"Haiti e sua crise sócio-política perene"

30/11/2018

 

O Haiti voltou ao normal após uma turbulenta semana social e política, cujos custos em todas as áreas ainda precisam ser determinados.

 

Instituições de ensino, transporte, administração pública, hospitais e centros comerciais retomaram suas atividades após a chamada para a greve geral que manteve inativo durante cinco dias na capital e outras cidades-chave como Cap Haitien, Les Cayes e Miragone.

 

Em meio à profunda crise gerada por uma mobilização contra a corrupção e também exigiu mudanças imediatas na estrutura de poder, o presidente haitiano, Jovenel Moise, dirigiu-se à nação e reiterou sua disposição de dialogar com todos os setores nacionais.

 

Ele também pediu à oposição que espere as eleições para tomar o poder, em clara alusão à campanha antigoverno desencadeada por vários meios de comunicação, que chamam a população à violência e a permanecer nas ruas.

 

"Depois do processo eleitoral, tenho a responsabilidade de liderar o país com base no que a Constituição estabelece", disse o presidente, destacando que amanhã outro cidadão poderá realizar essa tarefa, mas sempre sob os princípios da Constituição.

 

Mas seu discurso não teve o efeito desejado. Um passeio pela cidade mostrou uma imagem de desolação, tédio e incerteza, mais preocupante do que as próprias mobilizações.

 

Apenas grandes empresas com fortes dispositivos de segurança prestavam serviços por algumas horas por dia, enquanto o mercado informal que alimentava mais de 80% da população trabalhadora.

 

Neste cenário juntou episódios de violência, especialmente no centro da cidade, confrontos entre gangues armadas para controlar os territórios, assalto a transporte médico de emergência, saques e roubos nas áreas mais carentes da capital.

 

A insegurança chegou ao auge e, como a mídia local relatou, a população, temerosa, começou a fugir dessas áreas, onde apenas os órgãos policiais puderam controlar a situação.

 

O CASO DO PETROCARIBE

 

Em 2005, o líder venezuelano Hugo Chávez fundou a plataforma de cooperação energética Petrocaribe, um dos inscritos no quadro da integração das políticas ALBA-TCP, e o próprio Chávez definido como um 'escudo antifome'.

 

Este acordo, ao qual se juntaram cerca de vinte países da região, incluindo o Haiti, ofereceu às nações insulares acesso ao barril bruto, com a possibilidade de pagá-lo dentro de 25 anos a uma taxa de juros de 1%.

 

Além disso, a Venezuela emprestou ao país cerca de três mil 800 milhões de dólares, que devem ser usados ​​para resolver os graves problemas da nação em alimentos, habitação, energia, ecologia, saúde, educação e infraestrutura.

 

Uma investigação do Senado do Haiti, divulgada em meados de 2017, mostrou que cerca de dois bilhões desses recursos públicos foram desviados pelos três últimos governos.

 

O inquérito, com 656 páginas, liderado pelo Comitê de Ética e Anticorrupção do Senado, detalha um pressuposto desvio envolvendo 14 altos funcionários e quatro grandes construtoras.

 

Entre os indexados, destacam-se os ex-líderes do governo Laurent Lamothe e Jean-Max Bellerive; o ex-ministro do Planejamento Yves Germain Joseph, o ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicação Jacques Gabriel e outros membros de um comitê do Ministério do Planejamento.

 

Quase um ano e meio da investigação, nenhum dos envolvidos ainda foi processado, levando centenas de milhares de haitianos às ruas para exigir o destino desses fundos.

 

Apesar dessa situação, mais de 70% dos projetos executados nos setores de energia, educação, agricultura, saúde, esportes e infraestrutura rodoviária nos últimos anos foram financiados pelo fundo Petrocaribe, como confirmado pelo representante diplomático do Haiti em Caracas, Greny Antoine, no 12º aniversário da assinatura do acordo de cooperação.

 

MANIFESTAÇÕES ANTICORRUPÇÃO

 

No último ano, o país tem sido palco de constantes protestos da administração estadual e da falta de políticas públicas que aliviem a situação dos mais desfavorecidos.

 

No entanto, desde meados de 2018, as manifestações anticorrupção estão ganhando força e estão sendo apoiadas por movimentos sociais, camponeses, bem como pela ala dura da oposição que aproveita a situação.

 

Julho abriu as portas para um estado geral de insurreição, como ele chamou de esquerda, que ainda não foi fechada. Nos dias 6 e 7 desse mês sem aviso a população saiu às ruas, bloquearam estradas e lojas queimadas saquearam símbolos da burguesia, a um aumento dos preços dos combustíveis, que empobrece ainda mais a já vulnerável classe trabalhadora.

 

As mobilizações de outubro e novembro foram outra coisa: cidadãos e organizações coordenados sob o eixo de responsabilizar o governo pela corrupção, como um dos principais males do Haiti.

 

As manifestações contra a má administração dos fundos de Petrocaribe deram uma guinada em direção a um protesto antissistêmico e contra o governo, que nada mais é do que a expressão de ódio de milhões de pessoas.

 

Porque depois da insatisfação, mais de 80% da população está abaixo da linha da pobreza, sobrevivendo com menos de dois dólares por dia e um quarto não pode cobrir suas necessidades básicas de alimentos.

 

O Haiti de hoje nada mais é do que o resultado de décadas de corrupção, intervencionismo estrangeiro extremo disfarçado de apoio à estabilidade, dívida externa, falta de soberania econômica e alimentar, desastres naturais, mas sobretudo políticas neoliberais com sérias consequências a curto prazo e a longo prazo.

 

Do Prensa Latina

 

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