"A Revolução não tem orientação sexual"

20/12/2018

 

“Se nós tivéssemos que nos agrupar juntos nesta frente de guerrilha, nós faríamos uma companhia. Mas isso não irá acontecer. Você viu o quão arruaceiros nós fomos durante o jogo de vôlei? Nós poderíamos ser extremamente barulhentos”. Todos eles gargalharam da ideia. Poucos são os momentos que eles se unem. Na realidade, alguns deles acabaram de se conhecer. Eles pertencem a zonas diferentes de guerrilha e dizem que não podem se agrupar. Não porque são turbulentos mas porque eles tem uma necessidade em particular nas áreas onde eles são nomeados.

 

Eles são membros do Batalhão Pulang Bagani (Pulang Bagani Battalion, PBB) do Novo Exército Popular (New People’s Army, NPA). Revolucionários. Bayotes, gays.

 

A batalha contra a discriminação

 

Ka Riko, um coreógrafo, relatou que seus 'ninunong bakla' e 'anitong bading' (literalmente “ancestrais” gays e “ícones” gays) nos centros urbanos experimentaram discriminação de alguns membros do movimento que consideravam a homossexualidade como uma fraqueza. Os gays foram criticados pelos seus dedos dançantes e seus quadris balançantes, especialmente durante comícios. Até houve um tempo onde ser gay era considerado um risco de segurança.

 

O número crescente de gays e lésbicas no Partido necessitou, através de estudos, remodelagem ideológica e um guia político para a atitude apropriada para com os membros que expressaram sua preferência sexual. Tais esforços estão mirando na mitigação se não todos juntos eliminando a discriminação de gênero.

 

Entre esses estava “Sobre o Relacionamento Proletário dos Sexos” (On Proletarian Relationship of the Sexes, OPRS) - um documento do Partido para guiar relacionamentos e casamentos. Durante o 10º Plenário do Partido Comunista das Filipinas (CPP) incluiu direitos iguais aos gays e lésbicas e concedeu o reconhecimento de suas preferências sexuais, como também o reconhecimento de relacionamentos e casamentos que eles optarem por ter.

 

Também, em tempo devido, os gays provaram seu valor. Que seus quadris balançantes não têm nenhuma relação com suas habilidades para liderar e executar tarefas, incluindo tarefas militares.

 

No entanto, o processo de aceitação e reconhecimento dos direitos de membros não héteros não tem sido fácil. Além do desenvolvimento desigual de membros no movimento, a influência da cultura e sociedade burguesas que despreza e discrimina lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) é forte. Combater persistentemente essa influência decadente é imperativo.

 

Ka Duday, um dos membros da equipe médica do PBB, revelou o quão apreensivo estava no começo. Ele não sabia como se colocaria. “Eu não posso tomar banho com os homens porque isso violaria as regras. Eu não posso me unir com as mulheres porque elas poderiam pensar que estou tomando vantagem delas. Então alguém mencionou que gays não tem lugar na revolução. Severamente ofendido, eu fui desmoralizado. Eu sai do movimento. Mas em casa eu não tinha nada para fazer sem ser chorar. Depois de alguns meses, eu mandei a palavra que irei retornar e me juntar a eles”.

 

Ka Duday acreditou que combatendo a cultura depravada desta sociedade burguesa nasceríamos em uma mudança que daria frutos da luta coletiva de gays, lésbicas e héteros na revolução nacional democrática. Documentos do Partido estão disponíveis para informar gays e lésbicas que eles não estão separados da opressão e exploração sofrida pelos outros. Portanto, é importante que tomem papéis ativos na revolução popular.

 

“Mas nós não podemos mandar a mensagem e convencê-los da exigência da revolução se nós mesmos somos indisciplinados” diz Ka Duday.

 

Enquanto isso, Ka Riko compartilhou sua experiência durante um encontro com o exército em 2000 onde foram postos na defensiva. Eles tiveram um momento difícil em uma retirada diante do inimigo. O exército estava avançando rapidamente. Então, um de seus camaradas, um gay, se posicionou longe da principal unidade do NPA e disparou contra o exército para desviar a atenção dos inimigos. Essa tática diversionista fez com que a unidade do NPA pudesse manobrar e se retirar. “Orgulhoso!”, Ka Riko exclamou.

 

Esse incidente serviu como ponto de virada para o modo de como os gays eram tratados. Eles ainda zombavam deles, mas desta vez, com um carinho diferente de antes quando ainda sentiam que as pessoas os evitavam. Com orgulho, Ka Riko comentou: “Gays no movimento é incrível - guerreiros reais e bravos”.

