"Revisitando Pol Pot"

06/11/2018

 

Agora, na época das Monções, Camboja é verde, tranquilo e relaxante. As plantações do arroz nas partes baixas das colinas estão passando por problemas de inundações, as florestas que escondem os velhos templos são quase impenetráveis, o mar agitado assusta os nadadores. É uma época agradável para revisitar este modesto país: Camboja não é lotado, e os cambojanos não são gananciosos, mas muito calmos e pacíficos. Eles pescam camarões, calamari e pargos. Cultivam arroz, nunca tocado por herbicidas, plantado, cultivado e colhido manualmente, eles produzem o suficiente para si mesmos e para exportação também - definitivamente nenhum paraíso, mas o país vai indo.

 

O socialismo está sendo rapidamente desmantelado: fábricas de propriedade chinesa continuam produzindo camisetas para o mercado americano e europeu empregando dezenas de milhares de jovens garotas cambojanas ganhando $80 por mês. São demitidas no primeiro sinal de sindicalismo. Os novos ricos moram em palácios; há diversos Lexus, e um eventual Rolls-Royce. Enormes troncos de árvore, vermelhos e pretos, resistentes e preciosos constantemente são transportados para o porto para exportação, destruindo florestas, mas enriquecendo os comerciantes. Existem muitos donos de restaurantes franceses na capital; representantes de ONGs ganham em um minuto o equivalente de um salário de um trabalhador.

 

Não resta muito do período turbulento de quando os Cambojanos tentaram transformar radicalmente a ordem das coisas no curso de sua singular revolução camponesa conservadora tradicionalista sob a bandeira do comunismo. Era a época gloriosa de Jean Luc Godard e seu filme La Chinoise, da Revolução Cultural na China enviando bonzos de Partido para reeducação às fazendas longínquas, do Khmer Vermelho marchando na corrupta capital. O movimento socialista chegou a um ponto de bifurcação: ou avançar para mais socialismo ao estilo de Mao, ou recuar para menos socialismo na via de Moscou. A experiência do Khmer Vermelho durou apenas três anos, de 1975 a 1978.

 

Surpreendentemente, os cambojanos não têm memórias ruins daquele período. É uma descoberta incrível para um visitante novo. Eu não vim para cá para reconstruir a “verdade”, qualquer que seja, mas para descobrir qual a memória coletiva dos Cambojanos, como eles enxergam os eventos do final do século XX, qual narrativa foi filtrada e absorvida pelo tempo que passou. A máquina onipotente criadora de narrativas do Ocidente incorporou em nossa consciência a imagem dos “comunas” sangrento do Khmer Vermelho canibalizando seu próprio povo e governado por um aterrorizante Pol Pot, a noção de qualquer um de um déspota cruel.

 

Um professor norte-americano muito citado, RJ Rummel, escreveu que “de uma população em 1970 de provavelmente quase 7.100.000… quase 3.300.000 homens, mulheres e crianças foram assassinadas… a maior parte destes assassinados pelos comunistas do Khmer Vermelho”. A cada duas pessoas, uma era morta, de acordo com a estimativa.

 

No entanto, a população do Camboja não foi reduzida para metade, mas mais do que duplicou desde 1970, apesar de se alegarem vários genocídios. Aparentemente, os genocidas foram incapazes, ou seus feitos têm sido muito exagerados.

 

O Pol Pot que os Cambojanos se lembram não era um tirano, mas um grande patriota e nacionalista, um amante da cultura e modo de vida nativos. Ele cresceu em círculos do palácio real; sua tia era uma concubina do antigo rei. Ele estudou em Paris, mas ao invés de ganhar dinheiro e fazer carreira, ele voltou para casa, e gastou alguns anos morando com tribos nas florestas para aprender com os camponeses. Sentiu empatia pelas pessoas comuns das aldeias que eram roubadas diariamente pelo povo da cidade, os parasitas compradores. Ele construiu um exército para defender o campo destes ladrões armados. Pol Pot, um homem monástico de necessidades simples, não buscava riqueza, fama ou poder para si próprio. Ele tinha uma grande ambição: por fim ao capitalismo colonial decadente em Camboja, voltar para as tradições de aldeia, e a partir dali, construir uma nova nação do zero.

