Camilo Torres: "Mensagem aos cristãos"

19/03/2019

 

As convulsões produzidas nos últimos tempos pelos acontecimentos políticos, religiosos e sociais, possivelmente fez surgir muita confusão entre os cristãos da Colômbia. Neste momento decisivo de nossa história, é necessário que nos cristãos, estejamos firmes ao redor das bases essenciais de nossa religião.

 

O principal no Catolicismo é o amor ao próximo. “O que ama a seu próximo cumpre com sua lei”. (S. Paulo, Rom. XIII,8). Este amor, para que seja verdadeiro, tem que buscar a eficácia. Se a benevolência, a esmola, as poucas escolas gratuitas, os poucos planos habitacionais, o que tem sido chamado de "caridade", não é o suficiente para alimentar os famintos, nem vestir a maioria dos desnudos, nem ensinar a maioria daqueles que não sabem, temos que encontrar meios eficazes para o bem-estar das maiorias.

 

Estes meios não vão ser buscados pelas minorias privilegiadas que tem o poder, pois geralmente, estes meios eficazes obrigam as minorias a sacrificar seus privilégios. Por exemplo, para conseguir que haja mais trabalho na Colômbia, seria melhor que que os capitais não fossem retirados do país na forma de dólares e que fossem melhor revertidos em fontes de trabalho no nosso país. Mas, como o peso colombiano desvaloriza-se todos os dias, os que têm o dinheiro e têm o poder, nunca vão proibir a exportação de dinheiro, porque o exportando, se livram da desvalorização.

 

Então é necessário tirar o poder das minorias privilegiadas para dá-lo as maiorias pobres. Fazer isto rapidamente é o essencial de uma revolução. A Revolução pode ser pacífica se as minorias não fizeram uma resistência violenta. A Revolução, portanto, é a forma de conseguir um governo que supra a necessidade de comer dos famintos, que vista os desnudos, que ensine aos que não sabem, que cumpra com as obras de caridade, de amor ao próximo, não somente de forma ocasional e transitória, não somente para uns poucos, mas, para a maioria de nossos próximos. Por isso a Revolução não somente é permitida como é obrigatória para os cristãos que veem nela a única maneira eficaz e ampla de realizar o amor para todos. É certo que “não existe autoridade a não ser da parte de Deus” (S. Paulo, Rom. XIII, 1). Mas, São Tomás disse que a atribuição concreta da autoridade quem faz é o povo.

 

Quando existe uma autoridade que é contra o povo, essa autoridade não é legitima e se chama tirania. Nós cristãos, podemos e devemos lutar contra a tirania. O governo atual é tirano porque não respaldo nem 20% dos eleitores e porque suas decisões advêm das minorias privilegiadas.

 

Os defeitos temporários da Igreja não devem nos escandalizar. A Igreja é humana. O importante é acreditar que também é divina e que se nós cristãos cumprimos com nossa obrigação de amor ao próximo, estamos fortalecendo a Igreja.

 

Eu deixei os direitos e o deveres do clero, mas, não deixei de ser sacerdote. Acredito que me entreguei a Revolução por amor ao próximo. Deixei de realizar a missa para realizar esse amor ao próximo, no terreno temporal, econômico e social. Quando meu próximo não tem nada contra mim, quando a Revolução já estiver sido realizada, voltarei a oferecer a missa, se Deus assim me permitir. Acredito que assim sigo o chamado de Cristo: “Se trazes tua oferenda ao altar e ali lembras que teu irmão tem algo contra ti, deixe ali tua oferenda, diante do altar e anda, reconcilia-te primeiro com teu irmão e então venha e apresente tua oferenda” (S. Mateus V, 23-24).

 

Depois da Revolução, nós os cristãos teremos a consciência de que estabelecemos um sistema que está orientado pelo amor ao próximo.

 

A luta é longa, comecemos já...

 

Primeira edição: Periódico Frente Unido, Bogotá - Colômbia, ano 1, no. 1, 26 de agosto de 1965, pág. 3.

 

Escrito por Camilo Torres

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