Martí: "A verdade sobre os Estados Unidos"

27/03/2019

 

Qualquer que seja a causa, -impaciência da liberdade ou medo dela, preguiça moral ou aristocracia risível, idealismo político ou ingenuidade recém-chegada–, é certo que convém e se faz urgente, colocar adiante de nossa América toda a verdade americana.

 

É preciso que se conheça em nossa América a verdade dos Estados Unidos. Não devemos exagerar sobre sua falta de propósitos pelo desejo de negar-lhes toda a virtude, muito menos ocultar seus defeitos ou proclama-los como virtudes. Não existem raças: não existe mais do que diversas modificações do homem, nos detalhes de hábitos e formas que não transformam o que é idêntico e essencial, segundo as condições do clima e da história em que vivem. É de homens de prólogo e de superfície –que não afundaram seus braços nas entranhas humanas, que não veem da altura imparcial fervendo no mesmo forno as nações, que no ovo e no tecido de todos eles não encontram o mesmo duelo do desinteresse construtor e o ódio iníquo–, o entretenimento de encontrar uma variedade substancial entre o egoísta saxão e o egoísta latino, o saxão generoso e o latino generoso, o latino burocrata e o burocrata saxão: os latinos e os saxões tem a mesma capacidade de virtudes e defeitos. O que varia é a consequência peculiar do distinto agrupamento histórico (...).

 

É de suposta ignorância, de leveza infantil e punível, falar dos Estados Unidos e das conquistas reais ou aparentes de uma comarca suja, ou de um grupo delas, como de uma nação total e igual, de liberdade unânime e de conquistas definitivas: semelhantes Estados Unidos são uma ilusão, ou um truque. Dos antros de Dakota, e da nação que por ali se ergue, barbara e viril, existe todo um mundo às cidades do Leste, alastradas, privilegiadas, enredadas, sensuais, injustas. Há um mundo, com suas casas de alvenaria e imponente liberdade, do Norte de Schenectady à miserável e sombria estação do Sul de Petersburg, do limpo e interessado povo do Norte, à loja de ociosos, sentados no coro de barris, dos povos coléricos, pobres, descascados, azedos, cinzas, do Sul. O que o homem honrado deve observar é precisamente que, não só não foram capazes de agregar em três séculos de vida comum, ou de uma ocupação política, os elementos de origens e tendências diversas com os quais foram criados os Estados Unidos, mas, que a comunidade força, exacerba e acentua suas diferencias primárias, convertendo a federação não natural num estado duro, áspero, de conquistas violentas. É de gente menor, da inveja incapaz e roedora, que a picada aponta para patente grandeza, e negá-la na rodada, por um ou outro lunar, inclinando-se de juramento, como quem tira um grão de seu lugar ao sol. Não se prognostica, mas, certifica-se o que observa como nos Estados Unidos, em vez de apertar as causas de união, se afrouxam; ao invés de resolver os problemas da humanidade, os reproduzem; ao invés de amalgamar-se na política nacional as localidades, as dividem e atacam; ao invés de robustecer a democracia e salva-la do ódio e da miséria das monarquias, se corrompe e diminui a democracia, renascem, ameaçadoramente, o ódio e a miséria. Não cumpre com seu dever que se cala, mas, quem diz. Nem cumprem com o dever do homem, de conhecer a verdade e reparti-la; nem com o dever de bom americano, que só vê assegurada a glória e a paz do continente no desenvolvimento franco e livre de suas entidades naturais; nem com seu dever de filho de nossa América, para que por ignorância, deslumbramento ou impaciência, não caiam os povos da casta espanhola, ao conselho da toga escrupulosa e o interesse assustador, na servidão imoral e enervante de uma civilização danificada e alienígena. É preciso que se conheça em nossa América a verdade dos Estados Unidos.

