ILPS: "Retorno fascista no Brasil, o fracasso reformista e persistência do imperialismo estadunidense e as oligarquias locais"

07/11/2018

 

Nós, a Liga Internacional da Luta dos Povos, unimo-nos ao povo do Brasil em sua unidade crescente e contínua militância para confrontar e se opor ao regime fascista de Jair Bolsonaro, apoiado pelos EUA. Alertamos os Estados Unidos e seus aliados imperialistas de que sua intromissão ampliada no Brasil e em outros países da América Latina só produzirá lutas anti-imperialistas e democráticas ainda mais amplas e mais intensas em todo o continente.

Sobre a vitória eleitoral de Bolsonaro e a derrota do PT

Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), depois de uma ascensão política descaradamente direitista na campanha eleitoral, venceu o recente segundo turno das eleições presidenciais com 55,6% dos votos, derrotando Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), que ficou com 44,4%. Bolsonaro substituirá o presidente Michel Temer em 1º de janeiro de 2019, por um mandato de quatro anos.

A alegação de que Bolsonaro ganhou em uma eleição "democrática" é desmentida pela intimidação generalizada das forças da oposição, levando quase 29% do eleitorado a anular ou não votar. Os meios reacionários (tanto nos países imperialistas como no Brasil) e outras instituições controladas pela grande burguesia e pelos latifundiários brasileiros construíram uma falsa “opinião pública” contra os partidos progressistas (incluindo o PT), sindicatos de trabalhadores e outros movimentos de massas, que os apoiava.

O candidato original do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, era amplamente cotado para vencer as eleições se os tribunais reacionários não o tivessem condenado, preso e impedido de concorrer à presidência por acusações de suborno. Com Lula fora de cogitação, a promessa de Bolsonaro de "mudar o destino do Brasil" atraiu os brasileiros em meio a dois anos de recessão – os mais profundos da história do país – desemprego elevado, criminalidade crescente e escândalos de corrupção que envolveram muitos dos políticos tradicionais do país, inclusive alguns do PT.

Os imperialistas e os reacionários locais atacavam problemas sociais reais e imaginários do povo brasileiro e tinham Bolsonaro como um outsider político capaz de restaurar a paz e a ordem na mídia controlada pela oligarquia, que culpava o PT por todos os problemas do país, assim como a ex-presidente Dilma Rousseff (que foi expulsa por impeachment por suposta má utilização dos fundos públicos) e Lula (seu mentor).

Eles jogaram a carta anticomunista ao máximo, culpando os sindicatos, comunistas, marxistas acadêmicos e movimentos setoriais de povos marginalizados, como LGBTQs e comunidades indígenas. Eles também culparam processos democráticos formais e ansiaram pela estabilidade dos longos anos de ditadura militar.

Assim, Bolsonaro, seu companheiro de chapa (um general reformado do Exército), seus apoiadores imperialistas e um conjunto formidável de forças reacionárias apoiando sua campanha com suas mentiras e desinformações, foram capazes de levantar um vento fascista entre as camadas politicamente atrasadas do eleitorado, fabricando pesquisas para mostrar que 55% dos brasileiros concordariam com uma ditadura se “resolvesse problemas”. Ele usou seu alinhamento aberto com interesses de grandes empresas e propostas policialescas para atrair o voto de classe média com promessas de soluções para a crise econômica e a criminalidade. Eles apresentaram uma plataforma de governo aparentemente populista, mas essencialmente fascista e pró-imperialista.

A recente vitória eleitoral de Bolsonaro é uma indicação nítida de que o imperialismo dos EUA e seus aliados estão por trás do tipo de golpe de Estado “suave” no Brasil. Eles estão, de fato, empenhados em reduzir a tendência dos governos bolivarianos ou progressistas e em preparar o terreno para uma nova onda de ditaduras fascistas em toda a América Latina.