 

Sua visão era bem diferente da Soviética. Os Soviéticos construíram sua indústria a partir da exploração do campesinato; Pol Pot queria reconstruir a aldeia primeiro, e apenas posteriormente construir a indústria para atender às necessidades dos habitantes das aldeias. Ele via os moradores da cidade com desdém; não faziam nada de útil, em sua visão. Muitos deles possuíam ligações com agiotagem, um aspecto particular do Camboja pós-colonial; outros colaboravam com as empresas estrangeiras na rapina da riqueza do povo. Sendo um forte nacionalista, Pol Pot suspeitava das minorias vietnamitas e chinesas. Mas o que ele odiava mais era cobiça, ganância, o desejo de ter coisas. São Francisco e Leon Tolstoy teriam compreendido-no.

 

Os Cambojanos com quem eu falei ridicularizavam as cruéis histórias de Holocausto Comunista como uma invenção ocidental. Eles me lembravam sobre o que aconteceu: sua breve história de problemas começou em 1970, quando os estadunidenses afastaram seu governante legítimo, o Príncioe Sihanouk, e o substituíram por seu ditador militar satélite Lon Nol. O nome do meio de Lon Nol era Corrupção, e seus seguidores roubavam tudo que podiam, transferiam seus ganhos ilícitos no estrangeiro, e se mudaram para os EUA. Além de tudo isso, vieram os bombardeios dos EUA. Os camponeses fugiram para as guerrilhas nas matas do Khmer Vermelho, que era liderada por alguns formandos da Sorbonne, e eventualmente conseguiram expulsar Lon Nol e seus apoiantes dos Estados Unidos.

 

Em 1975, Pol Pot pegou um país, devastado por uma chuva de bombardeios dos EUA na ferocidade de Dresden, e o salvou, eles dizem. De fato, os aviões dos EUA (lembram-se de Ride of the Valkyries em Apocalypse Now?) jogaram mais bombas neste pobre país do que jogaram na Alemanha Nazista, e disseminaram suas minas em todo o resto do país. Se os Cambojanos fossem pressionados a dar nome a seu grande destruidor (e eles não tem problemas em trazer de volta o passado), seu nome é Professor Henry Kissinger, e não o camarada Pol Pot.

 

Pol Pot e seus amigos herdaram um país devastado. As aldeias foram despovoadas; milhões de refugiados foram para a Capital para fugir das bombas e minas dos Estados Unidos.  Sem recursos e famintos, eles tinham que ser alimentados. Mas por conta dos bombardeios, ninguém plantou arroz em 1974. Pol Pot ordenou que todos fugissem da cidade e fossem para os arrozais, para plantar arroz. Isto foi um passo duro, mas necessário, e em um ano Camboja já tinha muito arroz, o suficiente para alimentar a todos e até mesmo para vender algum excedente para comprar mercadorias necessárias.

 

A nova Camboja (ou Kampuchea, como era chamada) sob Pol Pot e seus camaradas foi um pesadelo para os privilegiados, para os abastados e seus aderentes; mas o povo pobre tinha comida suficiente e foi ensinado a ler e escrever. No que tange os assassinatos em massa, são apenas contos de horror, afirmaram meus interlocutores cambojanos. Certamente os camponeses vitoriosos executaram saqueadores e espiões, mas muitos mais morreram de minas plantadas pelos Estados Unidos durante a subsequente invasão vietnamita, disseram eles.

 

A fim de ouvir ao outro lado, eu viajei para os Campos de Mortos de Choeung Ek, o memorial onde as alegadas vítimas foram assassinadas e enterradas. É um lugar alguns 30 km longe de Phnom Penh, um parque verde bem limpo com um pequeno museu, muito visitado por turistas, o Cambojano Yad va-Shem. Uma placa diz que os guardas do Khmer Vermelho traziam de 20 a trinta presos duas ou três vezes por mês, e matavam muitos deles. Por três anos, isso equivaleria a menos de dois mil mortos, mas outra placa dizia que enterraram cerca de 8000 corpos. No entanto, outra placa disse que houve cerca de um milhão de mortos. Noam Chomsky afirmou que o número de mortos no Camboja pode ter sido aumentado “em fator de milhares” a mais.