 

O mal deve ser aborrecido, ainda que seja nosso; e ainda quando não seja. O bom não deve ser odiado só porque não é nosso. Mas, é aspiração irracional e nula, aspiração covarde de gente de segunda e ineficaz, há de chegar a firmeza de um povo estranho por vias distintas das que levaram a segurança e a ordem ao povo invejado: -pelo esforço próprio e pela adaptação da liberdade humana às formas requeridas pela constituição peculiar do país. Em alguns é o excessivo amor ao Norte, a expressão explicável e imprudente, de um desejo de progresso tão vivaz e fogoso que não vê que as ideias, como arvores, devem vir de uma longa raiz, ter um solo compatível, para que prendam e prosperem, que ao recém-nascido não é dado a fertilidade da maturidade porque os bigode e costeletas da velhice pairam sobre o rosto macio: os monstros são criados assim e não os povos: é preciso viver sozinho e suar a febre. Em outros, a ianquemania é um fruto inocente de um ou outro pequeno salto de prazer, como quem julga das entranhas de uma casa e das almas que nela oram ou morrem, pelo sorriso e luxo da sala de recepção, ou pela champagne e o cravo da mesa do jantar: -cuide-se; acredite-se; trabalhe-se; ame-se, em vão; estude, com o valor e a liberdade de si; veja com os pobres; chore com os miseráveis; odeie a brutalidade da riqueza; viva no palácio e na cidadela, no salão da escola e nos saguões, no palco do teatro, de jaspe e de ouro, nos bastidores frios e desnudos: assim poderá opinar, com indícios de razão, sobre a república autoritária e gananciosa, e a sensualidade crescente, dos Estados Unidos.

 

Em outros, analfabetos póstumos do dandismo literário do Segundo Império, ou céticos postiços, que sob a máscara de indiferença normalmente bate um coração de ouro, a moda serve para desdenhar do nativo; e não lhes parece que exista elegância maior, do que beber e imitar do estrangeiro, as calças e as ideias, ir pelo mundo em pé, como o colo acariciava o pompom da cauda. Em outros é como sutil aristocracia, com a que, amando em público o loiro como próprio e natural, tentam encobrir a origem que têm, de mestiço e humilde, sem ver que foi sempre entre homens com características de bastardia, pelo andar rotulado destes pelos demais, e não existe denúncia mais segura do pecado de uma mulher que o alardear de desprezo as pecadoras. Seja qualquer que for a causa, -impaciência da liberdade ou medo dela, preguiça moral ou aristocracia risível, idealismo político ou ingenuidade recém-chegada-, é certo que convém e se faz urgente, colocar adiante de nossa América toda a verdade americana, do saxão como do latino, de modo que a fé excessiva da virtude dos outros não nos enfraqueça, em nosso período de fundação, com a desmotivada e desanimada desconfiança própria. Em uma única guerra, na de Secessão, que foi mais para disputar entre o Norte e o Sul o predomínio da república do que para abolir a escravidão, os Estados Unidos perderam, filhos da prática republicana de três séculos num país de elementos menos hostis que outros, mais homens do que aqueles que em igual tempo e com igual número de habitantes, perderam juntos todas as repúblicas espanholas da América, no trabalho naturalmente lento, e do México ao Chile, vencedores, para colocar a flor do novo mundo, sem mais impulso que o apostolado retórico de uma gloriosa minoria e o instinto popular, os povos remotos, de núcleos distantes e de raças adversas, onde o comando da Espanha deixou toda a raiva e hipocrisia da teocracia, e a apatia e desconfiança de uma servidão prolongada. É de justiça, de ciência social legítima, reconhecer que em relação com as facilidades de um e os obstáculos o outro, o caráter norte-americano tem diminuído desde a independência, é hoje menos humano e viril, enquanto que o hispano-americano, a todas as luzes, é hoje superior, apesar de suas confusões e fadigas, ao que era quando começou a surgir da massa revoltada de funcionários do clero, imperitos ideólogos e ignorantes ou silvestres índios.

 

Para ajudar ao conhecimento da realidade política da América e acompanhar ou corrigir, com a força serena do fato, o louvor inconsciente, -e, no excessivo, pernicioso- da vida política e do caráter norte-americano, o Pátria, inaugura no dia de hoje, uma seção permanente de “Contribuições sobre os Estados Unidos”, onde, estritamente traduzidos dos primeiros jornais do país e sem comentários nem mudanças da redação, se publiquem aqueles sucessos aonde se revelam, não o crime ou a falta acidental -em todos os povos possíveis – em que somente o espírito mesquinho encontra a isca da felicidade, mas, naquelas qualidades de constituição que, por sua constância e autoridade, demonstram as duas verdades úteis de nossa América: -o caráter bruto, desigual e decadente dos Estados Unidos- e a existência contínua neles, de todas as violências, discórdias, imoralidades e desordens de que se acusa aos povos hispano-americanos.

 

Publicado no Pátria, 23 de março de 1894

 

Escrito por José Martí

 

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