"Os professores e as novas correntes"

24/01/2019

 

I

Nenhuma categoria de trabalhadores intelectuais aparece tão naturalmente destinada a aderir as novas ideias como a dos professores do ensino básico. Em meus artigos anteriores me referi, mais de uma vez, ao espírito de classe que distingue e separa o ensino primário do ensino secundário e superior. A escola, causa desse espírito, não só diferencia a classe burguesa das classes pobres na cultura e na vida, como também diferencia os professores destas classes. O professor primário se sente próximo ao povo. O professor do Liceu os da Universidade sente-se parte da burguesia. É, no entanto, na educação primária onde se produz, geralmente, o tipo puro, o tipo profissional de educador. O professor do ensino primário é só educador, já o professor do Liceu e da Universidade é, ao mesmo tempo, literato e político. A docência secundária e universitária, tanto por sua função quanto por sua estrutura, tende a criar uma burocracia conservadora.

 

Nos países hispano-americanos, especialmente nos mais subjugados, essa diferença se acentua e se aprofunda. No ensino secundário e universitário o diletantismo domina. O professor universitário, sobretudo, é simultaneamente advogado, parlamentarista, latifundiário. A cátedra constitui um mero estado de sua vida cotidiana. O ensino é um suplemento ou um complemento intelectual de sua atividade prática, política, forense ou mercantil. O professor primário, no entanto, embora de forma modesta e imperfeita, tem sempre uma vida de profissional. Sua formação e o ambiente em que vive o desconecta, por outro lado, dos interesses egoístas da classe conservadora.

 

O professor primário hispano-americano vem do povo, mais especificamente da pequena burguesia. A Escola Normal o prepara e o educa para uma função abnegada, sem ambições de bem estar econômico. O destina a dar às crianças pobres a instrução elementar – gratuita e obrigatória – do Estado, o normalista sabe de antemão que o Estado o remunerará insatisfatoriamente. O ensino primário – ensino para o proletariado – proletariza seus funcionários. O Estado condena seus professores a uma estreiteza pecuniária perene. Nega-lhes quase que completamente todo meio de elevação econômica e cultural e lhes frustra toda perspectiva de acesso a uma categoria superior. De um lado, os professores carecem de possibilidades de bem estar econômico, de outro lado, carecem de possibilidades de progresso científico. Seus estudos na Escola Normal não lhes abrem as portas da Universidade. Seu destino pode confiná-los a uma aldeia primitiva onde vegetam sombriamente, à mercê de um cacique ou de um deputado, sem livros ou revistas, segregados do movimento cultural, desprovidos de elementos de estudo.

 

No espírito desses trabalhadores intelectuais, sinto falta de toda a cobiça comercial, de todo arribismo econômico, compreendem facilmente os ideais dos construtores de um novo estado social. Nada os reúne aos interesses do regime capitalista. Sua vida, sua pobreza, seu trabalho confunde-os com as massas proletárias.

 

Para esses trabalhadores, sensíveis à emoção revolucionária, permeáveis à renovação de ideias, devem direcionar-se intelectuais e estudantes de vanguarda. Em suas fileiras a vanguarda recrutará mais e melhores elementos do que entre professores pedantes e escritores egoístas que detêm a representação oficial da Inteligência e da Cultura.

 

II

Da sensibilidade dos educadores ao desejo de renovação social temos muitas e confiáveis provas. As Escolas Normais forneceram ao socialismo um número conspícuo de organizadores e condutores de ambos os sexos. Ramsay Mac Donald, por exemplo, tem sido um preceptor. Na Itália encontrei nas primeiras fileiras do proletariado inúmeros professores e professoras. Na França constatei o mesmo fenômeno. Colaboram com clareza vários educadores de filiação revolucionária. A mesma filiação tem a revista L’École Emancipée, órgão da Federação de Ensino, dirigida por um grupo de jovens professores. Os estudantes da Escola Normal Superior de Paris tem sido, recentemente, os primeiros a responder os histéricos alardes fascistas dos estudantes da reacionária Faculdade de Direito da Sorbonne, discípulos dos escritores monarquistas da L’Action Française.

