Ladrões e marginais depenando a soberania nacional

21/03/2019

 

 

Pedimos nossas sinceras desculpas à “esquerda” aristocrática, “democrática”, que desejou “sorte” ao governo Bolsonaro desde sua eleição no segundo turno em 28 de outubro do ano passado, que o reconheceu como “legítimo” por ter “recebido o voto do povo”, e que esperava que o mesmo conduzisse um “governo democrático” que “desenvolvesse o Brasil”. Em parte, nossas palavras aqui se dirigem não só aos verdadeiros democratas e patriotas, mas também a vocês.

 

Bolsonaro e sua turma são um bando de milicianos em um governo ilegítimo, SIM, eleitos por uma fraude eleitoral à qual tal “esquerda” defendeu uma suposta “legitimidade”, inclusive com comentários de ditos especialistas dizendo que as eleições jamais poderiam ser fraudadas em razão da sofisticação tecnológica das urnas. Porém, a quatro meses de sua eleição, Bolsonaro, como todos já sabíamos, escancara sobre a que veio. Não é um verdadeiro presidente, mas um boneco a serviço das forças do imperialismo estrangeiro para conduzir um genocídio contra o povo brasileiro e os povos latino-americanos e entregar nosso país e continente às pretensões do colonialismo de velho tipo.

 

Bolsonaro, Mourão e demais asseclas, além disso, já se esforçam para chegar ao mesmo nível da Colômbia no que tange ao papel ainda maior de peão na guerra de agressão contra a Venezuela que se está gestando.

 

Com um tipo desse, não podemos ter um pingo sequer de “respeitabilidade” por ser “presidente da nação”. Não devemos trata-lo como líder do país, mas tão somente como um ladrãozinho marginal, medíocre e vende-pátria. Os fatos já o confirmam, como no caso de seu envolvimento com milícias do Rio de Janeiro e com os bandidos que executaram no ano passado a vereadora Marielle Franco.

 

Porém, forneçamos alguns poucos exemplos sobre como Bolsonaro, Mourão e a turma de fascistas nos entornos tem depenado a soberania nacional, para que tenhamos uma mínima ideia do que de fato vem ocorrendo no Brasil e na América Latina.

 

Entregando o Brasil à aventura imperialista de guerra e pilhagem contra a Venezuela e outros povos

 

Em setembro do ano passado, Bolsonaro e sua turma, a nível local e nacional, incitaram e propagandearam o vergonhoso linchamento de massa em Pacaraima, Roraima, cometido por fascistas locais contra imigrantes venezuelanos – inclusive mulheres, crianças e velhos, incendiando inclusive pertences pessoais destas pessoas –, insuflando no Brasil as piores práticas chauvinistas importadas do fascismo norte-americano e europeu, o discurso de ódio fascista de Trump. Ademais, Bolsonaro jamais escondeu suas pretensões de submeter o Brasil aos intentos guerristas do colonialismo norte-americano contra a Venezuela. Numa manifestação organizada em São Paulo, na Avenida Paulista, durante sua campanha eleitoral, falou abertamente em “tirar Maduro de lá”.

 

Após ser eleito em 28 de outubro do ano passado, pelo menos nisto cumprira suas promessas, inundando nosso país de conselheiros e analistas norte-americanos, e enviando quadros do governo brasileiro para os Estados Unidos para melhor se alinharem aos intentos imperialistas em Washington. Tudo isso é o prosseguimento do entreguismo que já vinha se aprofundando desde o golpe de Estado de 2016 com a ascensão de Michel Temer, que “convidou” tropas norte-americanas e dos países satélites para fazerem exercícios militares na fronteira do Brasil com a Venezuela.

