Gorki: "Resposta para um Intelectual"

08/12/2018

 

Vocês escrevem: “Muitos intelectuais na Europa Ocidental estão começando a sentir que eles são pessoas sem uma pátria, e nossos pensamentos estão voltando mais e mais em direção à vida na Rússia. Ao mesmo tempo, o que está de fato acontecendo na União Soviética ainda está nublado em nossas mentes.”

 

A União Soviética é a cena de uma luta entre a vontade nacionalmente organizada das massas trabalhadoras e as forças da espontaneidade tanto na natureza como no homem. Essa “espontaneidade” no homem é nada mais nada menos que a anarquia instintiva do indivíduo que se tornou enraizada no curso das eras através através da sua opressão por sua condição de classe.

 

Essa luta é a soma e substância da realidade na União Soviética. Qualquer um que deseja sinceramente entender o significado profundo das mudanças culturais revolucionárias que tomaram a velha Rússia só compreenderá sua importância se considerarmos esse processo como uma luta pela cultura e pelas potencialidades criativas da cultura.

 

Vocês ocidentais adotaram uma atitude para com o povo da União Soviética que eu dificilmente considero digna de pessoas que consideram elas mesmas como apóstolos de uma cultura que julgam indispensável para todo o mundo. É uma atitude de um comerciante à seu cliente, de um credor à seu devedor. Vocês se lembram que a Rússia czarista pegou emprestado dinheiro de vocês e aprenderam de vocês como pensar; mas vocês se esquecem que esses empréstimos renderam a seus industriais e comerciantes lucros extraordinariamente suculentos, e que a ciência russa dos séculos XIX e XX contribuíram muito para o fluxo geral da pesquisa científica europeia. Hoje, quando é tão angustiantemente claro que seu poder criativo na esfera da arte está em declínio, vocês estão vivendo nas forças, ideias e formas da arte russa. Vocês não podem contradizer o fato de que a música e a literatura russa, para não serem superadas pela ciência russa, há muito tempo ganharam um lugar honrado no corpo da cultura mundial.

 

Poderia parecer que um povo qual a capacidade espiritual criativa cresceu no curso de um século até alturas comparáveis com as atingidas pelo resto da Europa no curso de muitos séculos, um povo que acabou de ganhar liberdade no uso de seus poderes criativos, merece um estudo e atenção mais aprofundados do que os intelectuais da Europa atribuíram-lhe até agora.

 

Já não é a hora de vocês de uma vez por todas mudarem suas cabeças e se perguntarem: Quais são exatamente as diferenças entre os objetivos da burguesia da Europa e os dos povos da União Soviética? É suficientemente claro agora que os líderes políticos da Europa não servem “a nação como um todo”, mas serve grupos mutuamente hostis de capitalistas. Essa hostilidade mútua entre os líderes dos grandes negócios, que são desprovidos de qualquer senso de responsabilidade com suas respectivas “nações”, resultou em uma série de crimes contra a humanidade similares ao holocausto mundial de 1914-18. Intensificou a desconfiança mútua entre nações, transformou a Europa num amontoado de campos armados, e agora despeja enormes quantidades de trabalho do povo, ouro, e ferro na fabricação de munição que vai perpetrar novos massacres. Por causa deste antagonismo entre os capitalistas, a crise econômica mundial, que drena os recursos físicos da “nação” e paralisa o crescimento de suas forças intelectuais, tem sido nitidamente agravada. Essa inimizade entre ladrões e mascates está preparando o caminho para uma nova carnificina mundial.

 

Perguntem a vós mesmos: Qual o propósito servido por tudo isso? E, principalmente, se vocês querem sinceramente serem aliviados do seu fardo de dúvida e sua atitude negativa em relação a vida, ponderem sobre esta mais simples das questões sobre a ordem social existente. Sem se deixar levar pelas palavras, pensem seriamente sobre os objetivos gerais da existência capitalista – ou, para ser mais exato, para o caráter criminoso de sua existência.

 

 Dizem que vocês intelectuais “valorizam a cultura, cujo significado universal é incontestável.” É realmente assim? De baixo de seus narizes o capitalismo está firmemente dia após dia destruindo essa preciosa cultura na Europa, e pelas suas políticas desumanas e cínicas nas colônias estão certamente criando uma tropa de inimigos da cultura européia. Se esta “cultura” predatória de vocês está produzindo alguns milhares de ladrões de mentalidade semelhante nos continentes amarelo e preto, não se esqueçam que algumas centenas de milhões ainda se mantêm entre o rebanho dos saqueados e indigentes. Hindus, chineses, e anamitas curvam as cabeças ante seus canhões, mas isso não significa nem um pouco que eles veneram a cultura europeia. E eles estão começando a descobrir que na União Soviética um tipo diferente de cultura está brotando, diferente em forma e significância.

