Engels: "Carta a Otto von Boenigk"

18/12/2018

 

Senhor Otto v. Boenigk

 

Breslau               

 

Mui caro senhor,

 

Só posso responder de modo breve e em geral aos pedidos de informação de V.; caso contrário, acerca do primeiro tinha que escrever um tratado.

 

Ad I. A chamada “sociedade socialista” é, em meu entender, não uma coisa pronta de uma vez por todas, mas, tal como os outros estados da sociedade [Gesellschfatszustände], é de apreender [como] compreendido em contínua mudança e reorganização [Umbildung]. A diferença crítica relativamente ao estado atual consiste naturalmente na organização da produção na base da propriedade comum — antes do mais, pela nação — de todos os meios de produção. Não vejo quaisquer dificuldades em executar este revolucionamento — quer dizer, gradualmente — no dia de amanhã. Que os nossos operários são capazes disso, demonstram-no as suas muitas cooperativas de produção e de distribuição que, lá onde a polícia as não arruína propositadamente, são tão bem administradas como as sociedades por ações burguesas, e de longe mais honestamente. Não consigo ver como é que V. pode falar de incultura [Unbildung] das massas, na Alemanha, depois da brilhante prova de maturidade política que os nossos operários deram na luta vitoriosa contra a lei dos socialistas. A pedante presunção fátua das nossas chamadas pessoas cultas [Gebildete] parece-me um impedimento de longe maior. Sem dúvida que ainda temos falta de técnicos, agrónomos, engenheiros, químicos, arquitetos, etc., mas, no pior dos casos, podemos comprá-los, do mesmo modo que os capitalistas o fazem, e se se estatuir um exemplo severo para um par de traidores — pois nessa sociedade havê-los-á seguramente — verão que é do interesse deles não nos roubarem mais. Mas, para além de semelhantes especialistas, entre os quais eu conto também os professores [Schullehrer], podemos muito bem passar sem as restantes “pessoas cultas” e, por exemplo, o presente forte afluxo de literatos e estudantes ao Partido pode arrastar todo o tipo de males, desde que esses senhores não sejam mantidos nos devidos limites.

 

Os latifúndios dos Junker a leste do Elba podem sem dificuldade, sob pertinente direção técnica, ser arrendados aos atuais jornaleiros ou criados de quinta [Hofgesinde] e ser cultivados em associação. Se houver excessos, os senhores Junker serão responsáveis por eles, já que, contra toda a legislação escolar existente, deixaram as pessoas embrutecer a esse ponto.

 

O maior impedimento são os pequenos camponeses e as importunas e superespertas “pessoas cultas” que sabem tudo tanto melhor quanto disso menos entendem.

 

Se, portanto, tivermos um número suficiente de apoiantes entre as massas, a grande indústria e a grande agricultura de latifúndios podem ser socializadas muito rapidamente, assim que tivermos a dominação política. O resto seguir-se-á dentro em breve, mais depressa ou mais devagar. E, com a grande produção, nós é que temos o leme.

 

V. fala de ausência de uma igual inteligência das coisas [Einsicht]. Ela existe — mas do lado das pessoas cultas saídas dos círculos nobres e burgueses, que não fazem ideia nenhuma de quanto ainda têm que aprender com os operários.

 

Ad II. A senhora Marx era filha do conselheiro de governo von Westphalen, de Trier, e irmã mais nova do ministro da reação von Westphalen do ministério de Manteuffel.

 

Devotado [e] com alta estima
F. Engels

 

A carta de Otto v. Boenigk a Engels era de 16 de agosto de 1890. A primeira pergunta era se Marx e Engels acreditavam na possibilidade de uma “salutar exequibilidade” (heilsame Durchführbarkeit) da “ideia socialista” nas condições então reinantes de uma grande diversidade ao nível da cultura (Bildung) e da “inteligência das coisas” (Einsicht). O. v. Boenigk inclinar-se-ia a pensar que a execução dessa ideia deveria ser adiada até que a mencionada “inteligência das coisas” se encontrasse mais igualmente espalhada. A segunda pergunta referia-se à indicação do nome de solteira da mulher de Marx.

 

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