"O problema da Universidade"

18/12/2018

 

Pressente-se a proximidade de uma ofensiva contra o velho regime universitário. O fechamento da Universidade de Cuzco no ano passado, levantou com urgência o problema de sua reorganização. A comissão encarregada de propor o respectivo plano, o fez com empenho diligente e com ambiciosa esperança. Seu projeto parecia definitivamente preso nas armadilhas burocráticas do Ministério de Instrução Pública, entre as quais nunca conseguiram, – de acordo com a prática – que as ideias saíssem do papel. Mas, posteriormente, o Congresso autorizou expressamente o Governo a iniciar as reformas na educação universitária, e desde então, a universidade passa a sentir demais sua angustiante presença. Todos concordam – menos o doutor Manzanilla que fecha num rígido e incômodo silêncio – que se trata de um problema que não deve ser mais adiado. Ele já foi adiado por mais tempo do que devia.

 

Desde 1919 sucedem-se as tentativas e projetos de reforma universitária. A assembleia nacional que revisou a Constituição, sancionou os princípios pelos quais se agitaram mais veemente a opinião estudantil. Mas, sempre abandonando a própria ação da Reforma ao conselho de ensino da universidade, seus princípios foram inevitavelmente condenados a uma sabotagem mais ou menos ostensiva e sistemática. Este último dependia da temperatura moral e política do claustro e da rua. A posição do Dr. Villarán correspondia a uma estação na qual o sentimento de renovação permanecia beligerante e fervoroso nos estudantes. O plano de fundo de suas campanhas na educação nacional forçou, para além disso, o reitor a esforçar-se para alcançar algumas metas acessíveis à modesta atitude de um ensino preguiçoso. Mas logo a renúncia do Dr. Villarán restaurou completamente o antigo espírito no governo da Universidade. A esperança de que a Universidade se renovasse, mesmo que lentamente, parecia liquidada definitivamente. Mesmo os mais otimistas e generosos em seu crédito de confiança ao ensino, descobriram a impotência incurável da Universidade em se regenerar.

 

O doutor Manzanilla, todavia, parece se sentir no melhor dos mundos possíveis. É um otimista – ou um pessimista – absoluto, que, num estridente desacordo com sua época, resiste a acreditar que “ a lei da mudança é a lei de Deus”. Não sabemos o que ele pensa – ou o que dirá – oficialmente em seu relatório ao governo. Mas, a julgar pelo mal humor com o qual responde às perguntas, sempre impertinentes para ele, dos periodistas, é evidente que toda intenção de reforma universitária o importuna. A Universidade de San Marcos está bem em 1928 como esteve em 1890 ou um século antes. Por que mudar? Se o senhor Manzanilla decidir falar algo, provavelmente dirá algo mais ou menos neste sentido. [1]

 

Mas, a pesar do senhor Manzanilla, a velhice e as doenças da Universidade são visíveis e notórias demais até para as pessoas mais indulgentes. A necessidade da Reforma não está escondida de ninguém. É uma necessidade integral, para a qual nenhum dos aspectos materiais ou espirituais da Universidade escapa. Em outros países, as universidades permanecem apegadas às suas tradições, enfeitadas para os interesses de classe; mas, pelo menos, tecnicamente eles acusam um avanço incessante. No Peru, a educação universitária é uma coisa totalmente envelhecida e desvencilhada. Em um velho local, um velho espírito, sedentário e impermeável, conserva seus velhos, velhíssimos métodos. Tudo é velho na universidade. O desejo do Dr. Molina de removê-la de seus claustros dogmáticos, para uma casa bem ventilada, é absolutamente explicado. O Dr. Molina, ao visitar as salas de aula de San Marcos, retornando de uma longa viagem pela Europa, deve ter tido a impressão de que a Universidade funciona em um porão cheio de morcegos e teias de aranha.

 

Até este momento não conhecemos o alcance da reforma, que, segundo se anuncia, prepara o Ministro de Instrução, doutor Oliveira. Mas não é infundado desconfiar que desta vez, os propósitos da reforma vão mais além de uma experimentação ou de uma tímida tentativa. Os poderes reais de um ministro, frente a um problema desta magnitude, são limitados. O senhor Oliveira é, por outro lado, um antigo professor que tratará seguramente com excessiva atenção o velho ensino. Ele tem feito, até hoje, algumas declarações honradas e precisas sobre o problema da instrução publica no Peru. Por exemplo, quando reconheceu a impossibilidade de educar o índio somente pelos meios empregados na escola regular, dentro de um regime de gamonalismo ou de feudalidade agrária. Mas a pessoa do ministro é a acidental, o Ministério de Instrução – o órgão maior da educação – com certeza não compartilha dos pontos de vista do Ministro e provavelmente nem sequer preocupa-se com eles. E isto é decisivamente um obstáculo para qualquer propósito, ainda que seja o mais perseverante e valente.

 

Porque o problema da Universidade não está fora do problema geral do ensino. E pelos meios e pelo espírito com que se aborda o problema da escola primária, pode-se também apreciar a atitude de uma política educacional para resolver o da educação superior.

 

No entanto, enquanto é hora, esperaremos.

 

Publicado no Mundial, Lima, 2 de março de 1928.

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Nota

[1] A opinião de J.C.M. sobre a presença do doutor José Matías Manzanilla como reitor de San Marcos está contida na nota editorial do Amauta, intitulada “Voto contra”, compilada em Ideologia e Política, págs. 233-234, Vol. 13 desta serie popular (N. do E).

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