"Isolar o peixe da água: uma prática genocida na Índia"

15/10/2018

 

Desde a época colonial até a rebelião Naxalita de 1967, e assim, até nossos dias, os diferentes governos da Índia têm perseguido todos os grupos que se opuseram a opressão, a exploração e a expansão capitalista, especialmente as comunidades Adivasis e os Dalits. No ano de 2009, o governo indiano iniciou nos estados de Chhattisgarh, Jharkhand, Orissa, Bihar, Bengala Ocidental, Andhra Pradesh, Telengana e Maharashtra uma operação militar denominada “Caçada Verde”, que tem por objetivo, declaradamente, eliminar a guerrilha maoísta ou Naxalita.

 

Uma das práticas genocidas aplicadas por esta operação é a eliminação e detenção de líderes populares, sindicais, estudantis e ativistas políticos. Para isso, se inspira na estratégia de contra-insurgência de “Corações e Mentes” do marechal britânico Gerald Templer, que posteriormente sintetizou a experiência de Sir Robert Thompson, adquirida durante as campanhas de contra-insurgência na Malásia e do Vietnam. Parte desta estratégia era a seguinte:

 

“O governo deve dar prioridade, não ao esmagamento da guerrilha, mas a liquidação da subversão política que lhe dá cobertura. Com a destruição da infraestrutura política consegue-se “isolar o peixe da água”, evitando o contato da população com a organização clandestina” (González Calleja, 2002).

 

“Isolar o peixe da água” é uma prática muito comum em todos os genocídios. Também chama a atenção sobre isso Bauman (2016), quando afirma que o primeiro objetivo do genocídio é “decapitar” seus dirigentes e centros de autoridade, para assim eliminar a coesão e a capacidade de manter sua identidade, perdendo, assim, sua capacidade de defesa e até a sua destruição como entidade autônoma e unida.

 

“A estrutura interna do grupo se desmoronará e se converterá em um conjunto de indivíduos os quais pode-se pegar de um em um para incorporá-los à nova estrutura administrativa ou pode-se reuni-los à força em uma categoria subjugada e segregada, dominada e vigiada diretamente pelos administradores da nova ordem” (Bauman, 2016).

 

Essa perseguição também serve-se da técnica “Guerrilha Caçador-Assassino”. Uma de suas atividades fundamentais, assinala o professor de estratégia militar Joe Celeski (2010), é a de “caçar” objetivos concretos de pessoas individualmente, o “objetivo de alto valor” para degolar a organização insurgente, bem como os líderes de organizações que possam dar apoio, tanto político quanto logístico.

 

Mesmo assim, criam-se meios de contra-organização, que consistem em ações de identificação, infiltração e “neutralização” das organizações políticas insurgentes, utilizando a sabotagem, a detenção ou a “neutralização” dos “inimigos” do braço político, em combinação com uma campanha contra-ideológica. Criam-se também “pseudo-organizações” que adotam a aparência da guerrilha para terem acesso às áreas de operações do “inimigo” e levar a cabo seus objetivos.

 

Em 2012, a ONG Human Rights Watch denunciava o assédio e a repressão que sofria a população e as mulheres defensoras dos direitos humanos sob a operação “Caçada Verde”:

 

“As trabalhadoras dos direitos humanos e ativistas, em particular aquelas que denunciam os abusos das forças governamentais, temem ser “marcadas” como maoístas por poderem ser presas ou pior. As ativistas locais reconhecem que entram em contato com os maoístas: pois trabalhar em lugares remotos como Chhattisgarh, Orissa, Jharkhand e Andhra Pradesh fazem com que isso seja inevitável. As forças de segurança do Estado, frustradas pela sua incapacidade de rastrear os combatentes maoístas que entram nas florestas dos estados contíguos, dirigem frequentemente os seus ataques contra os alvos “menos resistentes” dos aldeões em áreas que apoiam maoístas e ativistas que criticam abusos policiais e políticas estatais”.

 

No início do ano de 2016, vários meios de comunicação começaram a falar sobre a “Missão 2016” como uma continuação da operação “Caçada Verde”. Ainda que não declaradamente, um de seus objetivos principais era a de destruir e acabar com a rede urbana de apoio do PCI (Maoísta). Assim se referia a revista indiana Frontline:

 

“Esta rede, de acordo com o mecanismo de segurança por trás da “Missão 2016”, consiste em maoístas clandestinos e simpatizantes maoístas. As contribuições feitas pelas forças de segurança visam cortar o “oxigênio” da PCI (Maoísta) para eliminar seus simpatizantes urbanos e, portanto, “sufocar” os maoístas. O problema desta premissa é que qualquer um que discordar da versão do Estado, da democracia ou do nacionalismo, ou quem levantar questões sobre violações de direitos humanos por forças militares e paramilitares, ou simplesmente se recusar a tomar partido na guerra que está se desdobrando, é marcado como maoísta. Repórteres, pesquisadores, ativistas, advogados e estudantes adequam-se facilmente a essa simples definição de simpatizante maoísta que merece ser exterminado pelo governo”.

