Mariátegui: "O imperialismo ianque na Nicarágua"

02/04/2019

 

Nem mesmo os que ignoram os episódios e o espírito da política dos Estados Unidos na América Central podem, certamente, levar em consideração as razões com as quais o senhor Kellog pretende avançar com a invasão do território da Nicarágua por tropas ianques. Mas, os que recordam o desenvolvimento dessa política nos últimos cinco ou quatro anos, sem dúvidas, podem perceber melhor a absoluta coerência desta intervenção armada nos eventos domésticos da Nicarágua com a finalidade e práxis notórios desta política de expansão.

 

Já fazem muitos anos que os Estados Unidos colocam os olhos na Nicarágua e são várias as oportunidades em que, com pretextos análogos, metem as mãos sobre sua formal autonomia.

 

Roosevel, o “forte caçador”, notificou a Nicarágua, quando era governada pelo presidente Zelaya, com o propósito dos Estados Unidos em converter San Juan num canal interoceânico e de estabelecer uma base naval no golfo de Fonseca. Mas, este plano com clara intensão imperialista, naturalmente encontrou viva a resistência na opinião nicaraguense. O presidente Zelaya não pode fazer nenhuma concessão ao governo norte-americano a este respeito. Os Estados Unidos não obtiveram deste capataz da política nicaraguense nada além de um tratado de amizade. Mas, em seguida, seus agentes se entregaram ao trabalho de organizar as revoltas das quais, ao amparo dos fuzis ianques, devia brotar um governo obediente ao imperialismo do Norte.
 

Este objetivo foi definitivamente alcançado com a formação do governo de Adolfo Díaz, serviçal incondicional do capitalismo ianque. Em defesa deste regime, repudiado vigorosamente pelo sentimento público, as tropas americanas interviram então, como fazem agora, apenas pela estabilidade parecer seriamente ameaçada. Os Estados Unidos obtiveram do governo de Díaz o tratado que queriam.
 

O chanceler que assinou este tratado, Chamorro, herdou o poder. Os interesses norte-americanos na Nicarágua permaneceram salvos durante alguns anos. Mas, o sentimento popular, em continuo crescimento, acabou jogando para fora este agente do imperialismo ianque. Desde então, os Estados Unidos, o melhor dizendo seu governo, sentiu a necessidade de intervir novamente na Nicarágua. O presidente que agora tratam de impor a este povo pelos canhões norte-americanos, é Adolfo Díaz. O vice-presidente legal, Sacasa, por renúncia do presidente, representa a Constituição e o voto da Nicarágua.

 

É muito fácil a imprensa americana apresentar os povos da América Central numa perpétua agitação revolucionária. Difícil é com certeza, esconder do mundo a participação principal dos ianques nesta revoltosa agitação. Os Estados Unidos têm interesse em manter a América Central dividida e em constante conflito. A necessária confederação das pequenas repúblicas centro-americanas encontra na América do Norte seus maiores inimigos. Quando faziam seis anos da tentativa de se organizar esta confederação, as maquinações ianques se encarregaram de frustra-la. Na Nicarágua, onde o governo estava então enfeudado à política ianque, constituiu-se o eixo e o lar da manobra imperialista contra a livre união dos estados centro-americanos.

 

Nestes momentos, a acentuação do expansionismo norte-americano é perfeitamente lógica. A Europa, presentemente se encontra num período de “estabilização capitalista”, portanto, reorganiza seu minado império na África, Ásia, etc. Do outro lado, os Estados Unidos são impulsionados para a afirmação de seu predomínio dos mercados, das vias de tráfico e os centros de matérias primas, por seu natural impulso de desenvolvimento industrial e financeiro. Se o capitalismo norte-americano não conseguir acrescentar seus domínios, entrará irremissivelmente num período de crise. Os Estados Unidos já sofrem as consequências de seu aumento excessivo de ouro e se sua superprodução agrícola e industrial. Seus bancos e suas industrias necessitam imperiosamente assegurar maiores mercados. O despertar da China, que depois de tantos anos de colapso moral, reage resolutamente contra o domínio estrangeiro, coloca em perigo um campo dos quais o imperialismo ianque luta para desalojar gradualmente o imperialismo britânico e o imperialismo japonês. Os Estados Unidos necessitam mais do que nunca, voltar-se em direção ao continente Americano, onde a guerra tem lhe consentido desterrar em parte, a antes onipotente influência da Inglaterra.

 

Estas razões impedem à opinião latino-americana de considerar o conflito da Nicarágua como um conflito ao qual são estranhos seus interesses. A solidariedade com a Nicarágua, representada e defendida pelo governo constitucional de Sacasa, é manifestada por isso, sem reservas.
 

E a partir do julgamento continental, mais do que dos excessos do imperialismo ianque, são condenadas as traições dos caciques centro-americanos que se colocam a serviço do imperialismo.

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Traduzido por L. H.

 

Publicado em Variedades: Lima, 22 de janeiro de 1927

Please reload

Leia também...

"Necessidade contínua da Revolução Cultural"

18/11/2019

Mao: "À Memória de Norman Bethune"

15/11/2019

Stalin: "A Greve Geral Iminente"

14/11/2019

"O papel das mulheres na defesa de Stalingrado"

13/11/2019

1/3
Please reload

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube