia foi estimulado pela nova ofensiva Francesa na África, e em Magrebe em particular. Quando Lenin se referiu á Portugal como uma colônia Britânica, ele indicou que isso era verdade antes do auge do imperialismo, mas que isso assumiu novo significado na época do partilha. Suas observações neste contexto são bem apropriadas para a relação Algerina-Francesa. "Relações desde tipo", diz Lenin, "sempre existiu entre estados grandes e pequenos. Porém, durante o período do capitalismo imperialista, elas se tornaram um sistema geral, elas formam parte do processo da 'divisão do mundo'; elas se tornam uma conexão na corrente de operações do capital financeiro mundial". Na Argélia, Tunísia e Marrocos, a força militar era aplicada nos interesses da finança como também para manter as planícies do Mediterrâneo livres para os colonos Europeus. Essa questão de encontrar espaço para a "população excedente" da Europa foi uma na qual Lenin deu proeminência, tomando sua sugestão dos pronunciamentos de imperialistas como Cecil Rhodes. Na prática, não foi um tema importante na conquista imperialista do continente Africano, o Magrebe sendo uma das poucas áreas onde isso foi aplicável.
 
No sul do Saara e norte do Transvaal reside a vasta massa da África negra, que foi tão alegremente cortada pelo estadista ladrão que sentou em Berlin em 1884. Tirando o Egito e a África do Sul como países países receptores de capital "excepcionais" na África do século dezenove limpou o caminho para mistificar a partilha no resto do continente por meio de falar sobre exploradores e missionários trazendo a civilização para os nativos. Ainda, em algumas formas pode ser dito que em nenhum lugar a universalidade da formulação Leninista melhor indicada que nessas terras onde o capitalismo anteriormente lançou um comércio de escravos das costas Leste e Oeste. "Sob o velho capitalismo, quando a livre concorrência prevaleceu, a exportação de bens foi a característica mais típica," disse Lenin. "Sob o capitalismo moderno, quando os monopólios prevaleceram, a exportação de capital se tornou a característica típica". Um relance na evidência mostraria que essa mudança foi nitidamente efetuada na África tropical. Durante a época do comércio de escravos, os Europeus trouxeram bens para a África e os trocou por seres humanos, que eram então transformados em commodities vendáveis. Quando a Europa ficou interessada na matéria bruta do continente, capital foi enviado para transformar Africanos em trabalhadores e camponeses produzindo para o mercado capitalista.
 
O Congo foi a infeliz distinção de ser um dos primeiros como também um dos últimos países Africanos no qual a escravatura ocorreu. Pelo século dezenove alguém vivendo na bacia do congo poderia ser apreendido e enviado para o Oeste para o Atlântico ou para o leste, para o Oceano Índico. A Europa Imperialista teve que estampar o comércio de escravos onde ainda tinha sobrevivido; a nova necessidade era pelo trabalho Africano para ser aproveitado pelo capital Europeu como também para exportar matéria bruta, como borracha e algodão. Entrando em Livingstone, Stanley e Rei Leopoldo. Financiado pelo franco Belga e missionários brancos que pregavam o valor redentor do trabalho que produziu o que o capitalismo exigiu.  
 
É uma mera ilusão apresentar o Congo como a propriedade de um homem (Rei Leopoldo) e discutir sua colonização em termos de extravagância pessoal. Foi pelo fato de várias nações estarem empenhados para explorar o Congo que foi deixado sobre a administração nominal do governante de um pequeno estado. A própria Grã-Bretanha estava interessada apenas em uma garantia de comércio e não na soberania sobre o país. A Grã-Bretanha primeiro tentou um tratado com Portugal no qual daria o Congo aos Portugueses, enquanto permitisse comerciantes Britânicos gozarem de seus extensos privilégios. Posteriormente a Grã-Bretanha caiu em linha com a França e Alemanha em apoio á criação de Leopoldo de um "Estado Livre do Congo" - livre no sentido de que não teria restrições no comércio e investimento pelos capitalistas de todos os países. Houve um grande clamor humanitário contra as atrocidades cometidas pelos Europeus no Congo sob o regime de Leopoldo, porém a comissão internacional que estudou a situação estava mais interessada no fato de que Leopoldo violou os acordos do livre comércio. Em 1906, quando o governo pessoal de Leopoldo finalizou, ele se sentiu obrigado a oferecer quatro grandes concessões para os Britânicos, Franceses e para os capitalistas Americanos. Esse foi o ponto no qual a União Minière e Forminière surgiram, e o Congo tomou o primeiro passo adiante de se tornar um cockpit do capital monopolista internacional.
 