Agenda doméstica de Bolsonaro
Ex-capitão da brigada de pára-quedistas, Bolsonaro tem uma mentalidade ultrarreacionária de ser agressivamente autoritário e repressivo. Agora, como o mais novo representante chefe das classes dominantes no Brasil (grande burguesia, grande classe de latifundiários e grandes burocratas) e parceiro regional júnior, se não um fantoche do imperialismo americano, Bolsonaro está empenhado em desfazer o bem-estar significativo e os avanços democráticos do povo brasileiro sob as administrações de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

 

Bolsonaro planeja dar rédea solta aos planejadores neoliberais como Paulo Guedes (um economista formado em direito pela Universidade de Chicago) e Nabhan Garcia para elaborar uma agenda econômica mais alinhada à agenda imperialista neoliberal e aos interesses reacionários brasileiros. Ele prometeu abrir ainda mais o Brasil (incluindo os ricos recursos naturais da Amazônia) para investimentos estrangeiros, reduzir impostos corporativos, cortar gastos sociais, incluindo o Bolsa Família, privatizar quase todas as empresas estatais, incluindo serviços públicos, congelar salários, elevar a idade de aposentadoria e eliminar as restrições ambientais, especialmente na expansão das terras agrícolas na Amazônia.

Apesar de algumas melhorias no nível de vida do povo brasileiro nos últimos anos, os governos Lula e Dilma Rousseff não podem reivindicar crédito por fazer algumas mudanças nos enormes problemas da pobreza e da desigualdade, e no florescimento dos movimentos populares (especialmente entre os trabalhadores e camponeses). Na verdade, eles implementaram políticas que acabaram se revelando autodestrutivas.

Programas sociais como PRONAF, Bolsa Família e projetos de infra-estrutura que criaram empregos temporários só poderiam ser financiados devido ao enorme volume de negócios provenientes da grande demanda chinesa por matérias-primas brasileiras e culturas de rendimento no final dos anos 2000. No entanto, Lula seguiu as políticas neoliberais que favoreceram o capital financeiro e as TNCs ocidentais (como altas taxas de juros e isenções de impostos), ao mesmo tempo em que erodiam o padrão de vida das massas.

Da mesma forma, Dilma permitiu que Joaquim Levy, outro garoto da Universidade de Chicago, pressionasse por políticas mais antinacionais e antipopulares, como a abertura do Banco do Brasil e do vasto campo de petróleo de Libra a investidores estrangeiros, cortando mais de 1 milhão de beneficiários do programa social Bolsa Família e apertar os parafusos do seguro-desemprego. Todas essas medidas neoliberais contribuíram muito para a crise econômica que começou em 2014, além da estagnação dos anos anteriores.

Enquanto os movimentos de massas brasileiros tinham mais possibilidades de trabalho político aberto durante o regime do PT, os assassinatos de líderes camponeses, indígenas e sindicais começaram a subir rapidamente após 2014, durante a presidência de Dilma. Em 2008, o governador do estado do Pará do PT realizou uma operação de “Paz no campo” que matou dezenas de camponeses organizados e torturou e prendeu centenas de outros, em uma tentativa de impedir as ocupações de terras camponesas no Pará.

O governo de Dilma também emitiu uma “lei antiterrorista” para intensificar ainda mais a repressão aos protestos em massa nos principais centros urbanos do Brasil em 2013. Assim, foi mais fácil para o governo de Temer perseguir mais ativistas políticos usando a mesma lei; Bolsonaro continuará fazendo o mesmo.

Bolsonaro está definitivamente no caminho para restabelecer um regime extremamente fascista de uma forma ou de outra, em linhas semelhantes à odiada ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos (1964-1985). Espera-se que ele utilize questões de segurança pública e use assassinatos descontrolados como álibi (quase 64 mil pessoas mortas no Brasil somente em 2017) bem como “extremismo esquerdista” como pretexto para assumir poderes autoritários e dar um papel maior à polícia e aos militares, dando-lhes mais alternativas de ação e militarização (incluindo carta branca para EJKs), construir mais prisões, autorizar a tortura e expandir escolas controladas por militares, para “controlar a criminalidade” e “tornar as ruas mais seguras” em linhas similares como Duterte no Filipinas.