 

“Pagãos e selvagens vivem no oriente”, vocês declaram; e como prova dessa assertiva vocês falam repetida e tediosamente sobre a posição das mulheres no oriente. Entremos então nessa questão de selvagens (...)

 

Existem evidencias demais de selvageria na Europa burguesa, e pega mal para vocês falarem do barbarismo do oriente. O campesinato das nações que entraram na União Soviética está aprendendo rapidamente o valor da cultura genuína e a importância do papel que a mulher desempenha na vida. A verdade disso é completamente apreciada pelos operários e camponeses da China nas províncias onde os Soviétes já foram estabelecidos. Os hindus, também, vão aprender a entender. Todas as massas trabalhadoras do nosso planeta devem cedo ou tarde descobrir a estrada para a liberdade. É precisamente por essa liberdade que elas estão lutando por todo o mundo.

 

No mundo capitalista a luta por petróleo, por ferro, e pelo armamento de milhões em preparação para um novo massacre, enraivece-se com crescente furor. É uma luta conduzida por uma minoria pelo direito à opressão política e econômica da maioria... Essa luta exterminou por completo o “humanismo”, que era tão querido aos corações dos intelectuais europeus e do qual eles eram tão orgulhosos.

 

Nunca antes os intelectuais expressaram tão claramente seu desamparo e sua vergonhosa indiferença a vida como eles fizeram no século XX, tão cheio de tragédias criadas pelo cinismo das classes dominantes. Na esfera política, os sentimentos e ideologia dos intelectuais estão sob os pés de aventureiros servindo humildemente a vontade dos grupos capitalistas, que permuta tudo que é comercializável e, no final, sempre barganha a energia do povo. Com a palavra “povo” eu não quero dizer somente os operários e camponeses, mas também os pequenos oficiais e o exército de “empregados” do capitalismo, e os intelectuais como um todo – ainda um remendo brilhoso nos farrapos imundos da sociedade burguesa.

 

Os intelectuais não entenderam a importância histórica da Revolução de Outubro e não resistiram, nem ao menos desejaram protestar contra a sangrenta e predatória intervenção capitalista de 1918-21. Eles protestam quando um professor monarquista ou conspirador é preso na União Soviética, mas se mantém indiferentes quando seus capitalistas violam os povos da Indochina, Índia e África. Quando, na União Soviética, meia centena de criminosos infames são executados, os intelectuais estrangeiros enchem o ar com seus gritos clamorosos contra a selvageria; mas quando, na Índia ou no Anam¹, milhares de pessoas inocentes são varridas por canhões ou metralhadoras, estes intelectuais humanistas ficam modestamente silenciosos. Eles ainda não são capazes de traçar conclusões dos resultados de anos de labuta e inestimável energia gastos na União Soviética. Os políticos no parlamento e na imprensa enchem seus ouvidos com contos de como o trabalho dos Sovietes é direcionado exclusivamente para a destruição do “velho mundo” e eles não falham em acreditar que é isso mesmo.

 

Mas na União Soviética as massas estão assimilando rapidamente tudo que há de melhor e mais precioso na herança cultural da humanidade. Este processo de assimilação é acompanhado por um processo de desenvolvimento dessa herança. Naturalmente, nós estamos destruindo o velho mundo, pois devemos libertar o homem da multiplicidade de grilhões que tem impedido seu crescimento intelectual e libertar sua mente da superstição e todos gastos conceitos de classe, nacionalidade e igreja.

 

O objetivo fundamental do processo cultural na União Soviética é a unificação de todos os povos do mundo em um indivisível inteiro. Este trabalho é ditado por todo o curso da história da humanidade; é o início não meramente de uma renascença nacional, mas de uma renascença mundial. Indivíduos como Campanella, Thomas More, Saint-Simon, Fourier, e outros sonhavam com isso em uma época que a técnica industrial necessária para a realização desse sonho ainda era inexistente. Agora todas as condições necessárias existem. O sonho dos utopistas encontrou uma base firme na ciência, e o trabalho de realizar este sonho está sendo levado por milhões. Em outra geração vão haver quase 200 milhões de trabalhadores engajados nesse trabalho somente na União Soviética.

