"O homem que iniciou a guerra"

18/03/2019

 

Na noite de 31 de agosto de 1939, Alemanha e França surpreenderam-se com a notícia de um ataque terrorista polaco a estação germana de Gleiwitz. Adolf Hitler se dirigia ao mundo, era o princípio da Segunda Guerra Mundial, o conflito que tirou a vida de mais de 50 milhões de pessoas.

 

As operações de falsa bandeira são descritas nas gírias militares como aquelas que fazem uma potência agressora parecer que ela é que está sendo agredida. Durante o julgamento de Nuremberg aos nazis, o oficial da Gestapo, Alfred Helmut Naujocks, reconheceu que a ação da emissora de rádio era parte de um plano fronteiriço de ataques de falsa bandeira, para justificar a invasão a Polônia.

 

O único alemão morto no assalto “polaco” era um preso político assassinado horas antes e colocado no lugar deliberadamente, Inglaterra e França, segundo os cálculos dos nazis, se deixariam levar pela ilusão, ao estilo da “defesa legítima da Alemanha contra o desafio da Polônia”.

 

De 1939 a 2019, datas diferentes e um similar objetivo

Os fatos de falsa bandeira, orquestrados na fronteira entre Venezuela e Colômbia, nos recordam aquele nefasto legado nazi. O que antes se apresentou como uma “defesa da soberania germana”, hoje é “ajuda humanitária” que o “regime” de Maduro não permite ultrapassar a fronteira. Ambas falsas bandeiras foram usadas como prelúdio para invasões sem legitimidade no marco do direito internacional vigente.

 

Dois caminhões de “ajuda” foram incendiados na zona fronteiriça, por pessoas mobilizadas com tal finalidade, do lado colombiano. A matriz midiática lançou então o título “Maduro, sem piedade”, com as imagens dos carros queimados. Os patriotas venezuelanos com o auxílio de drones, denunciaram o falso positivo: dois caminhões que – longe de transportar comida, alimentos, remédios – estavam cheios de correntes, pregos e artefatos incendiários.

 

Apostaram que a partir desta falsa bandeira, criariam três manchetes de opinião pelas mídias desinformativas: se os caminhões não entrassem no país, então se geraria uma manchete na qual Maduro não permite a entrada de ajudo para seu povo “oprimido”.

 

Se entrassem, então haveria um incidente violento (mediante os insumos guarimberos), que provocaria a reação da Força Armada Nacional Bolivariana, para assim rotula-la como uma força “repressora”.

 

Se não entrassem, então queimariam os carros (como fizeram) e culpariam ao governo de Maduro.

 

A outra operação de falsa bandeira incluiu os desertores da Força Armada Nacional Bolivariana, os quais raptaram dois blindados e os chocaram contra um grupo de pessoas, também com o objetivo de culpar a Venezuela pelos danos. O pagamento por deserção é de 20 mil dólares, neste caso, quase mataram uma jornalista chilena, mas, foram recebidos como heróis na Colômbia.

 

Esses guarimberos usaram a insígnia da Cruz Vermelha Internacional, ação que foi condenada por esta organização e pelas Nações Unidas. Neste mesmo dia de provocações na fronteira, chegou outro navio de guerra norte-americano nas proximidades da Venezuela, numa operação de cerco que já abarca vários efetivos militares de peso.

 

Simultaneamente, as contas de Twitter de Donald Trump, Mike Pence, Marco Rubio e Juan Guaidó (essa parece ser a cadeia de comando), mantinham-se “transmitindo” supostos detalhes sobre a “natureza repressiva” de Maduro. Não obstante, o que as próprias Nações Unidas chamaram uma ajuda humanitária politizada (que não era outra coisa que um golpe de Estado de falsa bandeira), não conseguir entrar no território venezuelano, fracassou.

 

Um tuite de impotência de Marco Rubio saiu horas depois, com a imagem do assassinato do líder líbio Muamar el Gadafi, talvez revelando seu real instinto e suas intensões com a Venezuela.

 

Guaidó e a “crise humanitária” como falsas bandeiras

Os danos a economia venezuelana por consequência das sanções norte-americanas desde 2013 já chegam a 345 milhões de dólares.

 

O centro da matriz de opinião defendida por Guaidó e Washington é que no país sul-americano existe uma inflação devido ao seu governo corrupto. Para reforçar, uma bolha de informação é gerada, sobre uma “crise humanitária” que levaria a uma intervenção militar.

 

O conceito de falsa bandeira também se aplica neste caso, já que segundo os estatutos das Nações Unidas, na Venezuela haveria uma crise econômica (não humanitária). As intervenções militares para auxiliar aos povos em casos extremos (conhecidas como proxy war) são realizadas quando não existe um Estado, com estruturas capazes de colaborar e o povo está abandonado.

 

A proxy war é usada para evitar que a crise humanitária, com derivações bélicas, de escassez de alimentos e falta de saúde, saia das fronteiras do país em questão. Deve ser aprovada no seio do Conselho de Segurança com o aval das Nações Unidas e com a única finalidade de colocar um fim à crise. Neste protocolo não se fala nada sobre a deposição de governos.

 

Juan Guaidó, cuja figura se maneja como um meme nas redes sociais, seria o ente legitimador desta intervenção armada. Para isso, se recorreu ao uso das atribuições do chefe do órgão legislativo, com uma manipulação do artigo 233 da Constituição.

 

Segundo a lei, o legislativo somente pode remover o executivo e nomear um sucessor mediante circunstâncias como morte, renúncia, destituição decretada por sentença do Tribunal Supremo de Justiça, incapacidade física ou mental permanente, certificada por uma junta médica designada pelo Tribunal Supremo da Justiça e com aprovação da Assembleia Nacional, o abandono do cargo, deve ser declarado pelo legislativo, assim como a revocatória popular do mandato do executivo.

 

Nada disso se aplica a Maduro

Primeiro, porque tal Assembleia Nacional foi declarada em desacato desde janeiro de 2016 e seus atos, incluindo a “posse” de Guaidó a frente dela, carecem de autoridade jurídica e constitucional, e segundo, porque nenhuma das causas do artigo 223 se aplica para o atual e legitimo presidente Nicolas Maduro.

 

Alfred Helmut Naujocks, logo depois da queda do Reich, viveu tranquilamente em Hamburgo, onde vendeu sua história pessoal como “o homem que começou a guerra”. Juan Guaidó, ao não alcançar seu objetivo como “presidente encarregado”, talvez passe o resto de seus dias fazendo conferências sobre primaveras latino-americanas, golpes suaves e quebra de legalidade.

 

28 de fevereiro de 2019

 

Escrito por Mauricio Escuela

 

Do granma.cu

 

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