Bolsonaro provavelmente incluirá em seu gabinete ex-oficiais militares com antecedentes ligados a juntas militares do passado apoiadas pela CIA. Expressando admiração por Hitler como “um grande estrategista”, espera-se que ele ative o pior tipo de visões fascistas, racistas, misóginas e anticomunistas e todo o fanatismo de direita a fim de mobilizar não apenas todo o fanatismo das Forças armadas e da elite brasileiras, mas um “movimento de massas” apoiando seu regime autoritário e justificando a violência contra sindicalistas, negros, indígenas, mulheres, LGBTQ e outros tipos de oposição democrática.

Na agenda de política externa de Bolsonaro: implicações globais e regionais
Apresentando-se como o “Trump latino-americano”, Bolsonaro está no caminho certo para reparar, renovar e expandir os laços com os EUA, que foi desgastado quase ao ponto de ruptura na última década. Logo após vencer a eleição, Trump imediatamente o chamou e os dois se comprometeram a “trabalhar lado a lado”. A Casa Branca descreveu os EUA e o Brasil “como líderes regionais das Américas”. Espelhando a personalidade de Trump, Bolsonaro rapidamente se aconchegou a Israel (sua planejada primeira visita de Estado), prometeu se retirar do acordo climático de Paris e continua a criticar o sistema da ONU.

 

A mudança drástica esperada do Brasil para uma postura pró-EUA é de importância global e regional. Afinal, é o 5º país mais populoso do mundo (210 milhões) e a 7ª maior economia, o 2º maior das Américas e o maior de toda a América Latina. Possui importantes reservas de petróleo, o terceiro maior produtor de aeronaves do mundo (além de um grande produtor de armamentos) e o maior produtor de alguns produtos agrícolas. Assim, suas direções de política externa têm implicações potencialmente enormes em influenciar outros países latino-americanos.

Com a política externa de Bolsonaro alinhando-se esperadamente com os EUA, especialmente de mãos dadas com Trump, o Brasil tem o potencial de servir como uma base abrangente para uma intromissão mais agressiva dos EUA na América Latina, principalmente contra Venezuela e Bolívia. Como um todo, seu regime representa um ressurgimento da América Latina (na verdade, um global, estratégico e cada vez mais autoconsciente) ressurgimento das forças estatais-fascistas.

Os EUA estão fazendo todo o possível para enfraquecer, se não desmembrar, os BRICS, cortejando pelo menos o Brasil e a Índia. Parece conseguir impedir uma aliança China-Índia mais próxima, alimentando irritantes entre os dois. Agora, com o Brasil aparentemente em seus bolsos, os EUA podem planejar uma separação brasileira com a China (que é o principal parceiro comercial do Brasil e grande investidor).

Persistência e Agravamento dos Problemas da Raiz da Sociedade Brasileira
O novo regime EUA-Bolsonaro é um lembrete em várias níveis para os povos do Brasil e da América Latina que não é apenas quem está na cadeira presidencial ou o partido no poder que é a questão, ou que a vitória de Bolsonaro é de alguma forma um acidente ou erro do processo democrático que precisa ser simplesmente desfeito pelos meios parlamentares.

Apesar das administrações reformistas do PT, Lula e Dilma Rousseff, os interesses e o controle dos imperialistas norte-americanos no Brasil e na América Latina têm persistido. A estrutura de classe exploradora da sociedade brasileira e a necessidade de luta de classes pelas massas trabalhadoras exploradas de trabalhadores e camponeses e os estratos sociais sociais médios seguem. Os fascistas exploraram os fracassos e fraquezas do PT social-democrata para fazer o seu retorno.

Apesar de ser um membro do BRICS, o Brasil é prejudicado pela intromissão imperialista contínua, desenvolvimento bastante desigual do capitalismo nas cidades e condições semifeudais persistentes no seu vasto interior. Os inúmeros problemas econômicos e políticos do país estão enraizados nessas contradições sociais.