 

Quando as pessoas não querem entender ou não tem força o suficiente, eles tomam refúgio em crenças cegas.

 

Instinto de classe, a psicologia do pequeno proprietário e a filosofia daqueles que apoiam cegamente a sociedade de classes, força esses intelectuais a acreditar que a expressão individual é sufocada e reprimida na União Soviética, que a industrialização do país está procedendo por meios do mesmo tipo do trabalho forçado que construiu as pirâmides do Egito. Isso não é uma mentira qualquer, mas o tipo de mentira óbvia que engana apenas aqueles que são completamente impotentes e sem senso algum de responsabilidade pessoal, pessoas que estão vivendo em um estado de decadência completa, que a energia intelectual e pensamento crítico foram completamente extintos.

 

A rapidez com que grandes números de pessoas talentosas estão emergindo em todos os aspectos da vida – na arte, ciência e tecnologia – conclusivamente refuta o mito da repressão da individualidade na URSS. Não poderia ser de outro jeito numa terra onde a população toda é trazida para dentro do processo cultural.

 

De 25 milhões de “proprietários”, camponeses semianalfabetos ou completamente analfabetos oprimidos pela autocracia dos Romanovs e a burguesia rural, 12 milhões já começaram a apreciar a razoabilidade e as vantagens da agricultura coletiva. Esta nova forma de trabalho liberta os camponeses de seus instintos pelo conservadorismo e anarquismo bem como da mentalidade animalesca comum aos pequenos proprietários. O oferece lazer considerável, que ele usa para liquidar seu próprio analfabetismo. Nos dias de hoje, em 1931, existem 50 milhões de adultos e crianças frequentando escolas; e a literatura planejada e lançada nesse ano chega à 800 milhões de livros, ou mais ou menos 50 bilhões de páginas impressas. A demanda popular já atingiu 80 bilhões de páginas, mas as fábricas não podem fornecer essa quantidade de papel.

 

A sede de conhecimento está crescendo. Desde o estabelecimento da União Soviética dúzias de institutos de pesquisa científica, novas universidades, e escolas politécnicas foram fundadas. Todas elas estão abarrotadas com multidões de jovens estudantes, enquanto os operários e camponeses estão constantemente desenvolvendo milhares de novos líderes da cultura.

 

Algum dia já foi, e poderá algum dia ser, o objetivo de um Estado burguês trazer todos os milhões de pessoas trabalhadoras para dentro das atividades culturais? A história responde essa simples questão negativamente. O capitalismo promove o desenvolvimento mental dos trabalhadores somente até onde é necessário e lucrativo para a indústria e comércio. O capitalismo precisa de seres humanos somente como uma mais ou menos barata fonte de energia para a defesa da ordem existente.

 

O capitalismo não atingiu e nunca poderá atingir a simples conclusão de que o objetivo e significância da cultura genuína é o desenvolvimento e acumulação de energia intelectual. Para que essa energia se desenvolva ininterruptamente e deste modo auxiliar a humanidade o mais cedo para se usar todas as forças e presentes da natureza, é essencial libertar o máximo de energia física dessas labutas anárquicas e sem sentido que servem aos interesses gananciosos dos capitalistas, saqueadores e parasitas da humanidade trabalhadora. O conceito de humanidade como um armazém cheio de um enorme suprimento de energia intelectual é completamente estranho para os ideólogos do capitalismo. Apesar de toda a sua astúcia em manejar a caneta e sua eloquência nas palavras faladas, a ideologia daqueles que defendem o papel da minoria sobre a maioria é essencialmente bestial.

 

Estados de classe são construidos à moda de jardins zoológicos onde todos os animais estão aprisionados em jaulas. Em estados de classe essas jaulas, construídas com variados graus de habilidade, servem para prolongar aquelas ideias que dividem a humanidade e previnem o desenvolvimento de uma consciência no homem sobre seus prórprios interesses bem como o nascimento de uma cultura genuína abraçando toda a humanidade.

 

É necessário para mim, que eu negue que o indivíduo na União Soviética é restringido? Claro que não, e eu não o nego. Na União Soviética a vontade do indivíduo é restringida quando vai de contra à vontade das massas, que estão cientes do seu direito de construir novas formas de vida; que deram a si mesmas uma tarefa além do poder de qualquer indivíduo sozinho mesmo que ele seja dotado com o gênio de um super homem. As linhas de frente dos operários e camponeses na União Soviética estão avançando em direção ao seu próprio sublime ideal, heroicamente superando uma multidão de obstáculos e dificuldades.