 

O próprio movimento dos companheiros da Universidade Nova identifica no corpo de educadores franceses um estado de espírito cheio de preocupação. Este movimento tem sido indeciso em seus métodos, difuso em suas proposições, mas categórico em sua vontade de renovação. Não soube ainda romper com a tradição, em particular com os interesses conservadores. Não conseguiu libertar-se das superstições burguesas que estão aninhadas na psicologia e mentalidade de seus animadores. Mas declarou claramente sua adesão à ideia de uma democracia social, de uma verdadeira democracia, mesmo que não tenha sido capaz de definir a maneira de realizá-la.

 

A doutrina e o método pedagógico de Pestalozzi e Froebel – nutridos por sentimentos e inspirados pelas necessidades da civilização de produtores – tiveram, como ressaltado, à luz da experiência contemporânea uma profunda significação revolucionária.

 

E os reformadores da educação na Alemanha também saíram das fileiras de educadores.

 

III

A ideia sustentada pelos companheiros da Universidade Nova de que uma nova organização do ensino deve ser, ao menos tecnicamente, obra de um sindicato, que agrupe todas as categorias de professores, não é em si uma ideia errônea. O é quando supõe que uma revolução no ensino pode operar-se no quadro da antiga ordem social. O é quando coloca o sindicato de professores ou a corporação de ensino em um plano superior e distinto dos demais sindicatos de trabalhadores. Para que os educadores possam reorganizar o ensino sobre novas bases é necessário que saibam que antes de ser um sindicato devem mover-se como um, funcionar como tal. E é necessário que eles saibam entender a solidariedade histórica de sua corporação [1] com as outras corporações que trabalham para reorganizar, em novas bases também, toda a ordem social.

 

Esta questão deve ser tema de diálogo entre os intelectuais e educadores de vanguarda. (Na corporação de professores a existência de uma vanguarda é evidente, sem dúvida). O programa de uma reforma universitária integral seria incompleto se não compreendesse as reivindicações desta corporação. Deve-se abrir os estudos universitários aos formados na Escola Normal. Precisamos derrubar as cercas que isolam os professores primários da Universidade, bloqueando-os dentro dos limites rígidos do primeiro ensino. Que os normalistas [2] entrem na universidade. Mas não para aburguesar-se em suas salas de aula, mas para revolucioná-las. Aqui está um belo programa para a juventude da América Hispânica, para a União Latino-Americana. Diferenciar o problema da universidade do problema da escola é cair num velho preconceito de classe. Não há problema da universidade independente de um problema de escola primária e secundária. Existe um problema de educação pública que abrange todos os seus compartimentos e inclui todos os seus graus.

 

IV

O modesto preceptor, o obscuro professor do filho do operário e do camponês, precisa entender e sentir sua responsabilidade na criação de uma nova ordem. Seu trabalho, de acordo com sua direção, pode apressá-la e facilitá-la ou pode retardá-la. Essa nova ordem enobrecerá e dignificará o professor de amanhã. Tem, portanto, direito à adesão do professor de hoje. Todas as vitórias humanas devem aos professores, em grande parte, o mérito. Por outro lado, a responsabilidade sobre todas as derrotas humanas também recai sobre eles. A servidão da escola a um cacique provincial não pesa apenas na dignidade de quem aprende. Pesa, acima de tudo, a dignidade de quem ensina. Nenhum professor honesto, nenhum jovem professor, que pense sobre esta verdade, pode ser indiferente às suas sugestões. Não pode ser indiferente nem ao destino dos ideais e dos homens que querem dar à sociedade uma forma mais justa e à civilização um sentido mais humano.

 

Publicado em Mundial, Lima, 22 de maio de 1925

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Traduzido por F. Fernandes

 

Notas

[1] Corporação como um organismo oficial constituído por um conjunto de pessoas que se reúnem para decidir assuntos científicos, econômicos, etc., de interesse geral.

[2] Advindos da Escola Normal.

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