 

Em fevereiro deste ano, quando ao mais extravagante e ridículo estilo medieval de “O Estado sou eu”, o fantoche fabricado no exterior Juan Guaidó se “autonomeou” o suposto “presidente interino” da Venezuela, o Brasil de Bolsonaro foi logo em seguida aos Estados Unidos para reconhece-lo como “legítimo” presidente da Venezuela, criando até mesmo distensões diplomáticas ao trazer para a embaixada de Brasília “diplomatas” venezuelanos alinhados politicamente a Guaidó, ao golpismo e ao imperialismo norte-americano. Na esteira da submissão “diplomática” ao imperialismo ianque na agressão à Venezuela, o exército reacionário brasileiro cumpriu também seu “papelão” no último dia 23 de fevereiro na farsa da “ajuda humanitária” de provocações nas fronteiras da Venezuela com o Brasil, fornecendo como “ajuda” humanitária apenas duas caminhonetes com biscoitos e enlatados para uma população de... 35 milhões de pessoas. Os Estados Unidos enviaram, por sua vez, duas carretas. Tamanha “ajuda humanitária” não deve alimentar sequer uma rua de uma periferia de São Paulo, quanto mais uma população de 35 milhões. Porém, dado que quase um mês após a farsa da “intervenção humanitária” não deu certo, o imperialismo norte-americano procurará outros meios e seguirá contando com o apoio de Bolsonaro e sua trupe.

 

O capachismo se escancarou mais nos últimos dias. Na sua visita aos Estados Unidos para se encontrar com Trump, Bolsonaro assinou nesse verdadeiro ninho de urubus a entrega da Base de Alcântara, no Maranhão, para a utilização por parte das forças militares norte-americanas com fins bélicos e de agressão. Faz parte da “luta” para “reestabelecer a democracia na Venezuela” e “acabar com a tirania de Maduro”, nas palavras do próprio fantoche Bolsonaro. É um cuspe na cara de cada brasileiro honesto e patriota. Uma base militar estrangeira encravada estrategicamente em território brasileiro, com fácil acesso ao litoral e às regiões Norte e Nordeste do país, agora para bombardear e agredir um povo irmão. Tal assinatura deste “compromisso” desigual e de submissão é ainda mais odiento se levamos em conta a ampla quantidade de documentos existentes (inclusive por parte do Wikileaks) que comprovam as diferentes manobras do imperialismo norte-americano para sabotar o uso da base espacial de Alcântara com fins nacionais, comprovando até mesmo o dedo norte-americano no acidente da base de Alcântara de 2003, cuja explosão matou 21 cientistas brasileiros.

 

A entrega da base de Alcântara para o imperialismo não possui, contudo, um caráter puramente militar, mas também econômico e político. Trata-se de uma situação na qual o imperialismo norte-americano está galgando posições em nosso país e na América Latina, inclusive no que tange ao controle de fontes de matérias-primas. Quem duvida que a declaração aberta de Alcântara como base militar americana para a agressão da Venezuela não será acompanhada de expedições de cientistas, técnicos e ONGs do imperialismo para fazer incursões para comprar terras próximas a possíveis fontes de matérias-primas que sejam de interesse de empresas industriais americanas, generalizando ainda mais a grilagem contra as comunidades camponesas e quilombolas locais? Aliás, a entrega da Base de Alcântara para os americanos é a verdadeira desgraça e morte para os quilombolas e camponeses desta região. O site Repórter Brasil [1] já fizera uma excelente reportagem mostrando como o uso da Base de Alcântara já provocara o deslocamento forçado de comunidades rurais, inclusive tirando delas seus meios de subsistências tradicionais, reduzindo-as à miséria e à fome. Mesmo o mais ingênuo é capaz de enxergar como o aumento da circulação de norte-americanos no local, com grande poder aquisitivo, que aqui vêm se instalar com suas famílias, têm como consequência o aumento nos preços dos terrenos, e como nova consequência, a especulação fundiária, a grilagem, e o maior massacre sobre as populações rurais por parte de fazendeiros, políticos e espertalhões das proximidades.

 

Sabemos pela experiência mundial sobre como a instalação de bases militares norte-americanas em praticamente todas as partes do mundo são acompanhadas de todo tipo de desgraças para as populações que vivem nos entornos das mesmas, dada a corriqueira prática colonial de marines ianques de tratarem os nativos como pessoas de segunda classe. Em Cuba, no início da década de 1950, observamos como a presença de tropas militares norte-americanas fora acompanhada de estupros e abusos sexuais e morais contra mulheres e moças, da abertura de prostíbulos e locais de venda de drogas e bebidas. Um caso da época ganhou grande repercussão, quando marines americanos profanaram a estátua de José Marti, depredando-a e urinando sobre ela, causando profunda revolta ao povo cubano. Na Coreia do sul, diversos estratos democráticos e patrióticos já observaram como a presença de bases militares norte-americanas no país e nos locais onde se localizam são também acompanhadas de agressões contra mulheres, florescimento da prostituição e demais decadências sociais. Ora, já é também de conhecimento mesmo do mais ingênuo sobre como as faraônicas obras de infraestrutura que passam nos entornos ou mesmo dentro de aldeias e comunidades tradicionais (não seria o caso da Usina Hidroelétrica de Jirau em Rondônia ou da expansão das grandes plantações capitalistas no sul do Mato Grosso do Sul, a título de exemplo?) fazem explodir a desnutrição, obesidade, alcoolismo e prostituição das moças indígenas e quilombolas. E o que dirá agora, com a presença de colonialistas estrangeiros?

