"Como o revisionismo kruschevista destruiu a União Soviética"

05/02/2019

 

Prefácio para a segunda edição hindu do livro “Perestroika”, de Harpal Brar.

 

(Escrito por ocasião do 25º aniversário do colapso da União Soviética)

 

Mal completaram-se 25 anos desde que, no final de 1991, a União Soviética colapsou. São inegáveis os reveses sofridos pelo campo socialista em consequências dos acontecimentos que desenrolaram-se na URSS e na Europa oriental.

 

Eu escrevi este livro logo após o desaparecimento do que fora a gloriosa União Soviética. Em sua escrita, me deparei com uma tarefa dupla: primeiro, eu tinha de expor a falência total, bem como seu desvio completo do marxismo-leninismo, das políticas postas em prática por Gorbachev e seus aliados. Em segundo lugar, eu tinha que explicar as origens e o desenvolvimento disto que pode ser chamado de “fenômeno Gorbachev”.

 

Muitas pessoas, e infelizmente mesmo muitos Partidos, continuam, mesmo nos dias de hoje, atribuindo as origens do processo de restauração capitalista na URSS apenas nos anos de Gorbachev, isto é, no período entre março de 1985 e agosto de 1991. Sem dúvidas, com a ascensão de Gorbachev houve um salto qualitativo: o acúmulo de políticas e práticas revisionistas se deram com uma virulência até então desconhecida, pavimentando o caminho para a restauração do capitalismo em ritmo acelerado.

 

Mas, como diz o velho ditado chinês, é preciso mais do que uma noite fria para que um rio congele de verdade. O ímpeto deste livro é mostrar que a raiz, o início do caminho que levou até a restauração capitalista, se encontra no triunfo do revisionismo kruschevista no 20º Congresso do PCUS em 1956, bem como na distorção completa do marxismo-leninismo, por ele sustentada e diretamente estimulada em campos como da economia-política e luta de classes. Em outras palavras, foi a ruptura completa, não sua adesão, aos fundamentos do marxismo-leninismo que levaram ao desmantelamento da União Soviética.

 

No 20º Congresso, Kruschev lançou um ataque virulento contra a figura de Joseph Stalin, que havia dirigido o PCUS e a União Soviética durante três décadas. Estas foram décadas de grandes dificuldades e extraordinárias conquistas. Nestes anos, a União Soviética se industrializou; a agricultura foi coletivizada; suas defesas foram fortalecidas; saúde e educação universais foram garantidas; uma classe trabalhadora poderosa, educada, técnico e cientificamente equipada e possuidora de uma elevada cultura socialista, foi criada. De um dos países mais atrasados, a União Soviética se tornou uma poderosa nação socialista, que derrotara, praticamente sozinha, a mais poderosa máquina de guerra de todos os tempos, nomeadamente, a Alemanha hitlerista.

 

O ataque de Kruschev contra Stalin serviu, conforme planejado, para renegar a União Soviética como ditadura do proletariado, seus feitos históricos e as conquistas mundiais do socialismo. Acalentou os corações dos imperialistas e seus agentes nas fileiras da classe operária – os revisionistas, trotskistas e social-democratas – provendo-lhes com uma arma para que destruíssem o movimento comunista.

 

O ataque kruschovista contra Stalin serviu, e fora feito para tanto, para cobrir a completa revisão, feita a toque de caixa, do marxismo-leninismo em inúmeros aspectos centrais. Entre o 20º e o 22º Congresso do PCUS, o movimento comunista do mundo todo presenciou o espetáculo do nascimento, desenvolvimento e crescimento sistemático do revisionismo kruschevista, que eventualmente levaria a União Soviética ao seu fim.

 

Através do 22º Congresso, o revisionismo kruschovista tornou-se sistemático, vigoroso e aberto, resultando ser capaz de assegurar a adoção e incorporação de suas propostas errôneas em um novo programa adotado nesta ocasião. O novo programa declarava que a ditadura do proletariado deixava de ser indispensável para o país e que deveria ser substituído pelo Estado de todo o povo – um absurdo evidente, uma vez que um Estado existe somente para servir como instrumento nas mãos de uma classe para oprimir, reprimir e subjugar outra.

