Gramsci: "A Organização Econômica e o Socialismo"

16/02/2019

 

Publicamos este escrito de um jovem companheiro porque ele nos garante tratar-se de um reflexo do pensamento de importante fração do movimento socialista turinês.

Renunciamos previamente a qualquer investigação de história de idéias e de história da expressão das idéias.

Examinamos o escrito em si e por si, precisamente como manifestação de convicções que podem ser coletivas e podem determinar específicas tomadas de posição.

Embora concordemos em geral com muitíssimas afirmações do companheiro R.F., acreditamos serem equivocadas alguns de seus juízos e algumas das conseqüências que deles decorrem.

A cisão entre política e economia, entre organismo e ambiente social, defendida pela crítica sindicalista, não passa para nós de uma abstração teórica vida necessidade empírica, inteiramente prática, de cindir provisoriamente a unidade social ativa para melhor estudá-la, para melhor compreende-la.

As analisar um fenômeno, somos obrigados, se quisermos estudá-lo, a reduzir tal fenômeno a seus chamados elementos, que , na verdade, são apenas, cada um deles, o próprio fenômeno visto mais num dos seus momentos do que em outro, quando visamos mais a uma finalidade particular do que a uma outra.

Mas a sociedade, assim como o homem, é sempre e tão -somente uma unidade histórica e ideal que se desenvolve negando-se e superando-se continuamente.

Política e economia, ambiente e organismo social forma sempre uma unidade :e é  um dos maiores méritos do marxismo ter afirmado essa unidade dialética.

Ocorreu que sindicalistas e reformistas, por um mesmo erro de pensamento, especializaram-se num diferente ramo da linguagem empírica socialista.

Da unidade da atividade social uns destacaram arbitrariamente o termo"economia", enquanto outros fizeram o mesmo com o termo"política".

Uns cristalizam-se na organização profissional e, por causa da distorção inicial do seu pensamento, fazem má política e péssima economia; os outros cristalizam-se nas atividades parlamentares, legislativas, e , pela mesma razão, fazem má política e péssima economia.

Destes desvios nascem a ocasião e a necessidade do socialismo revolucionário, que faz a atividade social retornar à sua unidade e se empenha por fazer política e economia sem adjetivos: ou seja, ajuda o desenvolvimento e a tomada de consciência das energias proletárias e capitalistas espontâneas, livres, historicamente necessárias, a fim de que, do antagonismo entre elas, surjam sínteses provisórias cada vez mais completas e perfeitas, que deverão culminar no ato e no fato último que contenha todas elas, sem resíduos de privilégios e explorações.

Esta atividade histórica contraditória não culminará nem em um Estado corporativo, como aquele com que sonham os sindicalistas, nem em um Estado que tenha monopolizado a produção e a distribuição, com aquele sonhado pelos reformistas.

Culminará, ao contrário, numa organização da liberdade de todos e para todos, que não terá nenhum caráter estável e definido, mas será uma contínua busca de novas formas, de novas relações, que se adequem cada vez mais às necessidades dos homens e dos grupos, a fim de que todas as iniciativas (se forem úteis) sejam respeitadas, de que todas as liberdades (se não implicarem em privilégios) sejam garantidas.

Estas considerações encontram um experimento vivo e palpitante na Revolução Russa, que foi até agora, em particular, um esforço titânico para que nenhuma das concepções estáticas do socialismo se afirmasse de modo definitivo, encerrando assim a revolução e reconduzindo-a fatalmente a um regime burguês, o qual, se liberal e livre-cambista, teria maiores garantias de historicidade do que um regime corporativo ou um regime centralizador e estatolárico.

Portanto, não é exata a afirmação de que a atividade política socialista é socialista por que  provém de homens de homens que se dizem socialistas.

O mesmo se poderia dizer de qualquer outra atividade, ou seja, que tal atividade não é o que diz ser somente porque uma mesma qualificação é atribuída aos homens que a executam.

Faríamos muito melhor se a má política fosse chamada pelo seu verdadeiro nome, ou seja, o de máfia, e se não nos deixássemos encantar pelos mafiosos a ponto de renunciar a uma atividade que é componente necessária do nosso movimento.

De resto, Kautsky observou agudamente que a fobia política e parlamentar é um debilidade pequeno-burguesa, própria de gente preguiçosa, que não quer realizar o esforço necessário para controlar seus próprio representantes, para identificar-se com eles ou para fazer com que eles se identifiquem conosco.

 

por Antônio Gramsci, publicado no Il grido del popolo, de 9 de fevereiro de 1918.

Dos Escritos Políticos, volume 1, Editora Civilização Brasileira, Brasil, 2004.

 

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