"O fato econômico na história peruana"

21/02/2019

 

Os ensaios de interpretação sobre a história da República que dormem nas prateleiras de nossas bibliotecas coincidem, em geral, em seu desdém ou desconhecimento do enredo econômico de toda a política. Acusam em nosso povo, uma obstinada inclinação, não para explicar a história peruana, mas para trata-la de uma forma romântica ou fictícia. Em cada episódio, em cada ato, as visões buscam o protagonista, não se esforçam para perceber os interesses ou as paixões que o personagem representa. Medíocres caciques, os toscos administradores da política crioula são tomados como falsificadores e animadores de uma realidade da qual foram modestos e opacos instrumentos. A preguiça mental do crioulo é facilmente habituada a dispensar os argumentos da história peruana e contentam-se com o conhecimento de seus personagens dramáticos.

 

O estudo dos fenômenos da história peruana sofre pela falta de realismo. Balaúnde, com excesso de otimismo acredita que o pensamento nacional tem sido, por um longo período, marcadamente positivista. Chama de positivista a geração universitária que precedeu a dele, mas, vê-se obrigado a corrigir seu julgamento em grande medida, reconhecendo que essa geração universitária adotou do positivismo o que ele tinha de mais fraco e gasoso – a ideologia –; não o mais sólido – o método –. Nós nem sequer tivemos uma geração positivista, adotar uma ideologia não é administrar seus lugares comuns mais supérfluos. Em uma corrente, numa escola filosófica, é necessário distinguir o ideário do faseado.

 

Por tanto, mesmo um critério puramente especulativo deveria estar satisfeito com o crescente fervor de que goza o materialismo histórico e que desfruta na nova geração. Essa direção ideológica seria frutífera mesmo que servisse apenas para adaptar a mentalidade peruana à percepção e a compreensão do fato econômico.

 

Nada é mais evidente que a impossibilidade de compreender, sem o auxílio da Economia, os fenômenos que dominam o processo de formação da nação peruana. A economia não explica, provavelmente, a totalidade de um fenômeno e de suas consequências, mas, explica suas raízes. Isto é claro, pelo menos no tempo em que vivemos, se existe alguma lógica que o governa, sem dúvida, é a lógica da Economia.

 

A conquista destruiu na Pera uma forma econômica e social que surgiu espontaneamente da terra e das pessoas peruanas, pela qual, foram nutridos completamente por um sentimento de vida indígena. Começou durante o período colonial, o complexo trabalho de criação de uma nova economia e de uma nova sociedade. A Espanha, demasiadamente absolutista, rígida e medieval, não conseguiu com que este processo se realizasse sob seu controle. A monarquia espanhola pretendia ter em suas mãos, todas as chaves da nascente economia colonial. O desenvolvimento das jovens forças econômicas da colônia reivindicava a ruptura deste vinculo.

 

Esta foi a raiz primaria da revolução e da independência. As ideias da revolução francesa e da constituição norte-americana encontraram um clima favorável à sua difusão na América do Sul, porque na América do Sul já existia, ainda que embrionária, uma burguesia que devido às suas necessidades e interesses econômicos, podia e deveria ser contagiada pelo espirito revolucionário da burguesia europeia. A independência da América espanhola não se realizaria, certamente, se não tivesse contado com uma geração heroica, sensível a emoção de seu tempo, com capacidade e vontade para realizar nestes povos, uma verdadeira revolução. A independência, sob este aspecto, apresenta-se como uma empresa romântica. Mas isso não contradiz a tese do enredo econômico da revolução de independência. Os motoristas, os caudilhos, os ideólogos desta revolução, não eram anteriores nem superiores às premissas e razões econômicas para este acontecimento. O fato intelectual e sentimental não foi anterior ao fato econômico[1].

 

O fato econômico também é a chave para todas as outras fases da história da república: nos primeiros dias da independência, a luta de facções e líderes militares aparece, por exemplo, como consequência da falta de uma burguesia orgânica. No Peru, a revolução encontrou menos definidos, mais atrasados do que em outros povos hispano-americanos, os elementos de uma ordem liberal e burguesa. Para que esta ordem funcionasse mais ou menos embrionariamente, uma classe capitalista vigorosa tinha que ser constituída. Enquanto esta classe se organizava, o poder estava a mercê dos caudilhos militares[2]. Esses caudilhos, herdeiros da retórica da revolução de independência, às vezes, apoiavam temporariamente as exigências das massas, desprovidas de qualquer ideologia, para conquistar ou preservar o poder contra o sentimento conservador e reacionário dos descendentes e sucessores dos encomenderos espanhóis. Castilla por exemplo, o mais interessante e representativo destes líderes militares, agitou com eficácia a bandeira da abolição do imposto sobre os índios e a escravidão dos negros. Embora, naturalmente, uma vez no poder, necessitou dosificar seu programa a uma situação política dominada pelos interesses da casta conservadora, a qual, indenizou com o dinheiro fiscal os danos causados pela emancipação dos escravos

 

O governo de Castilla, marcou também, a etapa de solidificação de uma classe capitalista. As concessões estatais e os benefícios do guano e do salitre criaram um capitalismo e uma burguesia, e esta classe, que mais tarde se organizou no civilismo, moveu-se muito em breve para a conquista do poder[3]. A guerra com Chile interrompeu sua predominância, restaurou durante algum tempo as condições e as circunstâncias dos primeiros anos da república, mas, a evolução econômica de nosso pós-guerra gradualmente o superou, trazendo novamente a um outro caminho.

 

A guerra com o Chile teve também uma raiz econômica. A plutocracia chilena, que cobiçava as utilidades dos negociantes e do fisco peruano, preparava-se para uma conquista e uma desapropriação. Um incidente de ordem econômica, identicamente lhes proporcionaram o pretexto da agressão.

 

Não é possível compreender a realidade peruana sem buscar e sem olhar para o fato econômico. A nova geração não sabe, talvez, de um modo muito exato, mas, ela sente isso de uma maneira muito enérgica. Ela percebe que o problema fundamental do Peru, que é o do índio e da terra, é antes de tudo, um problema da economia peruana. A economia e a sociedade atual peruana, têm o pecado original da conquista. O pecado de ter nascido e ter se formado sem o índio e contra o índio.

 

Publicado em Mundial. Lima 14 de agosto de 1925.

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Notas

[1], [2] e [3] Estes fragmentos são citados em 7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, "Esquema da Evolução Econômica", volume 2, da primeira série Popular (N. dos E.).

 

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