 

Eles se lembram com carinho de Wendel Gumban – Weng, para sua família, Wanda para seus amigos e camaradas na cidade e Ka Waquin para os guerreiros vermelhos do PBB e o Lumad – foi martirizado. Um graduado em Turismo da Universidade das Filipinas, Wendel deixou de lado ambições pessoais para servir às massas e à revolução.

 

“Além dele ser um guerreiro gay, a dedicação de Ka Waquin para servir ao povo é uma inspiração imortal, não apenas para nós, gays, mas para também muitos camaradas e para as massas. Ele provou que ser gay não é um obstáculo para disparar uma arma, especialmente se é pela liberação nacional” Ka Duday professa.

 

Saindo do armário

 

Além da confrontação com o inimigo, eles sabem que também há a necessidade de confrontar corajosamente as contradições internas. Sair do armário convidaria desprezo, exposição ao ridículo e desprezo.

 

“Desde o ensino médio eu já sabia que era gay, mas eu escondi isso de minha família. Eu me juntei com o NPA, mas eu não tinha planos para me juntar a eles. Eu meramente os ajudei quando podia. Se você veio de uma família de camponeses você sempre anseia para levantar sua família de suas depravações. Portanto, eu trabalhei como um segurança na cidade. No entanto, eu não pude suportar a situação de exploração no qual os seguranças estavam. É um sacrifício sem valor. Eu saí do meu trabalho e entrei em contato com meu amigo da NPA para expressar meu desejo de me juntar a eles” Ka Princess relatou.

 

“Por mais de um ano, eu escondi meu eu real de nosso grupo. Mas isso me incomodou de forma interminável então eu me abri com Ka Bob, um membro da comissão superior. Eu não sabia como iriam reagir, mas essa era a última de minhas preocupações. O importante é que eu ‘saí do armário’ e me senti aliviado” Princess adiciona.

 

Princess esperava escárnio de seus camaradas e das massas depois que souberam da verdade. Mas isso não aconteceu. Na realidade, muitos deles não acreditaram.

 

“Se você realmente quer esconder sua real identidade você fará de tudo para evitar suspeitas” Ka Princess explica.

 

Em uma das celebrações de aniversário do CPP, Princess convidou sua família. Foi lá que admitiu sobre sua preferência sexual. Primeiramente eles ficaram chocados, mas depois de se explicar o aceitaram como ele é de coração aberto.

 

Ka Princess se sentiu libertado depois desta confissão, como se um grande empecilho tivesse sido tirado de sua garganta. Ele se juntou ao NPA como Ka Marko, como ela é Ka Princess, uma guia política para o pelotão.

 

Para Ka Awra, ser Moro e gay é um fardo duplo.

 

“Eu invejava meus amigos na cidade porque muitos deles, tanto homens como mulheres, eram proficientes no dialeto gay. Eu tive a impressão que eles recebiam os gays muito bem. Eu soube depois que já suspeitavam que eu fosse, porque eu era acanhado e gentil. Mas eles nunca me perguntaram sobre nem me fizeram admitir. Em 2005, eu fui convidado para a inauguração de uma organização de gays e lésbicas. Eu fiquei me perguntando o porquê de eu ter sido convidado. Durante a auto apresentação, a pessoa tinha que dizer seu nome, seu gênero e sua orientação sexual – gay, lésbica ou bissexual. Quando foi minha vez de falar, eu saí do armário e minha ‘carreira’ como Awra Alindogan foi iniciada de forma inesperada. Bongga! (ótimo!),” Ka Awra, um oficial de educação, se maravilha com a memória.

 

Ka Awra descobriu depois da revelação que havia muito mais que pudesse fazer e contribuir para a revolução – pode escrever, dançar, pode escorar em sua proeza cultural para fomentar seu trabalho de organização e instrução. Ele se abriu para seus camaradas e para as massas. Ele se deu conta de que as massas irão te aceitar e te amar independente de seu gênero ou sexualidade enquanto você puder ajudá-los com seus problemas; eles te veem na corte popular resolvendo questões; eles são esclarecidos e aprendem com sua instrução, seja cursos do Partido ou simplesmente ler e escrever. Enquanto você estiver com eles em planos gráficos e programas que servirão aos interesses deles, eles irão te aceitar de todo o coração.

 

Gay Engenhoso

 

“Havia uma época em que nosso campo foi invadido e todos nossos bens foram tomados de nós. As massas, sabendo do incidente, me mandou uma sacola cheia de coisas para substituir o que eu perdi. O gesto foi tão tocante para mim que eu estava lacrimejando de alegria. Eu escrevi de volta para agradecê-los. As massas amam demais o exército popular. Eles estão sempre animados para conhecer e trocar boas experiências conosco sempre que estamos por perto” Ka Awra narrou.