 

Não há fotos dos assassinatos; ao invés disso o humilde museu possui algumas pinturas ingênuas que mostrava um homem grande e forte assassinando um fraco e pequeno, bem ao estilo tradicional. Em outras placas se lia “Aqui se guardavam as armas que cometiam as execuções, mas nada resta aqui” e escritos similares. Para mim, isto lembrava outras histórias patrocinadas pela CIA sobre atrocidades vermelhas, seja de terror de Stalin ou do Holodomor ucraniano. As pessoas agora no poder nos Estados Unidos, Europa e na Rússia querem apresentar todas alternativas a seus governos como fracassadas ou manchadas de sangue ou ambas. Odeiam principalmente líderes incorruptíveis, seja Robespierre ou Lenin, Stalin ou Mao - e Pol Pot. Eles preferem líderes que tenham interesse na corrupção, e eventualmente os impõem. Os Estados Unidos têm um bom motivo adicional: os assassinatos de Pol Pot servem para esconder suas próprias atrocidades, os milhões de Indochineses que eles executaram com Napalm e metralharam.

 

Cambojanos também dizem que muito mais pessoas foram mortas pela invasão vietnamita em 1978; enquanto os vietnamitas preferem jogar a culpa no Khmer Vermelho. Mas o governo atual não encoraja isto ou qualquer investigação no passado, e por bons motivos: praticamente todos os funcionários importantes acima de uma certa idade eram membros do Khmer Vermelho, e frequentemente membros da liderança. Al[em disso, quase todos eles colaboraram com os vietnamitas. O atual Primeiro-Ministro, Hun Sen, era um comandante do Khmer Vermelho, e posteriormente apoiou a ocupação vietnamita. Quando os vietnamitas voltaram para casa, ele permaneceu no poder.

 

O príncipe Sihanouk, que foi exilado pelos Estados Unidos, também apoiou o Khmer Vermelho. Ele voltou para o Camboja para seu Palácio Real e seu templo de prata com Emerald Buddha após os vietnamitas terem ido embora. Inacreditavelmente, ele ainda está vivo, ainda que tenha transferido a coroa para seu filho, um monge que teve que largar o monastério e assumir o trono. Então, a família real também não está interessada em desenterrar o passado. Ninguém quer discutir isso abertamente; a história oficial das ditas atrocidades do Khmer Vermelho está mergulhada na consciência ocidental, apesar das tentativas de julgar os autores das matanças deram parcos resultados.

 

Olhando para trás, parece que o Khmer Vermelho do Pol Pot falhou mais em sua política externa do que em sua interna. É bom que tenham cancelado uso de dinheiro, dinamitaram bancos e mandaram banqueiros para plantar arroz. É bom que tenham dado fim a atividade parasitária dos grandes sanguessugas, os grandes compradores da cidade e agiotas. Seu fracasso foi que não calcularam sua posição frente ao Vietnã, e tentaram ir para além de sua própria força. Vietnã estava muito forte – tinha acabado de derrotar os Estados Unidos – e não iria tolerar absurdos de seus irmãos mais novos em Phnom Penh. Os vietnamitas planejavam criar uma Federação Indochinesa que incluiria Laos e Camboja sob sua própria liderança. Invadiram e derrubaram os persistentes do Khmer Vermelho que estavam muito empenhados em sua independência. Também apoiaram a lenda negra do genocídio para justificar sua própria intervenção sangrenta.

 

Falamos muito sobre os maus cometidos em regimes futuristas, e muito pouco sobre os crimes dos governantes que buscam lucros. Não é sempre que nos lembramos da fome de Bengal, do holocausto em Hiroshima, a tragédia no Vietnã, ou mesmo Sabra e Shatila. A introdução do capitalismo na Rússia matou mais pessoas do que a introdução do socialismo, mas quem sabe disso?

 

Agora podemos cuidadosamente reavaliar as bravas tentativas de chegar ao socialismo em diversos países. Isto foi realizado sob condições duras, adversas, sob ameaça da de invasões, lutando contra as propagandas hostis. Mas vamos nos lembrar: se o socialismo falhou, o capitalismo também. Se o comunismo foi acompanhado por perdas de vidas, também foi e é o capitalismo. Mas com o capitalismo, não temos futuro que valha a pena viver, enquanto o socialismo ainda oferece esperança para nós e nossos filhos.

 

Israel Shamir, publicado no Counterpunch.org

 

Tradução de Gabriel Duccini

 

 

Nota dos editores: nem todas as posições expressas neste texto condizem necessariamente e/ou integralmente com a linha política de nosso site ou da União Reconstrução Comunista.

 

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