 

Poderíamos ficar aqui por linhas e linhas citando todas as desgraças que trazem para nosso país o ingresso na agressão imperialista contra a Venezuela. Porém, o mais importante disso é entendermos como a participação do Brasil nesta aventura agressora é uma expressão de submissão e capachismo, sem quaisquer interesses internos envolvidos, fora talvez daquele seleto grupo de burocratas e grandes capitalistas (dentro os quais Bolsonaro está envolvido) que tentarão “tirar o seu” com a guerra.

 

Só quem ganha com a guerra são os grandes conglomerados capitalistas dos Estados Unidos e Israel, que utilizarão não apenas o Brasil como também os países fantoches do entorno para terceirizar uma guerra de agressão contra a Venezuela, recebendo um lucrativo mercado para seus excedentes não apenas bélicos como também de diversas outras mercadorias.

 

Nosso povo, contudo, nada tem a ganhar, mas tudo a perder com esta guerra. A classe operária, os camponeses, os pobres, certamente terão seus filhos que atualmente vegetam no desemprego e na miséria para servirem como bucha de canhão para os bilionários de Washington e Tel Aviv, para encher de bilhões de dólares o rabo daqueles que já são os maiores bilionários do mundo, os senhores da guerra. E não, a guerra não trará empregos! Nada disso! Ao contrário, o Estado brasileiro, em pandarecos, sem capacidade de pagar sequer suas próprias contas (o déficit público alcança quase 140 bilhões de reais, se levamos em conta o déficit nominal, isto é, a diferença somada aos pagamentos dos juros e amortizações da dívida, o “buraco” ultrapassa 500 bilhões de reais), contrairá novos empréstimos e não terá outro caminho que o de fornecer suas empresas estatais, terras e matérias-primas como garantia para as bilionárias encomendas de guerra do exterior. Fora uma meia dúzia de empresas belicistas locais que possam entrar no jogo, o grosso das encomendas virá dos Estados Unidos, Israel e outros países do imperialismo. O chicote no lombo do proletariado, camponeses e pobres urbanos virá em forma de novas “reformas”, privatizações, inflação, impostos diretos, mas principalmente indiretos, fora o ônus de terem que ver seus irmãos e semelhantes morrerem numa guerra de agressão.

 

Também a classe média nada tem a ganhar, mas tudo a perder com uma guerra de agressão. Já agrilhoada por um sem número de impostos para sustentar um punhado de oligarcas e uma máquina burocrática podre e ineficiente, a classe média (mesmo seus setores mais abastados) irá se ver ainda mais depenada pelos impostos necessários para sustentar a guerra de agressão contra a Venezuela. Além disso, as leis locais preveem o confisco de poupanças de nossos compatriotas no caso de guerra declara. Se o povão, por via de regra, não poupa em razão da miséria e dos baixos salários, um confisco de poupanças afetaria principalmente a classe média. Tal raciocínio se aplica também para a burguesia nacional (média burguesia) que nada tem a ganhar com esta guerra, e se pensam o contrário, iludem-se lamentavelmente.

 

Para além da questão puramente da agressão contra a Venezuela, Trump parece ter dito na última reunião com o mandatário “brasileiro” sobre sua vontade de contar com o Brasil como “grande aliado” dos Estados Unidos na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), estes verdadeiros gendarmes e verdugos dos povos. Prosseguindo na agressão contra a Venezuela e caso realmente prossiga no capachismo a Trump para enfiar nosso país na OTAN, Bolsonaro entrará para a História de nosso país e do mundo como um dos maiores traidores e vende-pátria, posição esta que ostentará ao lado de figuras execráveis como Chiang Kai Shek, Pinochet, Somoza e Suharto.