O Congo era atípico. Em outros lugares na África, as principais nações capitalistas Europeias apreenderam território econômico e hastearam suas próprias bandeiras para provar o ponto. Algumas vezes, os mastros pareciam estar presos no chão sem motivo. Por quê a pequena Gâmbia dentro da barriga de Senegal? Por quê o Togo Alemão e Daomé Francesa fecharam entre as colônias Britânicas da Costa Dourada e Nigéria? A única explicação (e a que foi destacada por Lenin) é a busca Europeia por matéria bruta, particularmente por óleos comestíveis e gordura que foram obtidas na África Ocidental do óleo de palma e amendoim. Foi em ordem de manter investimentos que encorajou o cultivo de amendoim que os capitalistas Britânicos se agarram na Gâmbia; enquanto Togo e Daomé eram "protetorados" estabelecidos pela Alemanha e França para proteger seus interesses no óleo de palma.
 
O envolvimento alemão no comércio de óleo de palma e em sua aquisição de Togo constitui um pequeno episódio que ilumina um dos principais argumentos de Lenin sobre o modo que a Alemanha estava ultrapassando rapidamente a Grã-Bretanha e a França na fase de capital monopolista. A Alemanha teve grande interesse no óleo de palma da África Ocidental pelo fato de sua indústria em expansão e ferrovias precisavam de mais lubrificantes, seu proletariado ofereceram um grande mercado para óleos de cozinha baratos, seu setor de agricultura mista avançada utilizou palmiste como abastecimento de estoque, seus navios a vapor tinham estabelecido linhas diretas com a África Ocidental e Oriental, e Hamburgo era o único local na Europa com o maquinário para esmagar palmiste. A consequência de tudo isso foi que a Alemanha recebeu uma quota muito maior do "território econômico" da África Ocidental do que é aparente, por meio de invasão nos territórios politicamente controlados pela Grã-Bretanha e França. Em 1885, firmas Alemãs (financiadas pelo Banco Disconto) assegurou metade da exportação de palmiste do protetorado Britânico de Lagos, e um terço do óleo de palma. Mais de três quartos do palmiste exportado da África Ocidental Britânica foram para a Alemanha em 1914. Além disso, a aquisição da pequena colônia de Togo (e outras colônias Alemãs) foi uma conquista notável que o poder econômico Alemão tinha de superar o longo impulso inicial histórico estabelecido pela Grã-Bretanha e França, cuja presença na África Ocidental data no período do comércio de escravos.  
 
Nem todas as companhias engajadas no comércio de óleo de palma eram de interesse monopolista. Pelo contrário, o comércio começou no início do século dezenove com um grande número de pequenos empresários que eram conhecidos como "rufiões do óleo de palma" e suas atividades constituíram uma fase de livre iniciativa violenta. Porém no tempo da partilha, o riser do Níger tinha uma única empresa gigante, a Companhia Real do Níger, que foi o primeiro governo colonial da Nigéria ao Norte. Assim como a mais notória Companhia Britânica da África do Sul de Rhodes foi confiada com o destino do povo da África do Sul. O modo que a Companhia Real do Níger foi subsumida e consumiu competidores por fusões, corte de preços, e outros meios se encaixa bem no clássico padrão analisado por Lenin. Seu charter (concedido em 1886) terminou em 1897, mas continuou como a Companhia do Níger até 1911 quando foi tomada sobre a asa do Lever Brothers. Uma grande parte da produção Nigeriana foi então destinada a cair sobre o controle do polvo capitalista Africano, a United Africa Company, que por sua vez era uma subsidiária da Unilever Anglo-holandesa.
 
Lenin falou do monopólio no sentido que a dominância de uma ou duas firmas dentro de um ramo particular da indústria em dada economia capitalista. Na partilha e repartilha econômica da África, novas dimensões do monopólio apareceram. Primeiramente, algumas firmas Europeias estabeleceram dominância sobre o comércio colonial em uma categoria muito mais difusa que, digamos, as indústrias metalúrgicas, do óleo, ou químicas, nas quais eram os objetos da atenção de Lenin. Portanto a UAC apareceu em todas as colônias Britânicas e no Congo, Daomé, Alto Volta, Chad, e Cravos, manipulando qualquer matéria bruta que aparecesse nestes territórios. Em segundo lugar, a UAC na maioria dos casos estendeu seus tentáculos sobre todas as facetas de dada economia colonial, desde remessas até na distribuição de lâminas de barbear em suas próprias lojas. De maneira similar, os monopólios coloniais Franceses tais como CFAO, SCOA e Madagascar Importação-Exportação estavam ativamente engajados nas atividades agrícolas concessionárias assim como também o manuseio da maioria das importações e exportações. Nenhum monopólio, independente do tamanho, poderia ter tal completo controle sobre uma economia capitalista metropolitana.  
 