 

Também em 2016 o governo do Primeiro Ministro Modi iniciou a campanha “Make in India”, através da qual exalta o poder econômico do país legitimando pelo “desenvolvimento” contínuo em áreas de grande riqueza natural. Apoiado neste discurso, “criminaliza” aqueles que se opõem a esse “desenvolvimento”, seja por meios armados ou por meios pacíficos.

 

Por outro lado, está levando a cabo uma campanha de exaltação “nacional” e de celebração da religião hindu, à qual pertence o Primeiro Ministro Modi. Ataca as minorias religiosas – especialmente os muçulmanos –, e taxa de “antipatriotas” ou “antinacionalistas” todos aqueles que se mostrem contrários às políticas desenvolvidas pelo Governo contra os Naxalitas, Adivasis, Dalits, e contra aqueles que são a favor do direito de autodeterminação dos povos, como Jammu-Cachemira, Manipur ou Assam, realizando uma “caça às bruxas” contra ativistas dos direitos humanos, professores, intelectuais, advogados, sindicalistas, jornalistas e estudantes que se manifestam nesse sentido.

 

Um caso paradigmático é o do professor de literatura inglesa da Universidade de Delhi, GN Saibaba. Destacado intelectual e defensor irrevogável dos direitos do povo, ele sofre de paralisia de 90% do seu corpo, agravada por uma pancreatite aguda e se movimenta em uma cadeira de rodas. Seu papel ativo na denúncia da operação “Caçada Verde” e das atrocidades cometidas pelo Estado indiano contra os Adivasis e Dalits, levou-o a ser acusado pelo governo de ser um “maoísta perigoso”, por conspiração para cometer um “ato terrorista” e por “pertencer a uma organização terrorista”. Em 7 de março de 2017, o professor GN Saibaba e cinco outros ativistas sociais foram condenados à prisão perpétua por seu relacionamento com os maoístas.

 

Em 6 de junho de 2018, o advogado do professor, Surendra Gadling, o ativista dos direitos dos dalits, Sudhir Dhawale, o professor Shoma Sen, o sindicalista camponês Mahesh Raut e a defensora dos direitos humanos Rona Wilson foram presos. Em 13 de agosto, o famoso líder estudantil da JNU de Delhi, Umar Khalid, sofreu uma tentativa de assassinato, quando ia participar de uma conferência. Este estudante já havia sido preso em fevereiro de 2017, acusado de “sedição” por protestos na Universidade. E em 28 de agosto de 2018, os advogados Arun Ferreira e Sudha Bharadwaj, o poeta e intelectual Varavara Rao, o defensor dos direitos humanos e intelectuais Gautam Navlakha e o ativista de direitos humanos Vernon Gonsalves também foram detidos.

 

Em vista desses fatos, é bastante evidente que os ataques que estão ocorrendo na Índia contra a “dissidência política” fazem parte das práticas sociais genocidas promovidas pelo governo em seu plano para eliminar a “parte rebelde” da população. Ou melhor, aqueles que resistem e praticam outra maneira de olhar as relações sociais e econômicas. É a guerra de classes aplicada em sua fase superior, o genocídio (Naya, 2018).

 

Escrito por Adolfo Naya Fernandez, antropólogo social e sindicalista, autor do livro Operação “Caçada Verde” na Índia: As práticas sociais genocidas da estratégia de contra-insurgência “Corações e Mentes”. Editorial da ONU.

 

Traduzido por F. Fernandes

 

Referências

Bauman, Zygmunt (2016) Modernidad y Holocausto. Madrid: Ediciones Sequitur.

Celeski, Joseph D. (2010) Hunter-Killer Teams:Attacking EnemySafe Havens. Florida: The JSOU Press Hurlburt Field.

González Calleja, Eduardo (2002) La violencia en la política: perspectivas teóricas sobre el empleo deliberado de la fuerza en los conflictos de poder. Editorial CSIC.

Naya Fernandez, Adolfo (2018) Operación “Cacería Verde” en la India: Las prácticas sociales genocidas de la estratexgia de contrainsurgencia “Corazones y Mentes”. UNO Editorial.

 

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