"Dentro de um Campo Maoísta: A cidade no meio de uma floresta em Jharkhand"

19/11/2018

 

Em 2010, Alpa Shah, uma professora de antropologia se juntou á um batalhão Naxalita que fizeram uma marcha de sete noites cruzando 250km através de Bihar e Jharkhand. Um extrato de sua jornada.

Depois de uma hora e meia de caminhada, um jovem rapaz vestido em um uniforme verde-oliva, com um rifle velho cruzando seu ombro, apareceu entre a folhagem. Atrás dele haviam cinco homens vestidos de forma semelhante, separados por alguns metros. O primeiro posto de sentinela para nosso destino, eu suspeitei.

'Lal salaam, lal salaam (Saudação vermelha, saudação vermelha),' nós o cumprimentamos um a um, enquanto eles apertavam nossas mãos e levantavam seus punhos cerrados. O último soldado estava vestindo uma camiseta preta estampada com a com a frase 'Eu não sou confiável, sou ineficiente, imprevisível, desorganizado, indisciplinado, imaturo, mas sou divertido!'. Uma mensagem que entra em claro contraste com a linha disciplinada que os soldados formaram para nos cumprimentar, isso me fez sorrir.

Nós caminhamos, passando por mais dois postos de sentinela, e aí adentramos de volta para um terreno arborizado. De repente a luz matinal se adentrou através das passagens nas árvores. Eu pisquei meus olhos em descrença. Diante de nós, banhado na luz do sol e emoldurado pelas colinas de granito em três lados, estava um espetáculo colorido de caminhos entrelaçados abrangendo como uma teia de aranha. Esculpidos do matagal, os caminhos estavam alinhados no tamanho da cintura por guirlandas coloridas. Papel crepom, cuidadosamente cortados em triângulos, finamente colados em cordas de juta por dúzias de mãos. Os caminhos levavam para uma grande barraca até outra.

Eu me encontrei com os Maoístas em seus campos muitas vezes nas florestas de Jharkhand mas nada poderia ter me preparado para isso. Era uma pequena cidade festiva no meio da floresta montanhosa. Eu me senti como se tivesse me deparado com Lindon de Gil-galad, reino dos elfos do Senhor dos Anéis de Tolkien. Um grito longínquo dos ofuscantes arranha-céus e shopping centers de Gurgaeon construídos em Nova Delhi, era igualmente impressionante por sua grandeza e impermanência. Poderia ser desmontado em poucas horas e nenhum traço poderia ser detectável pelo olho destreinado.

As barracas abrigavam varias seções do exército de guerrilha. Havia também uma barraca médica, barraca do alfaiate e uma 'sala de computador' consistindo de um laptop Dell sujo e desgastado e uma impressora cinza com sinais de dano todos conectados em uma bateria de trator. De outro lado fica uma série de cubículos com pequenas barracas. Buracos eram cavados para as latrinas; uma até tinha assento de porcelana branca.

No centro da teia havia uma grande barraca de cores vermelha e amarela vivas com um telhado verde. Com pelo menos cem pessoas sentadas, essa era a a sala de reunião central. Sete fotografias em preto e branco emolduradas estavam penduradas em uma parede de pano vermelho. Marx, Engels, Lenin, Stalin e Mao Tsé-Tung todos em linha. Abaixo destes gurus internacionais estavam Charu Majumdar e Kanhai Chatterjee, os dois líderes naxalitas da década de 1960 no qual estes guerrilheiros Maoístas comemoravam como os instigadores da luta Indiana. Todas as fotografias eram ornamentadas com malmequeres. Em um canto desta parede de fotografias, alguém pregou um desenho rudimentar feito á mão de uma pessoa segurando uma arma na cabeça do Primeiro Ministro Manmohan Singh. Próximo á isso havia um retrato semelhante de Sonia Gandhi, a presidente nascida italiana do Partido do Congresso, que se casou na dinastia Nehru-Gandhi que teve, com a exceção de alguns anos, presidiu a política Indiana desde a separação do país da ordem Britânica.