 

A postura agressora do Brasil para com a Venezuela e outros países, seguindo os ditames de Washington, é uma amostra de como estes ladrões e marginais da trupe de Bolsonaro têm depenado a soberania nacional.

 

Isenção de vistos sem contrapartida

 

Outra amostra mais recente de submissão do regime de Bolsonaro e seu grupo de ladrões ao imperialismo norte-americano foi a isenção unilateral de vistos de turistas para cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão. Acaso isso poderia ser visto como uma postura de fortalecimento do laço entre os povos, cooperação multilateral? Vejamos bem. Bolsonaro impõe a política de “abertura” para turistas destes quatro países imperialistas, num momento em que o que se encontra em moda em todos estes países citados é a política de “construção de muros”, ódio racial e nacional contra imigrantes advindos de povos do Terceiro Mundo, e os brasileiros se incluem nestes. O Brasil (ou melhor, não o Brasil, mas sua elite de capachos ao estrangeiro que Bolsonaro representa) abre suas pernas para os turistas numa época em que brasileiros são vítimas de discriminação racial e nacional nos Estados Unidos e também no Japão. Como aceitar ato tão odioso numa época em que nossos brasileiros compatriotas são taxados de vagabundos e nossas brasileiras compatriotas são taxadas de putas? Qualquer observação superficial dará conta de ver que nas fábricas e empresas japonesas, por exemplo, os brasileiros e brasileiras são tratados como lixo, mão de obra barata, cidadãos e cidadãs de segunda classe, submetidos a jornadas de trabalho excessivas de 12 a 14 horas por dia.

 

Aliás, Bolsonaro não parece estar tão incomodado com isso. Não foi seu próprio filho, num ato de ódio contra o próprio país (e ainda atribuindo a si mesmos a alcunha de “patriotas”!), falou que os brasileiros imigrantes sem documentação são uma “vergonha” aos olhos do exterior?

 

O Brasil não merece uma trupe de escravos e lambe botas dos gringos como dirigentes do país.

 

Submissão ao sionismo israelense e profanação contra os povos árabes

 

O regime de Bolsonaro é apoiador do genocídio de povos inteiros e com o colonialismo. Recentemente, no último ano, completaram-se 70 anos do Nakba (Catástrofe), quando a Entidade Sionista (“Israel”), apoiada e bancada pelo imperialismo norte-americano e entidades sionistas do mundo inteiro, iniciou sua grilagem e ocupação sobre o território da Palestina, convertendo toda a Palestina em colônia sua. Sem sequer ser requisitado, o regime Bolsonaro parece agora querer enfiar o Brasil numa agressão do outro lado do mundo, que nada tem a ver conosco – fora nosso compromisso sagrado de condenar Israel e solidarizarmo-nos com o povo palestino –, ao declarar que irá transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo como território da artificial Entidade Sionista aquele que sempre fora, por direito, um território da Palestina, onde por milênios conviveram pacificamente árabes, cristãos e judeus.

 

A tal política externa “técnica”, “não-ideológica” e “pragmática”, pelo desrespeito sem tamanho que representa não só ao povo palestino como aos demais povos árabes já levou até mesmo a retaliações comerciais, como no caso da Arábia Saudita, que bloqueou a importação de mais de 500 milhões de dólares em carne de frango no início de 2019, levando dezenas de frigoríficos a operarem bem abaixo de sua capacidade.

 

Não podemos, contudo, como alguns da dita “esquerda” vêm fazendo, ter quaisquer ilusões que os setores da burguesia nacional ligados à produção dos frigoríficos venham a ter, em razão disto, qualquer posicionamento “anti-imperialista” ou contra Israel. Ou melhor, é possível que a média burguesia brasileira, ainda ligada aos frigoríficos, possa vir a se queixar das quedas nos lucros em razão do bloqueio nos mercados. Porém, a grande burguesia burocrática, abastada, também ligada à produção dos frigoríficos, não tenderá a se queixar, pois tem ao seu lado o velho Estado reacionário brasileiro para jogar suas perdas comerciais no exterior sobre as costas do povo brasileiro sob a forma de indenizações, renegociação de dívidas, etc., tudo sob o pretexto dogmático de manutenção dos saldos na balança comercial do Brasil com o resto do mundo. Tanto a grande burguesia como a média burguesia, porém, já estão lançando o ônus mais imediato das perdas comerciais sobre seus operários, deflagrando demissões, reduzindo turnos para impor perdas salariais, etc. Impõem o ônus também sobre as famílias camponesas especializadas na avicultura, pilhando-as por meio do atravessamento e impondo preços ainda menores diante dos já estruturalmente baixos preços sobre a cabeça do frango em virtude do monopólio comercial de empresas como Sadia, Aurora e outras.