 

Awra expressou sua realização que o respeito não se ganha escondendo sua própria identidade. Primeiramente, não há necessidade de alguém esconder ou negar a própria orientação sexual ou identidade de gênero. Se a pessoa faz o seu trabalho bem, tem boa relação com todo mundo, obedece às políticas e programas do movimento revolucionário, não terá complicações. Isso não se aplica apenas aos homossexuais. Todos os homens e mulheres precisam fazer suas tarefas de forma eficaz para a revolução. Deste modo, certamente irão ganhar a confiança e o respeito de seus camaradas, como também das massas.

 

Uma vez ele foi nomeado para liderar um time em uma operação militar especial. Ele recusou veementemente, especialmente porque os longos cabelos dele teriam de ser cortados. Eles estavam chorando todo o tempo enquanto seus cabelos eram cortados. “Ayoko na mag-struggle (Eu não quero mais fazer parte da luta)” ele disse rindo enquanto se lembra do incidente.

 

Mas no fim ele percebeu que não deveria priorizar desejos pessoais sobre as tarefas revolucionárias. Ele finalmente aceitou a tarefa e eles treinaram o modo que iriam efetuar a operação. Ele foi infiltrado a um ponto de checagem supostamente da AFP (Armed Forces of the Philippines, Forças Armadas das Filipinas). Durante a operação tática real, teve “diretores” que os treinaram. Eles chamavam sua atenção sempre que sua voz e suas ações começavam a se tornar mais gentis. Mas deixaram ele ser quem ele era quando não havia ninguém por perto. Ele poderia sentar de pernas cruzadas. Ele poderia se abanar à vontade. Mas quando havia outras pessoas e veículos próximos, ele teria de retornar ao seu “personagem da AFP” e fazer seu 'papel' com sucesso,” Ka Awra mencionou.

 

Após a operação, todos nós sentimos as presas da fome enquanto guardávamos nossas coisas. Vendo um caminhão de entrega de frutas se aproximando, membros da minha unidade me solicitaram para poder pedir algo para comer. Embora estivesse aborrecido, a compaixão me venceu e eu parei o caminhão para pedir por comida. Eu já estava com uma camisa, mas ainda com calças militares. Eu usei meu charme. No entanto, aqueles que estavam no caminhão ainda conseguiram me identificar como um membro do NPA porque disseram que ninguém da AFP admitiria que era gay. Nós aprendemos depois que eles vieram de uma das barangays (vilas filipinas) onde nós fizemos um trabalho com as massas anteriormente,” Awra continuou.

 

Movimento de Liberação

 

O reconhecimento e o respeito para com os direitos dos gays e lésbicas pelo CPP é um grande passo adiante para gays e lésbicas. O movimento continuará ganhando mais conhecimento e lições enquanto avança a revolução nacional democrática. O movimento pode encontrar enormes obstáculos no caminho, mas guiados pelos princípios marxista-leninista-maoístas, irão conseguir limpar a estrada para a vitória. Os camaradas e as massas estão lá para fundamentar, viver e enriquecer as lições aprendidas.

 

De acordo com Ka Riko, não há como prevenir totalmente que os gays não terão mais problemas, especialmente com camaradas que ainda não se livraram da cultura burguesa na qual cresceram. Mas aí é onde o CPP se diferencia de todos os outros partidos políticos. Ele reconhece suas fraquezas, aprende com essas fraquezas e os corrige, assim como seus membros.

 

“A revolução não possui gênero ou preferência sexual. A arma não possui gênero ou preferência sexual. O anseio de servir as massas e ganhar a revolução para instituir uma mudança real na sociedade nos liga a todos-homens, mulheres, gays e lésbicas”, Ka Princess adiciona. “É simplesmente adequado para todos os gays e lésbicas se juntarem à um movimento revolucionário. É apenas pela revolução armada que nós podemos promover e construir uma sociedade na qual beleza não está apenas na superfície, mas também emana de seu núcleo de liberdade completa” Ka Duday conclui.

 

Mais do que o reconhecimento de seus direitos, o Partido equipou os gays e as lésbicas com a teoria e prática do MLM (Marxismo-Leninismo-Maoísmo) para permiti-los libertar não apenas seus próprios setores, mas também todas as classes oprimidas. Eles estão equipados para os fazerem esmagar a crença convencional de que sua preferência sexual que eles têm é apenas para salões de beleza e seus talentos são unicamente para o entretenimento. Eles estão equipados para poder se unirem e construírem o fundamento de uma sociedade que é livre dos grilhões da exploração e da discriminação.

 

Artigo publicado no Liberation, órgão da Frente Nacional Democrática das Filipinas

 

 

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