Dimitrov: "Que Via Escolher?"

27/01/2019

 

Houve uma altura em que, a maioria dos que trabalham no domínio da arte (pintores, comediógrafos, músicos, etc.), podiam considerar-se, em nome do carácter particular do seu trabalho e das perspectivas de uma brilhante carreira pessoal, como uma espécie de aristocracia do trabalho intelectual, separada do proletariado, da sua luta pela existência e do seu movimento de libertação.

 

Eles estavam então inclinados a considerar-se como fazendo parte da classe no poder, como seus filhos preferidos, felizes eleitos escolhidos pelo destino e não tendo nada em comum com os explorados e oprimidos da sociedade atual, não sentindo a necessidade de se organizar e de lutar para defender os seus interesses e direitos, porque tinham o direito de contar com o seu talento e com a proteção dos poderosos e dos diversos mecenas.

 

Imbuídos até à medula do individualismo burguês e da psicologia dos super-homens, exagerando a importância da sua superioridade intelectual, sentindo-se solidamente instalados no seu Parnaso, manifestavam muitas vezes uma atitude desdenhosa para com aqueles que vivem do trabalho físico e intelectual ordinário e agradeciam a Deus (como os antigos doutores da Lei e os faraós) por não os ter criado à imagem dos «pobres de espírito», escravos do capital.

 

Assim era antigamente.

 

Contudo, quem não vê e não sente hoje que essa época acabou irremediavelmente, destruída tanto nos outros países como no nosso?

 

Depois de se ter apoderado de toda a produção material, o capitalismo posou também a sua pesada mão sobre o teatro, a música, a criação artística, toda a arte. O princípio capitalista — assegurar tanto quanto possível mais lucros — exerce-se também no campo dos valores morais e espirituais.

 

Os trabalhadores do domínio da arte foram proletarizados, sujeitos à exploração capitalista, criando lucros. Rapidamente caíram das alturas “acolchoadas de seda” do Parnaso, para se encontrarem na miséria e na lama da dura realidade contemporânea.

 

A sorte dos que aparecem sobre os palcos está ligada, não apenas ao ponto, ao público, mas também à sorte das coristas e dos músicos de orquestra, do pessoal técnico e de todos os outros operários da empresa teatral capitalista. A sorte dos membros da orquestra está ligada à dos empregados que nos restaurantes servem o público. A sorte dos pintores, nos seus atelieres, ou dos de litografia e de zincogravura, numa ou noutra empresa, está ligada à do pessoal auxiliar e à dos outros operários, etc.

 

A sorte da “aristocracia do trabalho” de outrora e no domínio das artes, está ligada, cada vez mais e mais estreitamente, à sorte de todo o proletariado do país.

 

E é necessário verificar que as destruições que a grande guerra ocasionou, assim como as desastrosas consequências da crise económica profunda que esta guerra provocou, não apagam apenas, numa larga medida, a diferença que outrora existia entre a situação material e social dos pioneiros das artes e dos outros representantes do trabalho intelectual, mas vão mesmo até precipitá-los numa miséria material e social mais grave e numa instabilidade do dia de amanhã ainda maior, em relação a toda uma série de categorias de operários qualificados.

 

Se se tomar em consideração o facto de que aqueles que trabalham no domínio da arte, pela própria natureza do seu esforço, efetuam não só um trabalho mecânico, mas são obrigados a transmitir-lhe sentimento, coração e alma, a sublimarem-se, compreender-se-á facilmente que eles sofrem, a par das privações materiais, sofrimentos morais como o operário e o intelectual comum não conhecem.

 

Uma mudança profunda intervém, contudo, na situação da chamada aristocracia que trabalha no domínio das artes. Naturalmente, esta mudança exige uma subordinação do seu individualismo à necessidade vital da ação coletiva para a autodefesa geral.

 

A nova situação e os tempos novos exigem também novos processos, caminhos novos que mostrem imperativamente aos “eleitos pelo destino”, que anteriormente julgavam não haver nenhuma necessidade de organização e de luta, a via da organização e da luta.

 

É uma velha verdade ser o modo de vida que determina o modo de pensamento. A experiência prova, contudo que as mudanças na maneira de pensar intervêm sempre com um certo atraso nas mudanças efetuadas no modo de vida.

 

O modo de vida dos artistas, dos músicos, dos pintores, etc., mudou consideravelmente, mas a sua maneira de pensar permaneceu, na maior parte deles, a mesma. Sentem-se sempre, por assim dizer, ligados pelo cordão umbilical à burguesia parasitária e ficam estranhos às massas trabalhadoras. Libertam-se lentamente da ideologia burguesa, mas continuam sob a sua alçada, aceitando sempre as sugestões do individualismo, enchendo-se da psicologia dos super-homens, continuando a procurar processos para garantir a existência e a mascarar os rudes golpes da vida.

 

Travados pelas suas ideias caducas, a vida, contudo chicoteia-os, forçando-os a caminhar em frente. Os preconceitos e as superstições burguesas impedem-nos de abraçar a nova orientação que lhes é imposta pela mudança das condições.

 

Assim, eles encontram-se hoje numa encruzilhada entre duas vias: a antiga, de humilde submissão ao capital, à espera da sua esmola, e a nova, a da luta organizada contra a exploração capitalista, da união de todos os trabalhadores do domínio da arte e do seu caminho ao lado do proletariado que luta pela libertação e pela felicidade.

 

A maioria dos que trabalham no domínio da arte e se encontram nesta encruzilhada de caminhos, são atingidos de estrabismo, situação pouco invejável para eles. Com o olho direito olham, plenos de esperança, na direção do seu antigo ídolo — o capital — enquanto com o olho esquerdo arriscam olhares hesitantes para o lado do povo trabalhador, que caminha audaciosamente pelo caminho da libertação dos proletários.

 

Que via escolher? — Tal é o problema crucial que hoje se põe com toda a acuidade a qualquer artista, músico, pintor, a todo o proletariado artístico.

 

E a grande tarefa do jornal Artiste é atualmente a de ajudar, justamente, as massas de trabalhadores do domínio da arte a conhecerem-se enquanto proletários; a de acelerar o processo que visa adaptar-lhes a óptica à sua nova condição; a cultivar, em vez de um individualismo intelectual demasiado conhecido, o sentimento de solidariedade e a ideia de ação comum; ajudá-los a escolherem todos, tão depressa quanto possível, a via da organização e da luta por um Sindicato Geral dos Trabalhadores do Domínio da Arte, a via da unidade com os trabalhadores que manejam o martelo, a foice ou a pena, com os operárias da produção e com os que trabalham no plano intelectual, a via da libertação de toda a humanidade trabalhadora e das próprias artes do regime capitalista em decomposição.

 

É uma tarefa, é certo, muito difícil e complicada. Mas uma tarefa digna dos esforços fornecidos pelos maiores talentos e pelas ambições mais nobres.

 

E deve ser realizada — para salvar os milhares de trabalhadores do domínio da arte ainda não orientados, para salvar a própria arte e para fazer triunfar a grande causa da libertação do mundo trabalhador no nosso país.

 

Assinado: G. Dimitrov

Jornal "Artiste" N.° 2 de 4 de Junho de 1923.

 

Please reload

Leia também...

O XX Congresso do PCUS e a crise no Partido Comunista do Brasil (PCB)

11/11/2019

Marx: "Carta a Pavel V. Annenkov"

11/11/2019

"Claudia Jones, uma pan-africanista, feminista e comunista pouco conhecida"

06/11/2019

"Jornalista Anna Louise Strong sobre Stalin"

04/11/2019

1/3
Please reload

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube