Sankara: "A revolução de Burkina Faso está se consolidando"

17/12/2018

 

Camarada Presidente, qual é a posição de Burkina Faso em relação à luta contra o apartheid?

O apartheid é hoje uma forma de nazismo moderno. O apartheid é um elemento vivo do imperialismo de nosso tempo. Definitivamente, o apartheid é também um estratagema na luta de classes pela exploração do homem pelo homem. Por tanto, tática e estrategicamente devemos combater o apartheid não porque somos negros, mas simplesmente porque somos homens e não animais, porque escolhemos no marco da luta de classes, a classe do futuro, a classe dos trabalhadores, que torna os homens livres, prósperos e felizes.

 

 

O que se faz concretamente em Burkina Faso para lutar contra o apartheid?

Burkina Faso organiza a luta contra o apartheid em vários níveis, existem organizações sociais como o Movimento Burkinabés contra o Racismo e o Apartheid, mas, sobretudo na formação política e ideológica de todos os burkinabeses no seio dos Comitês de Defesa da Revolução, indicamos a eles todos os inimigos possíveis da humanidade e de nosso povo, entre os quais figura o apartheid. Tomamos medidas legislativas, administrativas, jurídicas e políticas contra o apartheid.

 

Boicotamos as atividades internacionais que impõe a presença dos responsáveis, partidários e atores do apartheid.

 

O combatemos no esporte, em atividades culturais, nas reuniões internacionais. Combatemos economicamente o apartheid, ainda que, Burkina Faso seja um país pequeno, economicamente débil; combatemos o apartheid e rejeitamos os produtos do apartheid. Nosso combate continua igualmente por meio do internacionalismo proletário para traçar uma unidade de ação e de pensamento com outros homens contra o apartheid e exterminar este câncer que mina não só a África, mas também toda a humanidade. É por isso que denunciamos com todas as nossas forças, todos os governos e regimes que em sua hipocrisia dizem-se opostos ao apartheid, mas que na realidade são os verdadeiros agentes, os principais provedores do apartheid na África do Sul. Todos merecem a mesma sorte que os Pieter Botha, ou ainda mais, pois Pieter Botha é somente um braço, mas eles são o cérebro.

 

 

Qual é o significado da próxima cúpula da OUA para Burkina Faso?

 A próxima cúpula da OUA [Organização de Unidade Africana] deverá constituir um marco extremamente importante na tomada de consciência, mas, sobretudo na mobilização efetiva das energias multiformes contra o apartheid e igualmente contra os demais males que acossam a África, particularmente o endividamento.

 

Um endividamento que devemos denunciar como a segunda pilhagem, um roubo em segundo plano, de segundo grau dos recursos africanos. Fomos colonizados, explorados. Nossos recursos foram saqueados. Hoje, todavia, querem que reembolsemos dividas que nunca contraímos para nossa felicidade, mas que nos foram impostas por estes mesmos que em desdobramento de seu capitalismo, julgaram indispensável criar novos mercados, invadi-los e dominá-los pelo poder financeiro.

 

Camarada Presidente, em breve, Burkina Faso celebrará o terceiro aniversário de sua revolução. Qual é a situação atual de Burkina Faso?

Burkina Faso encontra-se na trajetória luminosa das vitórias revolucionárias. A edificação de uma nova sociedade que beneficie um povo que tem sofrido por muitíssimo tempo, mas que, por sorte, desde 4 de agosto de 1983 com a chegada da revolução democrática e popular, vê se com a possibilidade de vislumbrar um futuro de novo tipo. Nossa revolução de três anos está se consolidando. Numerosas conquistas sociais constituem uma lista infinita de vitórias no campo da saúde.

 

Temos conquistado numerosas vitórias no campo da educação. Milhares de escolas foram construídas. No campo da saúde tem se construído muitos e muitos postos médicos, instalar um posto por aldeia: este foi o slogan.

 

Uma campanha de vacinação estendeu-se a todo o país e inclusive crianças de países irmãos e vizinhos foram vacinadas em todo largo da fronteira sem ser levado em conta o regime político, sem levar em conta a discórdia existente entre nós e um ou outro vizinho. Fizemos em nome do amor pelos demais povos. Mas, estamos conseguindo outras vitórias econômicas e o plano quinquenal que se inicia no próximo 4 de agosto, ao mesmo tempo que os atos de celebração do terceiro aniversário, serão um desafio que nosso povo deverá vencer e que vencerá com certeza para a edificação de uma sociedade ainda mais feliz, para que os leve a um futuro radiante. Mas, sobretudo politicamente, nossa revolução seguindo adiante a passos largos, elaborando nossa tática e estratégia, armados com a ideologia que nos ensinaram os grandes educadores do proletariado, estamos construindo uma organização política.

 

Como Lênin dizia, sem organização revolucionária, sem ideologia revolucionária, não haverá revolução. São por todas estas razões que nosso povo está cada vez mais seguro que o difícil combate que o espera será um combate vitorioso, porque as forças revolucionárias organizam-se cada vez mais sobre uma base sã, uma base ideológica clara e uma unidade de ação dinâmica, pois, para conseguir mais para o proveito de todo nosso povo e para o proveito de outros povos que já dizemos aqui que quem ama seu povo ama a todos os povos. Quero aproveitar para saudar o povo cubano, a Revolução Cubana e especialmente ao grande camarada Fidel Castro pela clarividência e o sentido internacionalista do compromisso de Cuba. É por isso que em Cuba, como dizemos aqui “Pátria ou Morte, Venceremos”.

 

Camarada Presidente, para encerrar, gostaria que transmitisse uma mensagem pessoal a Nelson Mandela.

Direi a Nelson Mandela que nenhum sofrimento é desejável para um ser humano, com ressalvas aos masoquistas. Mas, quando se sofre, quando se suporta a pena e o martírio por outros homens, por povos inteiros, só se pode ser feliz, já que se conquista o milagre de transformar a pena, a dor e o martírio numa sublime felicidade, numa vitória radiante para o proveito dos demais homens, a humanidade se irradia de uma seiva vivificante, uma seiva que desperta aos mais temerosos e que empurra adiante e mais acima os que já estão comprometidos. Neste sentido, Nelson Mandela na prisão é mil vezes mais livre, mil vezes mais feliz que aqueles que fora da prisão, consomem sob a exploração do homem pelo homem, ou ainda pior, aos que servem os interesses objetivos dos inimigos dos povos, especialmente do imperialismo arrogante do nosso tempo.

 

Thomas Sankara, entrevista concedida à Radio Havana - Cuba

 

Publicado pela primeira vez na edição de 19 de julho de 1986 do diário cubano, Granma.

 

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