 

A submissão de Jair Bolsonaro e sua trupe ao sionismo israelense é particularmente sentida nas perdas materiais do povo mais pobre, do proletariado.

 

Imperialismo, dumping agrícola e escravização econômica

 

A dominação do imperialismo norte-americano (e ocidental, de forma geral) sobre o Brasil não diferente daquele que exerce sobre outros países semicoloniais. Busca, tal como em outros países, manter nosso país não apenas como mercado para seus excedentes de mercadorias, mas principalmente para seus excedentes de capitais (aliás, tal é o traço que prepondera do capitalismo imperialista sobre o capitalismo pré-imperialista de até fins do século XIX) [2]. Além disso, busca se apoderar das empresas industriais e comerciais, plantações e demais fontes de matérias-primas, para assim poder negar a seus concorrentes o fornecimento de produtos agrícolas e matérias-primas, dificultando o aparecimento de novas empresas concorrentes no mercado mundial. Neste sentido, o imperialismo sempre age no sentido de entravar o desenvolvimento da industrialização capitalista nos países semicoloniais, ou mantendo nestes apenas aquelas indústrias necessárias para a dominação do país semicolonial, como o extrativismo, agroindústria, maquiladoras, etc.

 

É muito comum a noção errada, porém, de que ao apoderar-se dos mercados dos países semicoloniais, o imperialismo almeja tão somente desaguar seus excedentes de bens finais e estimulando o desenvolvimento da agricultura. Ledo engano. Principalmente no caso dos Estados Unidos, um país que teve a peculiaridade de desenvolver-se até a etapa do capitalismo imperialista utilizando a agricultura como grande motor do desenvolvimento, aquela sempre esteve sob a constante ameaça de crises agrárias diante de qualquer miragem de impossibilidade de vender a produção agrícola. Portanto, o imperialismo (principalmente norte-americano) manifesta com relação aos países semicoloniais o intento de inundá-los não só com produtos manufaturados, mas também com seus excedentes agrícolas. Assim, obstrui não apenas a industrialização capitalista destes países, como até mesmo a diversificação da agricultura, condicionando-os a se especializarem em apenas uma ou algumas culturas aceitas nos mercados. Assim, o desenvolvimento da agricultura que o imperialismo de fato estimula nos países semicoloniais é bastante unilateral, entregando-os ao completo arbítrio dos conglomerados comerciais controlados pelo imperialismo.

 

Como se manifesta tal quadro teórico no Brasil? O desenvolvimento da agricultura de exportação é estimulado como forma de compensar o estrutural déficit comercial que o Brasil possui (cerca de 100 bilhões de dólares) com produtos manufaturados, em decorrência da desindustrialização. Porém, há um óbvio desinteresse por parte das classes dominantes locais em estimular aquele setor da agricultura de fato responsável pelo abastecimento interno do país, para a produção de alimentos para a população e matérias-primas para a indústria nacional, mais ligado aos camponeses e os setores menos abastados da burguesia rural.

 