 

O indivíduo defende sua falsa liberdade e aparente independência dentro de sua jaula. As jaulas em que os escritores, jornalistas, filósofos, oficiais do governo, e todas as outras engrenagens bem lubrificadas da máquina capitalista é naturalmente mais confortável que as jaulas dos camponeses. A cabana enfumaçada e imunda dos camponeses e seu “pedacinho privado de chão” o deixa alerta, em vigia contra a caprichosa destrutividade das forças elementares da natureza, e contra os ataques dos capitalistas que o esfola vivo. Os agricultores da Calabria, Bavária, Hungria, e Grã-Bretanha, da África e da América, não são muito diferentes um do outro psicologicamente, exceto no uso da linguagem. Por todo globo os camponeses vivem da mesma maneira mais ou menos isolada e infectada pelo individualismo primitivo. Na União Soviética, o camponês perde progressivamente esta mentalidade específica de escravo da terra, de eterno prisioneiro da sua miserável propriedade.

 

O individualismo é o resultado da pressão exterior feita sobre o homem pela sociedade de classes; o individualismo é uma tentativa estéril do indivíduo para se defender contra a violência, mas a autodefesa não é outra coisa senão a autolimitação. Pois o processo de crescimento da energia intelectual torna-se mais lento quando se está em estado de autodefesa. Este estado é também prejudicial à sociedade e ao indivíduo. As "nações" gastam milhões em armamento contra os seus vizinhos; o indivíduo esgota a maioria das suas forças para se defender contra a violência de que é objeto por parte da sociedade de classes.

 

A vida é uma luta? Sim, deve ser uma luta do homem e da humanidade contra as forças da natureza, uma luta para as vencer e dirigir. O Estado de classe transformou esta luta grandiosa numa batalha abjeta pelo domínio da energia física do homem para a sua servidão.

 

O individualismo do intelectual dos séculos XIX e XX diferencia-se muito do individualismo do camponês, mas apenas pelas formas de expressão: é mais floreado, mais polido, mas também animal e cego. O intelectual está entre a espada do povo e a parede do Estado; as condições em que ele vive são, em geral, naturalmente penosas e dramáticas, pois o ambiente é-lhe habitualmente hostil. É por isso que o pensamento prisioneiro do intelectual o faz muitas vezes transferir para o mundo inteiro o peso das suas próprias condições de vida, e é destas concepções subjetivas que nascem o pessimismo filosófico, o ceticismo e outras deformações do pensamento. (…) O sistema social de classes atual restringe a liberdade de crescimento do indivíduo. É por isso que ele procura o seu lugar e procura o repouso fora dos limites da realidade.

 

Por exemplo, a questão de Deus. O povo trabalhador, na procura de uma explicação dos fenômenos naturais que lhes eram úteis ou prejudiciais, personificou magnificamente estes fenômenos sob a forma de seres com uma figura humana, mas mais poderosos do que qualquer homem. O povo adornou os seus deuses com todas as qualidades e todos os defeitos que ele próprio tinha; os deuses do Olimpo são homens com dimensões exageradas; Vulcano e Thor são ferreiros que em nada se distinguem de todos os outros ferreiros e apenas são mais fortes, mas não mais hábeis no trabalho.

 

As imagens religiosas criadas pelo povo trabalhador são simplesmente criações artísticas das quais o misticismo está ausente; são completamente realistas e adequadas à realidade, sente-se com força a influência da atividade laboriosa, e o objetivo desta arte consiste, em resumo, em encorajar esta atividade.

 

Na poesia, verifica-se que o povo tomou consciência do fato que, afinal de contas, a atualidade foi criada, não pelos deuses, mas pela atividade laboriosa dos homens. O povo é idólatra.