 

Igualmente, de acordo com este novo programa, o Partido Comunista deixava de ser o Partido da classe operária, se tornando o Partido de todo o povo da União Soviética – outro absurdo evidente, uma vez que um Partido só existe para representar os interesses de uma determinada classe. Então, há distorção e revisão de ensinamentos fundamentais do leninismo em questões como guerra, paz e a política de coexistência pacífica. Além disso, o kruschovismo propagaram a errônea política da via pacífica e parlamentar para o socialismo, ao invés de insistir para a classe trabalhadora sobre a necessidade de se esmagar a burguesia e sua máquina de Estado através da violência revolucionária das classes exploradas.

 

Lenin repetidamente insistiu e enfatizou a necessidade e a inevitabilidade da “...guerra civil, sem a qual nenhuma única revolução na história foi possível lograr êxito, e sem a qual nenhum marxista sério cogitou a transição do capitalismo para o socialismo” (“Palavras proféticas” Obras escolhidas, vol. 27, p. 496).

 

Paralelamente às distorções políticas e ideológicas, os kruschovistas instituíram reformas econômicas que levaram as mais destrutivas consequências. A motivação ao lucro se tornou o regulador da produção soviética sob estas reformas, levando, nesta época, a um crescimento da iniciativa privada, a segunda economia, e dos estratos beneficiados com este crescimento. A economia privada, que fora restrita até os limites mais estreitos no período de Stalin, emergiu com novo vigor na era de Kruschev, registrou um próspero crescimento na época de Brejvnev e superou a economia primária (socialista) soviética sob o amoroso cuidado de Gorbachev.

 

A economia privada, legal e ilegal, além de ser uma fonte de renda alternativa, criou corrupção e criminalidade generalizadas, deu um estímulo adicional às ideias, sentimentos e teorias que justificavam a iniciativa privada; proveu de fundos os críticos do socialismo soviético e mobilizou uma base material para a restauração capitalista na URSS.

 

A economia privada legal inevitavelmente traz em seu rastro atividades ilegais, que assumem uma impressionante variedade de formas, penetrando, por fim, em todos os aspectos da sociedade soviética.

 

Nessa época, toda essa atividade fez surgir uma nova burguesia, que fez grandes investimentos em capital, organizaram a produção em larga escala, contrataram e exploraram trabalhadores e venderam suas mercadorias no mercado negro. Uma abundância de fábricas privadas se espalharam pelo país, chegando as dezenas de milhares, fabricando malhas, sapatos, óculos de sol, discos de música pop ocidental, bolsas e muitos outros bens de consumo. Estes fabricantes começaram como donos de pequenas oficinas e se tornaram famílias multimilionárias que controlam dezenas de fábricas.

 

A segunda economia forneceu o solo para o crescimento do crime organizado, por um lado, e de uma pequena-burguesia dissidente, com palavras de ordem de “liberdade” – liberdade para propagarem o obscurantismo religioso, especialmente se forem críticas do socialismo e suas conquistas. Estimulado pelas forças do mercado, pelas distorções do marxismo-leninismo, postas em marcha pelo kruschovismo, bem como pelo apoio material e ideológico recebido pelo campo imperialista, estes dissidentes, que somavam várias dezenas de milhares em meados dos anos 80, promoveram o individualismo burguês, a ganância e o consumismo. Ao mesmo tempo que espalhavam veneno contra tudo que fosse socialista, faziam verdadeiras campanhas em favor da propriedade privada, livre iniciativa, livre mercado e todo tipo de “liberdades” burguesas.

 

Nos 30 anos que seguiram a ascensão de Kruschev ao cargo de Secretário-Geral do PCUS, essa segunda economia cresceu em um ritmo cada vez mais acelerado. De acordo com provas de especialistas de confiança, enquanto a renda nacional e os preços dos produtos e serviços na União Soviética como um todo cresceram de quatro a cinco vezes entre o início da década de 1960 e o final da década de 1980, a segunda economia cresceu dezoito vezes. De 3,4% da renda nacional em 1960, passaram a representar 20% em 1988. E estes são números certamente conservadores.

 

O número de pessoas engajadas na parte ilegal da economia privada (segunda economia), cresceu de 8 milhões no início dos anos 1960, para 16-17 milhões em 1974 e 30 milhões (12% da população) em 1989. Se economia privada legal é incluída, então, no final dos anos 1970, a população urbana (62% do total) adquiriu cerca de 30% de toda sua renda de fontes não-oficiais, isto é, da economia privada legal ou ilegal.

