Haywood: "A Luta pela Posição Leninista na Questão dos Negros nos EUA"

28/11/2018

 

O programa presente de nosso Partido sobre a questão do Negro foi primeiro formulada no Sexto Congresso da Internacional Comunista, em 1928. Na base da mais exaustiva consideração de todas as peculiaridades, desenvolvimento histórico, econômico, condições de vida e cultural do povo negro nos Estados Unidos como também a experiência do Partido em seu trabalho junto aos negros, este Congresso definitivamente estabeleceu o problema dos negros como a de uma nação oprimida entre aqueles que existiu todos os requisitos para um movimento revolucionário nacional contra o imperialismo Americano.

 

A estimativa foi uma concreta aplicação da concepção marxista-leninista da questão nacional para as condições dos negros e foi predicada sobre as seguintes premissas: primeiro, a concentração de grandes massas de negros nas regiões agrícolas do Cinturão Negro, onde constituem a maioria da população; segundo, a existência de fortes resquícios do antigo sistema escravista na exploração dos trabalhadores negros – o sistema de plantação baseado em meação, supervisão latifundiária das colheitas, escravidão da dívida, etc.; em terceiro, o desenvolvimento, na base destes escravos restantes, de uma superestrutura política de desigualdade expressa em todas as formas de proscrição e segregação social; negação de direitos civis, direito à terra, acesso a serviços públicos, participação em júris, como também nas leis e costumes do Sul. Este sistema vicioso é apoiado por todas as formas de violência arbitrária, o mais vicioso sendo a instituição Americana peculiar de linchamento. Tudo isso encontra sua justificativa teórica na teoria da classe dominante imperialista da inferioridade “natural” do povo negro.

 

A escravização das massas negras nos Estados Unidos é um importante sustentáculo do imperialismo Americano. O imperialismo Americano está fundamentalmente interessado na preservação dos escravos restantes na agricultura Sulista e na opressão nacional do povo negro como uma condição para a extração de superlucros. É a força que fica atrás da classe dominante branca Sulista (capitalistas e latifundiários) em sua direta e violenta pilhagem das massas negras no Cinturão Negro. Entretanto, as lutas de libertação das massas negras estão direcionadas contra a própria fundação da estrutura social capitalista-imperialista nos Estados Unidos.

 

Na época presente do imperialismo e revolução proletária a questão do negro nos Estados Unidos deve ser considerada como parte de uma questão colonial nacional, ou, em outras palavras, é parte de um problema mundial geral de liberdade dos povos oprimidos e dependentes dos grilhões do imperialismo...

 

As massas negras, antes aliadas da burguesia do Norte (durante a Guerra Civil e a Reconstrução), agora se tornaram aliadas do proletariado. Em sua luta para liberação nacional essas massas constitui uma parte importante do exército do proletariado revolucionário na luta para a derrubada do capitalismo Americano. Consequentemente, a vitória da revolução proletária nos Estados Unidos e a luta das massas negras para libertação nacional demanda a consumação de uma frente de luta unificada dos trabalhadores brancos e o povo negro contra o inimigo comum, - o imperialismo Americano. Tal frente unificada só pode ser eficiente na base de suporte direto e eficiente pela classe trabalhadora branca (como classe trabalhadora da nação opressora) para os esforços das massas negras para se libertarem do jugo imperialista. Nesta conexão é importante para se ter em mente do dito de Karl Marx para a classe trabalhadora inglesa na questão Irlandesa: “Um povo que oprimi outro povo não pode em si ser livre...”

 

As primeiras conquistas reais de nosso Partido na liderança das massas negras data do início da aplicação desta linha leninista. Um ponto de referência histórico no desenvolvimento de nosso trabalho Negro foi o julgamento público de August Yokinen. Neste julgamento o caso de discriminação por um membro branco do Partido contra Negros foi feita a ocasião para uma demonstração política no qual o programa do Partido na questão do Negro e a luta contra o chauvinismo branco foi dramatizada com um efeito sem precedente diante das vastas massas ao longo do país. O Camarada Browder em seu relatório diante de estudantes Americanos, em estimativa da importância deste julgamento, havia declarado “que era um desafio público dramaticamente lançado no rosto de um dos princípios básicos de relações sociais na América - a instituição Americana do Jim-Crowinismo... A expulsão de Yokinen, expressando nossa declaração de guerra contra o chauvinismo branco, exerceu uma tremenda influência para trazer as massas negras mais próximas de nós.”

 

Neste julgamento o Partido conquistou um grande passo à frente na educação de seus membros e das massas em volta do Partido em nosso programa na questão do Negro. Isso foi particularmente exemplificado no próprio Camarada Yokinen que, depois de seis meses, voltou ao Partido como um dos mais fiéis lutadores do seu programa da liberação do Negro e que, como resultado de sua posição corajosa e militante nesta questão, foi deportado pelo governo imperialista que odeia negros. O julgamento de Yokinen serviu para preparar o Partido ideologicamente para um interesse real na luta para os direitos do Negro.