 

Mesmo quinhentos anos depois de o cristianismo se ter afirmado na sua qualidade de religião de Estado, os deuses, na imaginação dos camponeses, apresentam-se sempre como eram na antiguidade: Cristo, a Virgem, os santos caminham sobre a terra e misturam-se com a vida laboriosa das pessoas, do mesmo modo que os deuses dos antigos gregos e dos povos escandinavos. O individualismo nasceu da “economia privada”. Cada clã, juntando-se ao clã anterior, criava uma coletividade. Um indivíduo escapando, por uma razão ou por outra, à coletividade e, por isso mesmo, à realidade que se criava constantemente, criava o seu próprio deus, único, místico, inacessível à inteligência, cujo objetivo era justificar o direito do indivíduo à independência e ao poder. Aqui o misticismo se torna indispensável, porque o direito do indivíduo de governar absolutamente, pela “autocracia”, não pode ser explicado pela razão. O individualismo dotou seu deus com as qualidades de onipotência, sabedoria infinita, e inteligência absoluta – com qualidades que o homem não poderia possuir, mas que desenvolve somente através da realidade criada pelo trabalho coletivo. Esta realidade fica sempre a um nível inferior da mente humana, que a cria e, ainda que lentamente, está constantemente se aperfeiçoando. Na sua falta, a realidade, de fato, iria satisfazer as pessoas, e um estado de satisfação é um estado passivo. A realidade é criada pela vontade incansável e inteligente dos homens, e seu desenvolvimento nunca será parado.

 

O deus místico dos individualistas sempre esteve e sempre estará imóvel, inativo, criativamente morto. Não pode ser de outra forma, vendo que esse deus reflete a fraqueza inerente das forças criativas do individualismo. A história das hesitações estéreis dos individualistas, mergulhados em suas especulações religiosas e metafísicas, são bem conhecidas por todas as pessoas educadas. Em nosso próprio tempo a futilidade dessas sutilezas especulativas bem como a completa falência da filosofia do individualismo foi clara e irrefutavelmente exposta. Mas o individualista ainda continua sua jornada improdutiva pela resposta do “sentido da vida”. Ele o busca não na realidade do trabalho, que está se desenvolvendo em todas as direções em ritmo revolucionário, mas nas profundezas de seu ego. Ele continua a se agarrar a sua pequena e miserável “propriedade privada” e não tem desejo de enriquecer a vida. Ele está ocupado cogitando medidas de autodefesa; ele não vive, se esconde; em sua “atividade contemplativa” ele lembra o herói bíblico, Onã.

 

Humildemente se sujeitando às exigências do Estado capitalista, os intelectuais da Europa e América – os escritores, publicistas, os economistas, os ex-socialistas que tem se tornado simples aventureiros sonhadores do tipo de Ghandi – conscientemente ou inconscientemente defendendo a sociedade de classes burguesa, uma sociedade que impede obstinadamente o processo de desenvolvimento da cultura humana. Neste processo a vontade das massas trabalhadoras, direcionada à criação de uma nova realidade, tem o papel mais importante. Os intelectuais acham que eles estão defendendo a “democracia”, muito embora essa liberdade esteja aprisionada numa jaula de ideias que impõe limitações agudas sobre o crescimento individual. Eles defendem “a liberdade da imprensa”, entretanto a imprensa está a reboque e a chamado dos capitalistas e só pode servir aos seus interesses anárquicos, desumanos e criminosos. O intelectual trabalha para seu próprio inimigo; pois o patrão sempre foi inimigo do operário. A ideia de “colaboração de classe” é tão ingênua e absurda quanto a amizade entre lobos e ovelhas.

 

Os intelectuais da Europa e da América estão trabalhando para seus inimigos, como é mostrado numa maneira particularmente evidente e desavergonhada através de sua atitude com o processo revolucionário cultural que começou entre as massas operárias e camponesas na União Soviética. Este processo está se desenvolvendo em uma atmosfera de hostilidade frenética na parte da burguesia europeia, e sob a ameaça de um perverso ataque na União Soviética. A influência desses dois fatores serve para explicar completamente esses fatos negativos que os inimigos dos operários e camponeses da União Soviética gostam tanto de enfatizar.

 

Os políticos de baixo nível da emigração branca, que são os informadores credenciados da imprensa burguesa européia, ocupam-se da compatibilidade destes fatos negativos da atualidade soviética. Quem são estes emigrados? A maioria deles é constituída por políticos falhados, pessoas que gostam das pequenas glórias, gentinha de “grandes esperanças”. Uns querem tornar-se os Masaryks, outros os Briands e Churchills, muitos uns Fords; e é igualmente característico que todos estes políticos tenham procurado atingir posições de comando empregando “meios caducados”.