 

Na medida em que a economia ilegal crescia, mais era minada a economia soviética legítima. Uma vez que a segunda economia necessariamente deveria roubar tempo e materiais da setor estatal, isso não poderia resultar em outra coisa senão a redução da eficiência deste setor, levando-o a dissipar-se neste “negócio”.

 

A segunda economia possuía uma grande influência corruptiva entre os membros do Partido e oficiais do Estado, sem a qual, tais atividades não poderiam ter durado um mês.

 

Através das “reformas econômicas” kruschevistas, os revisionistas criaram as condições para fazer crescer a segunda economia, que por sua vez, minou a economia socialista, espalhou a descrença na eficiência do socialismo, da economia planificada e, através da generalização da corrupção, destruiu a fé da classe operária soviética na integridade de seu próprio Partido. Ao mesmo tempo, a segunda economia criou um estrato cujos interesses finais não poderiam ser alcançados nos limites do socialismo. Assim estavam postas as condições para a restauração do capitalismo.

 

Enquanto toda essa atividade de demolição, destinada a destruir o socialismo e restaurar o capitalismo, ocorria em ritmo acelerado, a liderança revisionista estava ocupada enganando as massas soviéticas, afirmando que o país estava marchando no caminho que levava ao estágio superior do socialismo, ao comunismo.

 

Na época da ascensão de Gorbachev, todas as condições materiais e ideológicas estavam preparadas. Para acelerar o processo de restauração capitalista, tendo expurgado vários elementos do Partido com os quais não poderia contar, Gorbachev iniciou suas notórias políticas da glasnost e perestroika. A primeira desempenhou, no plano ideológico, o mesmo papel que a segunda no plano econômico. Se a perestroika visava restaurar completamente as relações capitalistas de produção destruindo todos os remanescentes de uma planificação centralizada, glasnost almejava destruir o que restara da ciência marxista-leninista na vida política e institucional da URSS, substituindo-a, então, pelas normas características da democracia burguesa. Combinadas, estas duas políticas se tornaram um autêntico atentado contra o socialismo – um programa contra-revolucionário que visava minar a liderança do Partido Comunista, a propriedade estatal, a planificação central e a integridade multinacional da União Soviética.

 

A glasnost se tornou sinônimo de anti-comunismo. As reformas econômicas se materializaram como a completa privatização e desmantelamento do que havia sobrado da economia socialista, com o apoio ao “socialismo de mercado” que se tornava o “mercado do socialismo” – em linguagem clara: capitalismo. O anti-stalinismo, com suas palavras de ordem sobre “democratização” e “descentralização”, se tornaram, como fora também na época de Kruschev, o slogan das reformas de Gorbachev. Sob o pretexto de aperfeiçoar o Partido e a economia, em nome da crítica ao “culto à personalidade”, realizou, a toque de caixa, a distorção completa da história do Partido e denegriu todas as conquistas históricas do socialismo.

 

Enquanto a “democratização” marcou a separação total do marxismo-leninismo, o Partido tornou-se uma espécie de organização social-democrata, rejeitando o papel de dirigente deste e o centralismo democrático como seu princípio organizativo. O conceito de coexistência pacífica, transformado em um “valor humano universal”, tornou-se um eufemismo para uma aliança aberta com o capitalismo e imperialismo.

 

Determinado como estava a destruir o que restara do socialismo na URSS, Gorbachev, à despeito de seu desprezo pelo Partido, permaneceu tempo o suficiente em seu cargo de Secretário-Geral para supervisionar o desmantelamento do campo socialista, bem como a desintegração da URSS e a liquidação do PCUS.

 

Na arena internacional mais ampla, o grupo de Gorbachev traiu os movimentos de libertação nacional e países socialistas menores, como Cuba.

 

Na época do 28º Congresso do PCUS, realizado em julho de 1990, a questão já não era mais SE a economia de mercado seria completamente restaurada, mas simplesmente saber QUE TIPO de economia de mercado deveria substituir a economia planificado que, tendo sido sabotada durante as três últimas décadas, recebeu o golpe de misericórdia da corja de Gorbachev.

 

Em sua mensagem por ocasião do 73º aniversário da revolução de outubro, em 7 de novembro de 1990, Gorbachev, com sua característica cara de pau, retratou sua traição completa ao socialismo e capitulação ao imperialismo com seus atos de “liberdade e emancipação”.