 

O julgamento de Yokinen foi imediatamente seguido pela organização de um movimento de massa para salvar as vidas dos garotos de Scottsboro. Na base da preparação política através do julgamento de Yokinen o Partido foi capaz de trabalhar efetivamente acerca da trama destes garotos para desenvolver uma tremenda campanha de ação de massa e a exposição de todo o sistema de opressão nacional contra os negros. A campanha de Scottsboro marcou a primeira mobilização de massas no nível nacional pelo Partido de luta concreta contra um dos elementos básicos da opressão capitalista ao Negro – a instituição do linchamento. Através da luta nessa questão o Partido foi capaz de trazer seu programa diante das mais vastas massas de trabalhadores brancos e negros, estimulando entre eles grande simpatia e confiança. Scottsboro, como a primeira grande batalha conduzida pelo partido na frente da liberação nacional dos negros, fez muito para quebrar as barreiras tradicionais do chauvinismo e desconfiança nacional separando os trabalhadores negros e brancos. Esta luta, que foi unida à exposição política real do papel traidor da burguesia reformista negra do N.A.A.C.P (National Association for the Advancement of Colored People, ou “Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor”), acelerou o processo de diferenciação de classe entre os negros - a separação dos interesses dos proletários e semiproletários negros dos interesses gerais de “solidariedade de raça” como é propagada pelos burgueses nacionalistas negros. Os trabalhadores negros começaram a entender divisões de classe. Eles começaram a descobrir quem era seus amigos e quem era seus inimigos.

 

Apenas através da aplicação vigorosa de nosso programa leninista correto na questão do Negro o Partido poderia carregar e liderar tal luta como na campanha de Scottsboro. Essa campanha deu a ascensão ao movimento de participação em massa de trabalhadores negros em uma escala sem precedente nas lutas gerais da classe trabalhadora por todo o país. A grande greve dos mineiros de carvão de Pensilvânia, Ohio e Virgínia Ocidental que ocorreu em 1931, durante a primeira parte da campanha de Scottsboro, testemunhou uma participação maior de trabalhadores negros do que qualquer outra ação econômica liderada por sindicatos revolucionários. Grandes massas de trabalhadores negros se reuniram ao movimento dos desempregados, demonstrando uma militância sem igual nas ações dos desempregados. Exemplos notáveis disto foram as demonstrações heroicas contra expulsões nos bairros negros de Chicago e Cleveland.

 

Enquanto massas negras estavam começando a participar mais e mais e as lutas de classe no Norte, um evento de grande importância histórica ocorreu no Cinturão Negro - a organização da União dos Meeiros (Sharecroppers Union) e a resistência heroica dos meeiros aos ataques dos latifundiários e xerifes no Camp Hill, Alabama. Nesta luta o fermento revolucionário dos pobres fazendeiros e meeiros negros receberam sua primeira expressão, resultando no estabelecimento da primeira organização genuinamente revolucionária entre os pobres fazendeiros negros - a militante União dos Meeiros. O movimento agrário das massas negras foi continuado adiante e se desenvolveu na luta de Tallapoosa no qual os meeiros travaram uma resistência armada ao roubo legalizado dos latifundiários e mercadores.

 

Todas essas séries de lutas de liberação de classe e nação foram se aprofundando adiante e politizada através da campanha de eleição presidencial Comunista de 1932. Nesta campanha o Partido foi capaz de estender ainda mais entre as massas, agrupando grandes números de negros atrás de seus slogans políticos.

 

Portanto a aplicação de um programa bolchevique em condições de crise estridente e radicalização crescente dos negros resultou na extensão da influência política do Partido entre as amplas massas de negros, e no crescimento da associação do Partido entre eles. De extrema importância neste período é o estabelecimento do Partido no Sul e no Cinturão Negro.

 

Estas lutas conduziram à uma crescente consciência de classe da classe trabalhadora Negra e sua emergência sobre a arena política como uma força de classe independente no movimento de liberação do Negro. No curso destas lutas a classe trabalhadora negra está rapidamente se liberando das influências reformistas traidoras. Portanto a característica do estágio presente do desenvolvimento do movimento Negro é a maturação de sua mais importante força condutora – a classe trabalhadora industrial negra. Os trabalhadores negros, em unidade orgânica próxima com a classe trabalhadora branca e sobre a liderança do Partido Comunista é a única força capaz de reagrupar as massas de trabalhadores negros em uma luta vitoriosa contra o capitalismo. A luta pela liberação do Negro está agora tomando lugar sob condições da crescente hegemonia proletária e a liderança do Partido Comunista.

 

A ênfase sob o desenvolvimento de lutas econômicas entre os trabalhadores negros não significa enfraquecer, mas ao contrário, para aumentar em cada modo a luta em volta de questões gerais da liberação do Negro, como Scottsboro e a luta contra o linchamento. É necessário expandir e aprofundar essas lutas, trazendo todo nosso programa de igualdade social e o direito de autodeterminação e construir a mais ampla frente unificada nessas questões. Nossa principal atividade, no entanto, é trazer essa luta nas lojas e fabricas e nas terras, conectando com as demandas mais imediatas dos trabalhadores negros, fazendo das fabricas a principal base da luta da libertação do Negro e nossos sindicatos a principal alavanca para a organização da classe trabalhadora negra. Ao mesmo tempo as organizações de massa revolucionárias e particularmente os sindicatos devem vir mais energéticas na luta em nome das demandas políticas de trabalhadores negros.

 

Eles devem ir de mãos dadas com o combate implacável de todas as formas de práticas chauvinistas e de Jim Crow e a luta paciente, sistemática porem persistente contra a ideologia e influências de nacionalistas pequeno-burgueses entre os trabalhadores negros.

 

Apenas nesta base o Partido poderá dar liderança ao ressurgimento em rápido desenvolvimento das massas negras e construir este movimento num poderoso movimento do proletariado revolucionário para o enfraquecimento e destruição do domínio do imperialismo Americano.

 

Artigo de Harry Haywood, originalmente impresso no exemplar de O Comunista (The Communist) de Setembro de 1933, é de Uma História Documentária do Povo Negro nos Estados Unidos, editado por Herbert Aptheker. De acordo com o editor, o artigo original “publicado abaixo, em parte, com a argumentação essencial intacta”.

 

Tradução de Ukyo

 

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