 

Conheço muito bem, e há muito tempo, a sua nulidade moral e intelectual; já o demonstraram em 1905-1907, depois da sua primeira revolução. Depois, demonstraram diariamente a sua incapacidade na Duma e manifestaram-se, com toda a clareza de que eram capazes, em 1914-1917 enquanto “lutadores contra a autocracia”, na realidade campeões do chauvinismo panrusso. Adquiriram uma certa popularidade enquanto organizadores da consciência política da pequena e da grande burguesia; em suma, a sua ideologia é a do pequeno burguês mesquinho.

 

É conhecido o ditado russo: “Quando não há peixe, come-se lagostim-do-rio”. Eles desempenharam na vida da Rússia o papel do caranguejo: avançaram aos recuos. É o papel habitual da maioria dos intelectuais em período revolucionário.

 

O seu papel vergonhoso não se limita à mudança constante dos seus “bornes” políticos e ao esquecimento dos seus “juramentos de Aníbal”. Desde 1917, servem os proprietários dos poços de petróleo, das fábricas têxteis, das minas de carvão, os moageiros e os grandes proprietários fundiários russos e, ao mesmo tempo, do que resta dos generais czaristas, que os desprezavam anteriormente como renegados e “inimigos do czar”. Na história russa deixaram a imagem de traidores do seu povo. Durante o período de quatro anos eles traíram e venderam seu povo aos capitalistas, Sr. Intelectual Europeu. Eles ajudaram Denikin, Kolchak, Wrangel, Yudenich, e outros assassínos profissionais a destruir a economia nacional de seu país, já arruinada por uma carnificína que é a vergonha de toda a Europa. Com a ajuda desses vermes desprezíveis, dos generais dos capitalistas Europeus e do czar massacraram centenas de milhares de operários e camponeses da União Soviética. Eles queimaram centenas de aldeias e vilas cossacas, destruíram vias férreas, explodiram pontes, e devastaram tudo em seu caminho, levando seu país a beira da destruição para garantir a entrega para as mãos dos capitalistas Europeus. Se você perguntá-los por que eles ceifaram seu próprio povo e destruiu seus lares, eles responderiam descaradamente: “Pelo bem do povo” – e nem um pio sobre como aquele mesmo “povo” os atirou sem cerimônia para fora de seu país.

 

Após 1926 eles estavam envolvidos na organização de numerosos planos contra o Estado dos operários e camponeses. Não é necessário dizer que eles negam a participação nesses crimes, embora os conspiradores – seus amigos – confessem que eles armaram a imprensa com informações notoriamente falsas sobre as atividades dos Sovietes. Os conspiradores, por sua vez, eram guiados pela imprensa desses traidores de seu país.

 

Seu humanitarismo, cavalheiros da Europa, indignou-se com a execução merecida de 48 sádicos organizadores de fomes[2]. Isto é muito estranho. Por que não se indignaram pelos assassinatos quase diários de operários absolutamente inocentes, cometidos pela polícia nas ruas das vossas aldeias, em vez de tomar a defesa de 48 degenerados mais abjetos do que o sádico Kurten de Düsseldorf, nove vezes condenado à morte.

 

Não conheço os motivos pelos quais o poder dos Sovietes não fez passar estes traidores pela justiça, mas adivinho-os: há crimes cuja infâmia é demasiado agradável aos inimigos, e dar lições de infâmia aos nossos inimigos seria demasiado ingênuo. (…) É permitido perguntar por que defendem os intelectuais a “liberdade individual”, sempre que se trata, por exemplo, do professor monárquico S.I. Platonov, mas permanecem indiferentes sempre que se trata de um comunista?

 

Se querem ter uma noção exata do grau de ferocidade a que chegou a emigração russa, leiam o apelo à recolha de fundos a favor da luta contra os povos da União Soviética, apelo que foi publicado pelo órgão parisiense dos emigrados monárquicos Vozrojdénié (A Renascença). À cabeça desta manobra baixa encontra-se “Sua Eminência o metropolita Antônio, presidente do sínodo dos arcebispos da Igreja ortodoxa no exterior da Rússia”.

 

Cito textualmente as palavras dele:

 

“Investido do poder divino, dou a minha bênção a qualquer arma que seja dirigida contra o poder satânico vermelho e concedo a absolvição a todos os que, nas fileiras dos destacamentos de rebeldes, ou a quem na qualidade de vingador individual do povo, sacrificar a sua vida à causa da Rússia de Cristo.