 

“Perestroika, diz ele, trouxe-nos liberdade e emancipação. Nós nos abrimos ao mundo... estando em conflito com o mundo, negamos a nós mesmos a oportunidade de participar do progresso da civilização em seu momento mais crucial. Nós sofremos terríveis reveses, talvez nossas maiores perdas, por conta disso”.

 

Há um ano do 28º Congresso, Gorbachev logrou destruir o que restava dos defensores da economia socialista dentro do PCUS.

 

Em 6 de novembro de 1991, um dia antes do 74º aniversário da revolução de outubro, Yeltsin, que fora eleito Presidente da Federação Russa em junho deste mesmo ano, baniu o PCUS e ordenou sua dissolução. Em dezembro, ordenou a remoção da bandeira vermelha do Kremlin. Em 25 de dezembro, tendo realizado o trabalho de sua vida, Gorbachev se retirou da vida política. Em 31 de dezembro, a União Soviética já não existia mais.

 

Assim, teve um fim ignóbil o que fora uma vez a gloriosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a primeira pátria-mãe do proletariado internacional e primeira base da revolução proletária mundial. Tudo graças ao revisionismo kruschevista que desolou o país durante três décadas e meia.

 

É crucialmente importante para o proletariado internacional e aos povos oprimidos do mundo entenderem as causas da dissolução da URSS e do PCUS, pois as interpretações do colapso soviético estão intimamente ligadas com a luta pelo futuro. O proletariado fará duras lutas e fará, necessariamente, sacrifícios para alcançar o socialismo, impossível se considerarem o socialismo um sistema falido, como constantemente nos dizem os agentes da burguesia infiltrados nos movimentos populares. Dificilmente haverá uma tentativa séria de superar o capitalismo se estivermos convencidos que uma economia de mercado é a chave para a libertação da humanidade.

 

A burguesia entende, nos dizia Lenin, que “os militantes operários que seguem tendências oportunistas e revisionistas, são melhores defensores da burguesia do que a própria burguesia!”. (Obras escolhidas, Vol. 31).

 

Estas observações foram os princípios que me guiaram para entender a calamidade que foi a dissolução da União Soviética. Meu livro Perestroika foi uma tentativa de mostrar que a URSS e o PCUS colapsaram não por causa de falhas intrínsecas na ciência do marxismo-leninismo, mas sim por conta das distorções realizadas nesta ciência pela liderança kruschevista que tomara o Partido e é culpada pela completa revisão e distorção dos princípios do marxismo-leninismo nos campos da ciência política, filosofia e luta de classes, por um período de mais de três décadas.

 

Durante estas três décadas, distorções e falsificações do marxismo-leninismo se multiplicaram, e eventualmente a quantidade se tornou qualidade. O que começou como um gotejar no kruschevismo, tornou-se inevitavelmente uma correnteza de rio no período de Gorbachev, acabando por restaurar o capitalismo na terra soviética, na terra de Lenin e Stalin – a terra que uma vez fora a do triunfo socialista. Assim, o que colapsou não foi o marxismo-leninismo; foi o próprio revisionismo que acabou em um inevitável e escandaloso colapso, derrubando toda a URSS consigo.

 

O colapso do revisionismo, que é uma manifestação da “influência burguesa no proletariado e a corrupção burguesa dos trabalhadores” foi, de forma gradual mas incessante, se impondo sobre os Partidos operários de todo o mundo, diante da urgente necessidade de se analisar de forma mais abrangente os desdobramentos do que aconteceu na Europa oriental e na União Soviética, afim de ter as conclusões adequadas e tirar as lições devidas.

 

Isso deveria leva-los a necessidade de afiar suas armas ideológicas, combater o baixo nível teórico, imperante desde que a liderança do PCUS fora usurpado pela corja kruschevista no 20º Congresso de 1956. É este baixo nível teórico que explica porque tantos Partidos operários mostraram-se apenas como meros espectadores indefesos diante do avanço do revisionismo. O colapso deste mesmo revisionismo leva-os uma crescente necessidade de reconhecer que “sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”.

 

É uma tarefa posta aos Partidos Comunistas reconhecerem que “só se pode desempenhar o papel de vanguarda, se possuir uma teoria de vanguarda”.

 

Com estas palavras, encerro este prefácio, na esperança de que meus leitores hindus encontrem contribuições úteis para a compreensão dos grandes eventos tratados neste livro.

 

Outubro de 2016

 

Harpal Brar

 

Traduzido por Guilherme Nogueira

 

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