Neste sentido, o bandido Bolsonaro e seus asseclas vieram à tona para aprofundar tal situação. Vejamos o caso do leite, por exemplo. Trata-se de uma produção conduzida, no âmbito rural, basicamente por camponeses médios, proprietários da própria terra (ou em alguns casos, arrendatários sem-terra). Em virtude de uma série de fatores – dentre eles, o alto custo dos empréstimos e meios de produção, acesso precário aos mercados em virtude da enorme dispersão dos produtores diretos e certa concentração do processo de industrialização entre os laticínios – tais camponeses médios vivem sempre endividados, à beira da ruína e da proletarização ou semi-proletarização. Muitas vezes o preço final do leite pago aos camponeses não é suficiente sequer para o pagamento dos meios de produção. Como forma de reduzir ainda mais os preços pagos aos camponeses, os atravessadores e laticínios, com apoio das agências do Estado reacionário, impõe uma série de “restrições fitossanitárias” ao leite do camponês, como limitação do nível de gordura do leite, dentre outras. Ainda diante de tal situação, o governo Bolsonaro cometeu nos últimos dias o crime de derrubar as tarifas de importação do leite da União Europeia, medida esta que a longo e médio prazo terminará por reduzir ao pauperismo e tirar do mercado local as famílias camponesas envolvidas na cadeia produtiva do leite. Afinal, os camponeses europeus não se encontram – ao contrário dos camponeses brasileiros – agrilhoados por abusivas exigências fitossanitárias, taxas de juros abusivas, meios de produção cujos preços encontram-se atrelados à cotação do dólar, etc., o que faz com que o camponês europeu, a despeito da grande distância da qual se encontra do mercado brasileiro, consiga vender seu leite por um preço muito inferior ao do brasileiro.

 

Os camponeses médios de Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Sul protestaram contra a medida pró-imperialista, produzindo inclusive vídeos que circularam muito nas redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas como WhatsApp e Telegram. Ainda que os laticínios também tenham protestado contra a medida, também compensarão suas perdas através da demissão em massa e do aumento da exploração dos operários e camponeses.

 

Na recente reunião do boneco Bolsonaro com Trump, também foram feitas “negociações” em torno de produtos agrícolas. O regime fascista de Bolsonaro se propôs a importar dos Estados Unidos, permanentemente, uma cota anual de 750 mil toneladas de trigo (mais de 10% do montante anual de 7 milhões de toneladas anuais de trigo importadas pelo Brasil) completamente livres de tarifas protecionistas, o que acabará por pressionar para baixo os preços internos do grão e arruinar os capitalistas agrários e camponeses ricos brasileiros, cuja produção se encontra numa situação muito semelhante à dos camponeses médios envolvidos na produção leiteira (ainda que estes sejam, de fato, muito mais pobres que os plantadores de trigo ou capitalistas também envolvidos com a plantação do grão). Todavia, dado que o Brasil é um importador líquido de trigo, comprando do exterior a grande maior parte do trigo que consome em virtude das precárias condições nas quais se desenvolve a agricultura triticultora brasileira, serão os camponeses ricos e capitalistas agrários argentinos os principais afetados, pois são estes quem abastecem mais de 80% das importações de trigo do Brasil. A medida imposta por Trump e aceita por Bolsonaro não será ruim apenas para o Brasil, mas também poderá em grande parte prejudicar as exportações argentinas.

 

Ademais, saindo do âmbito da agricultura e entrando na questão da indústria, o entreguismo de Bolsonaro se sobressai ainda mais, e tem mantido e aprofundado a tendência do anterior regime golpista de Temer de “fechar as portas” para todos os caminhos possíveis que podem apontar para uma verdadeira industrialização da sociedade brasileira, ainda que uma industrialização sob condições capitalistas (no sentido de superação da atual condição semicolonial e semifeudal da sociedade brasileira). Pois bem, Bolsonaro seguiu na concretização do programa de desnacionalização e desindustrialização quando concluiu a entrega da Embraer para a transnacional americana Boeing sob o disfarce de “fusão”. Neste sentido, Bolsonaro age em favor das tendências do imperialismo norte-americano à monopolização, jogando para escanteio no mercado mundial a única empresa de aviação do Terceiro Mundo que possuía condições reais de competir consigo.

 

 

 

NOTAS

 

[1] https://reporterbrasil.org.br/2017/12/alcantara-o-custo-do-centro-espacial-para-as-comunidades-quilombolas/

 

[2] Os Estados Unidos sempre estiveram no primeiro lugar como maior exportador de capitais para o Brasil, tendo apenas bem recentemente perdido tal posto para a China, situando-se atualmente como segundo maior exportador de capitais para o Brasil. Não poderíamos projetar corretamente tais manobras dos Estados Unidos como tentativa de recuperar tal posto (e outros também, por que não?) no Brasil e em outros países latino-americanos que passaram por semelhante processo?

 

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