 

Sobretudo bendigo as armas e qualquer ação combativa da Confraria popular da verdade russa que, há anos, pela palavra e pela ação, conduz uma luta sem tréguas em nome de Deus e da Rússia contra o Satã vermelho. Que a bondade do Eterno seja com todos os que venham a fazer parte da confraria ou venham em seu auxílio”.

 

Está completamente claro que o metropolita, chefe da Igreja cristã, abençoa os que violentam a vontade do povo e da União Soviética e que praticam atos de terrorismo.

 

Mas não vos parece que tais apelos, tais bênçãos aos assassinatos concedidas por um padre cuja cólera atinge evidentemente a idiotia, não têm lugar na capital de um Estado “civilizado”? Não pensais que é preciso gritar “Chiu!” ou mandar calar “delicadamente” “Sua Eminência”?

 

Este ataque selvagem de um papa russo não é para vocês um indício que mostra não apenas o grau de ferocidade da emigração russa, mas também uma indiferença extrema, vergonhosa, dos intelectuais da Europa no que diz respeito às questões de moral e de higiene social? E ousa falar da “selvageria do Oriente!”

 

Estão convencidos da veracidade dos testemunhos da emigração russa. Pois bem. Não vou dizer que é um “assunto pessoal” vosso, mas duvido de que seja direito vosso. Duvido, porque os testemunhos que vêm do outro lado, do lado do poder operário e camponês não vos interessam.

 

A imprensa soviética não esconde os aspectos maus da nossa vida, pois está organizada sobre o princípio da autocrítica mais severa, e não há “roupa suja” de que ela tenha medo de “lavar fora de casa”.

 

Ela trabalha entre milhões de homens que ainda não são muito letrados – o que não se lhes pode censurar – mas as pessoas honestas deveriam lembrar-se bem que o homem pouco instruído pode enganar-se facilmente. E depois é preciso saber que a maioria das calúnias e das mentiras de que vive e com cuja difusão se consola a imprensa dos emigrados está assente em dados da autocrítica soviética.

 

Pessoalmente, protestei na imprensa e nas reuniões, em Moscou e em Leningrado, contra os exageros da autocrítica. Sei com que voluptuosidade o emigrado se agarra a tudo o que é para satisfazer, ainda que com pouco, a sua cólera doentia contra os operários e os camponeses da União Soviética.

 

Publiquei, não há muito tempo, um artigo na imprensa soviética a respeito do livro de Brehm que foi arrasado por um literato que, não sendo um aprendiz, é negligente e pouco letrado. De imediato, o redator do Roui[3], Joseph Hessen, um velhinho muito burro e comicamente colérico, publicou uma manchete na qual, com uma alegria risível, exclamava: “O próprio Gorki critica o poder dos Sovietes!”

 

Ele sabe perfeitamente que eu nunca me incomodei por dizer a verdade frente a pessoas que trabalham negligentemente e sem consciência. Mas é-lhe impossível não mentir e o mesmo acontece com os “políticos” emigrados.

 

Existe uma forma especial de “verdade”; serve de alimento espiritual apenas aos misantropos, aos céticos cujo ceticismo se baseia na ignorância e aos indiferentes que procuram uma justificação para a sua indiferença. Esta é uma “verdade” pútrida, e moribunda; esta lavagem só serve para porcos. Esse tipo de verdade está sendo podada, raiz e galhos, pelo trabalho da vanguarda dos construtores de uma nova cultura na União Soviética. Eu entendo muito bem como essa “verdade” interfere no trabalho da gente honesta; mas eu me oponho a ideia de dar alimento e consolo para as pessoas que foram justamente humilhadas pelo veredito da história.

 

Vocês perguntam: “Existem elementos descontentes entre os operários e camponeses, e quais as causas do seu descontentamento?” Para ser claro, não existe classe distinta de pessoas descontentes; mas seria um milagre de fato, depois de só treze anos de trabalho sob a ditadura do proletariado, se 160 milhões de pessoas encontraram satisfação absoluta de todos seus desejos e vontades. Tal descontentamento como existe é prontamente explicado pelo simples fato de que o aparato de produção e distribuição não consegue acompanhar o rápido crescimento das necessidades culturais das massas trabalhadoras em um tempo tão curto como treze anos. Existe uma escassez de muitas coisas e pouquíssimas pessoas reclamam.