Estas são as razões pelas quais a pobreza extrema e a desigualdade permanecem mais evidentes. Essas são as razões pelas quais a classe trabalhadora através de seu partido político e sindicatos e o campesinato (por exemplo, através do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), com sua longa demanda por reforma agrária, compreendem alguns dos maiores movimentos sociais na América Latina hoje.

Mesmo os terríveis assassinatos (quase 64 mil só em 2017) não podem ser separados das décadas de violentos conflitos rurais entre camponeses sem terra e latifundiários e o consequente deslocamento de comunidades camponesas e indígenas e a migração em massa para favelas urbanas congestionadas. Especialmente na região nordeste do Brasil, as persistentes condições feudais agravadas pela fome levaram milhões de famílias camponesas pobres a migrar para as já apinhadas favelas urbanas, ou para outras regiões rurais, como áreas desmatadas da Amazônia, onde trabalham em plantações para exportação e gado. A promoção de fazendas sob formas de exploração capitalistas semifeudais ou extremamente atrasadas.

Os consequentes males sociais generalizados, combinados com as campanhas antidrogas e anti-criminalidade do governo, tornam-se então o pretexto para a polícia fascista implementar assassinatos de rotina que vitimam principalmente os pobres e marginalizados.

 

O PT não resolveu as raízes dos problemas sociais e econômicos do Brasil em seus mais de 13 anos no poder. No início da presidência de Lula, em 2003, a fome generalizada no Norte e no Nordeste do Brasil estava levando ondas de aldeões famintos para as cidades, saqueando lojas e mercados para que pudessem encontrar algo para comer. Nesse sentido, é verdade que programas sociais como o Bolsa Família e o PRONAF poderiam aparecer para aliviar as piores manifestações de pobreza no campo e nas favelas urbanas.

No entanto, esses programas sociais não foram acompanhados pela industrialização nacional e pela reforma agrária abrangente. Assim, se tornaram abertos a ataques e começaram a vacilar especialmente após a recessão de 2014 (durante o segundo governo de Dilma). O sistema governante simplesmente reafirmou sua podridão subjacente, com fome em massa, trabalho infantil generalizado e outras formas extremas de pobreza tornando-se piores do que nunca.

Esses fatores sistêmicos tornaram os outros programas de Dilma, como sua campanha anticorrupção, também suscetíveis a uma reação reacionária que a levou a ser expulsa por impeachment – na verdade, um golpe de Estado “suave” instigado pelos EUA. Temer, que substituiu Dilma, procedeu à transição para uma postura mais pró-EUA, pró-oligárquica e pró-fascista.

Ao mesmo tempo, a oligarquia apoiada pelos EUA intensificou sua campanha anti-PT, culpando o PT exclusivamente pelo agravamento da corrupção, má gestão econômica e criminalidade. A campanha de Haddad caiu na armadilha e admitiu o papel do PT no agravamento dos problemas no Brasil, enquanto as profundas raízes desses problemas – que datam dos anos 1970 na época da longa ditadura fascista – não foram expostas.

A ILPS se solidariza com o povo do Brasil que agora deve enfrentar e lutar contra o regime fascista dos EUA-Bolsonaro e defender a soberania nacional, a democracia e todos os direitos do povo. É o dever sagrado que o povo do Brasil traga todas as formas necessárias de luta revolucionária contra o flagelo do imperialismo e do fascismo.

Eles devem derrotar no Brasil a epidemia do fascismo, a fim de contribuir para a luta revolucionária do proletariado mundial e do povo para impedir a disseminação dessa malignidade. Isto é apenas uma manifestação do sistema capitalista mundial em desintegração e é o prelúdio do grande ressurgimento dos movimentos de libertação nacional e da revolução proletária-socialista mundial.

 

 

Gabinete do Presidente
Liga Internacional da Luta dos Povos

 

4 de novembro de 2018

 

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