Deve ser reiterado que Lenin tinha pouco o que falar que era explicitamente preocupado com a África. Daqui segue que enquanto suas intuições deram um ponto de partida imediato para uma análise da partilha imperialista da África, não se deve esperar todas as respostas em seus escritos. Para essa questão, Lenin não pôs uma pergunta bastante significante: Por quê o imperialismo surgiu na África na forma de partilha política? Essa omissão é um motivo do porquê escritores burgueses escaparam com a ação de borrar a distinção entre imperialismo e a partilha política da África. As duas coisas não são intercambiáveis. O imperialismo deriva da expansão da economia capitalista, enquanto a partilha foi determinada por a) pela natureza das formações sociais Africanas, b) o elemento do racismo dentro da superestrutura capitalista, e c) a oposição dos Africanos á incursão Europeia.  
 
Em alguns casos, o imperialismo estava preparado para permitir a independência política aos países (como na América Latina e nos Balcãs), enquanto em outros a intervenção Europeia na arrecadação de impostos e a instalação de esferas de interesse comercial (como na China), prejudicou gravemente a independência política mas não a aboliu. Na América Latina e na Europa Oriental, havia classes sociais que cumpriam um papel dentro da produção capitalista muito antes da época imperialista. Estes países foram facilmente incorporados pelo imperialismo, desde que nada fosse feito para privá-los abertamente dos atributos da soberania nacional, já que eles tinham uma burguesia que havia participado de revoluções nacionais. Na China do século dezenove, exitiu uma classe burocrata feudal e o começo de uma burguesia nacional, ambas as quais poderiam ser utilizadas como instrumentos do capital estrangeiro. Os feudalistas burocratas em particular foram rapidamente transformados em compradores servindo o imperialismo. A maior parte da África neste período era pré-feudal em suas relações sociais, e os Europeus portanto acharam necessário introduzir seu próprio pessoal e instalar seus próprios governos.
 
No entanto, houve alguns Africanos com a experiência social necessária que poderiam ter operado de maneira independente dentro da estrutura colonial. Em Senegal, Sierra Leone, Ghana e Nigéria, uma elite Africana bem educada estava no processo de formação desde o fim do século dezoito, e era bem proeminente quando o governo colonial foi instituído. A vinda do colonialismo envolveu a destruição deliberada dessa elite negra por causa do racismo que surgiu na fase inicial da expansão capitalista quando o genocídio da América Latina e a escravização de Africanos foi dada por uma justificativa pseudo-científica e obscurantista.  
 
A África do Sul foi outro laboratório no qual o vírus racista branco foi cultivado; e enquanto o capitalismo subordinava a economia semifeudal dos Boers, acharam útil entrincheirar ainda mais o racismo como um suporte para a exploração brutal do trabalho dos povos negros da África do Sul. Como parte da superestrutura capitalista, o racismo era tão poderoso que os Europeus mal poderiam suportar o pensamento de uma Etiópia e Libéria politicamente independentes no continente Africano, apesar do fato de ambos esses estados terem se tornado enredados no sistema capitalista internacional.
 
A África não teve tradições nacionalistas revolucionárias nas quais poderiam ter ido de encontro com as ambições colonialistas. Mesmo assim, houve uma resistência muito difundida à imposição do governo colonial, pelo fato do povo ter defendido de forma espontânea seu modo de vida contra os estrangeiros. Em um exemplo, a força da Etiópia-Européia era inadequada, e os Etíopes trucidaram os Italianos em Dogali, em 1887 e de forma mais decisiva em Adowa, em 1896, então garantindo sua independência política. Por outro lado, a Grã-Bretanha sofreu alguns contratempos no Egito e no Sudão, e usou estes como degraus para o poder político. É bem verdade que os estadistas Britânicos não contemplavam o controle político sobre o Egito quando o capital Britânico foi investido no Canal Seuz. O movimento nacionalista Egípcio embriônico sobre o Coronel Urabi e a vitória Sudanesa sobre o General Hicks e Gordon foram sem dúvidas eventos que forçaram a Grã-Bretanha exercitar dominação política sobre Egito e Sudão. Dos eventos no Egito alguns escritores burgueses chegaram na conclusão irracional que foi a revolta nacionalista Egípcia ao invés do capital financeiro que explica a presença do imperialismo Britânico nessa parte da África. Claramente, a manifestação nacionalista foi uma resposta ao imperialismo Britânico, na qual (com sua contrapartida Francesa) já tomaram posse do Egito como um território econômico. Para Lenin, a divisão de território econômico foi o fator central, e a exatidão dessa posição é fortemente evidente hoje na África quando o imperialismo quase mudou completamente sua forma de partilha política, para melhor perseguir a substância da exploração econômica.  
 
Escrito por Walter Rodney para o Monthly Review, em Abril de 1970.

 

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