 

Poder-se-ia julgar tais reclamações como cômicas, pois são prematuras e carecem de reflexão; mas não as chamarei assim porque elas são expressadas com a firme e certa convicção de que o poder Soviético é capaz de satisfazer todas as necessidades do país. Naturalmente, aqueles antigos camponeses ricos que esperavam que a revolução os tornariam agricultores de larga escala e grandes proprietários de terras e que entregaria os camponêses pobres à suas mãos, estão insatisfeitos e até mesmo ativamente opostos ao governo soviético. Não é preciso dizer que essa parte do campesinato estaria antagônica à coletivização e a favor da propriedade privada, trabalho assalariado, e toda parafernalia burguesa que levaria inevitavelmente ao renascimento das formas de vida capitalista. Mas o jogo jogado por essa parte do campesinato já está perdido, sua resistência à agricultura coletiva é sem esperanças e só continua através da completa inércia.

 

Nas fileiras mais ativas de operários e camponeses, nenhuma reclamação é ouvida. Eles trabalham. Eles sabem muito bem que eles são o governo, que todas suas necessidades e desejos só podem se satisfazer pelo ímpeto de seus próprios esforços. É essa compreensão de sua própria abundante força e seu poder absoluto que provoca manifestações populares como concursos socialistas, brigadas de choque e outros sinais inconfundíveis de atividade criativa e heroísmo do trabalho. É pela força dessa consciência disso tudo que toda uma série de empresas completaram seus planos quinquenais em dois anos e meio.

 

Os trabalhadores estão entendendo a coisa que é essencial para eles entenderem: que o poder está nas próprias mãos deles. Nos estados burgueses, as leis são conhecidas e distribuídas de cima pra baixo; elas são feitas com o propósito de fortalecer o poder da classe dominante. A legislação na União Soviética se origina dos mais baixos corpos, nas vilas Soviéticas e nos comitês de fábrica. Se vocês observarem o curso de qualquer dessas legislações, vocês estarão prontamente convencidos de que essas medidas não se limitam a atender uma necessidade imediata das massas operárias, mas são prova convincente do crescimento cultural dessas massas.

 

As massas operárias e camponesas da União Soviética estão começando a entender que o processo do seu avanço material e desenvolvimento cultural está sendo adulterado artificialmente por hostis capitalistas europeus e americanos. Entender isso, é claro, aumenta muito sua autoconsciência política e sua própria força.

 

Se os intelectuais da Europa e dos Estados Unidos, ao invés de ouvirem fofoqueiros, ao invés de acreditarem em traidores, parassem para pensar séria e honestamente na significação histórica do processo que está se desenvolvendo na União Soviética, eles entenderiam que o objetivo de todo esse processo é a assimilação dos inestimáveis tesouros da cultura universal por uma nação de 160 milhões de pessoas. Eles entenderiam que esta nação trabalha não só para si mesma mas para toda humanidade, ao mesmo tempo revelando à humanidade que milagres podem ser realizados pela vontade inteligentemente organizada das massas.

 

Por fim, eu devo categoricamente perguntar essa questão: Os intelectuais da Europa e dos Estados Unidos querem um novo massacre mundial que reduza ainda mais suas fileiras e aumente tanto sua impotência quanto sua selvageria? As massas de operários e camponeses da União Soviética não querem uma guerra. Elas querem criar um estado onde todos serão iguais. Mas no evento de um ataque elas levantarão para se defender como um inteiro indivisível, e serão vitoriosas pois a história está trabalhando para elas.

 

NOTAS

[1] O Anam (sul pacificado) era o nome do protetorado chinês sobre uma parte do território que forma hoje o Vietnam, de 618 a 939, antes da independência do Dai-Viet. Depois, a palavra continuou a ser empregada pelos chineses para designar o Vietnam; o seu uso foi depois retomado pelos ocidentais para designar o Vietnam no seu conjunto. Por último, o nome serviu para designar o protetorado francês de Aname de 1883 a 1945, no centro da Indochina francesa, chamando-se o norte do Vietnam Protetorado francês de Tonkim e o sul Cochinchina francesa. O termo "Vietnam" no sentido do seu uso moderno impôs-se depois de 1945 (http://fr.wikipedia.org/wiki/Annam).

[2] Um grupo de oficiais na indústria alimentícia e de estoque de plantas que se dedicaram a atividades destrutivas.

[3] Folha dos emigrados contrarrevolucionários publicada em Berlim.

 

 

por Máximo Gorki em 1931

 

Tradução de Henrique Vilhena

 

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