Num canto do campo, havia um espaço grande aberto onde pelo menos 200 jovens rapazes estavam juntos. Um grupo estava correndo pelo campo numa direção anti-horária, dando passos de lado a lado á cada dez metros. Outro grupo estava fazendo o mesmo porém correndo em direção contrária. Aqueles no meio estavam em dez linhas disciplinadas, se jogando no ar em sincronia de saltos estrela. Este era o Exército de Guerrilha de Liberação Popular realizando seus exercícios matinais diários.

A cozinha talvez fosse o mais chamativo por sua organização. Sacos de arroz e lentilhas empilhadas um em cima do outro formando duas paredes demarcadas, enquanto uma corrente corre como uma terceira divisão. Para prover agua limpa e potável para o campo, um poço foi engenhosamente cavado do lado da correnteza, fortificado com grandes pedras, e foi trabalhado com um sistema de polia. No meio da cozinha três trincheiras de comprimentos variados foram cavados. Cada um tinham fogueiras com grandes cubas de alumínio em cima. Arroz e dal ou curry com batatas estão cozinhando, eu suspeitei. Jovens rapazes estavam sentando de pernas cruzadas no chão, rolando chapatis para aqueles que não comeriam arroz.

Nós andamos até a conferência do Comitê de Maoístas nivel-Estatal, uma reunião que ocorre á cada cinco anos, e que trouxe junto todas as guerrilhas dos distritos vizinhos dos estados de Uttar Pradesh e Bihar. Para alguns tem sido uma trilha de quatorze noites para chegar ali. Foi difícil de saber quantos do total do Exército de Guerrilha de Liberação Popular estavam nesta reunião, talvez uns 400. Me disseram que conferências semelhantes estavam ocorrendo simultaneamente através do país em outras partes de Jharkhand e através das florestas da India central e leste em Chhattisgarh, Oeste de Bengal, Odisha e Andhra Pradesh.

Em cada conferência, as atividades Maoístas dos anos passados seriam analisadas e avaliadas, planos futuros seriam gerados, e soluções para problemas encontrados. Este era o lugar onde decisões cruciais seria coletivamente discutida, com debates exaustivos, para eventualmente ser posto para voto, com a decisão da maioria. Essa era a teoria pelo menos. Germinada na Comuna de Paris, é chamado centralismo democrático por Lenin, que utilizou para construir o Partido Bolchevique.

As conferências também eram onde os as práticas Maoístas da crítica e autocrítica se desdobravam. Essas eram as confissões e denúncias elaboradas públicas de erros que cada soldado cometeu; uma tentativa de reforçar coesão e disciplina do grupo usado por muitos partidos de inspiração Maoísta, desde o Exército de Liberação Nacional do Zimbábue ao Khmer Rouge. A conferência também foi onde promoções eram decididas e treinamento político e militar eram entregues aos quadros.

Acima de tudo, para os líderes Maoístas, era um espaço para redesenvolver o sentimento de comunidade e comprometimento para a causa que reúne as guerrilhas, para renovar a solidariedade. Combatentes dispersos, trabalhando em varias partes do país e ás vezes de forma isolada, se juntam por alguns meses, idealmente para fortalecer, formar e reformar ligações entre eles. A esperança era de criar um microcosmo sem casta e sem classe do futuro utópico para a comunidade que todos eles estão lutando.

Em contraste ás vilas vizinhas divididas por casta da Índia, na comunidade de guerrilha nomes de casta são eliminados - cada indivíduo se torna um camarada, nascido com um novo nome. Enquanto o respeito pelos mais velhos deve ser mostrado chamando-os de 'dada' ou 'didi' (irmão ou irmã mais velho) ou adicionando o sulfixo 'ji', diferenças materiais devem ser apagadas. A ideia era que o povo vem para as guerrilhas com nada e são dados tudo considerado necessário para sua existência. Um uniforme e um conjunto de roupas básicas, um cobertor, um lençol, uma capa plástica, uma mochila e uma barra de sabão. A divisão de trabalho de acordo com a casta, classe e hierarquias de gênero que existiram no mundo de fora também estão para ser erradicadas. Turnos para cozinhar envolve à todos, homens e mulheres. E enquanto quadros de baixo nível tem de aprender a ler, lideres tem de cavar buracos para servir de banheiros.

 

(Extraído do RedSpark com a permissão de Harper Collins de 'Nightmarch: Journey Into India’s Naxal Heartlands’ por Alpa Shah.)

 

Tradução de Ukyo
 

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