Huey P Newton: "Em defesa da autodefesa"

15/10/2018

 

Devemos entender que existe uma diferença entre a rebelião dos anarquistas e a revolução ou libertação negra da colônia negra.

 

Se trata de uma sociedade de classes, e sempre foi. Esta sociedade de classes reacionária combate os indivíduos, não apenas em termos de seus empregos, mas também no que tange sua auto-expressão, mobilidade, e a liberdade de fazer qualquer coisa que queiram fazer.

 

A sociedade de classes evita isto. É verdadeiro não apenas para a massa da classe dominada ou subjugada. Também é verdade dentro da classe dominante. Esta classe também restringe a liberdade da essência humana das pessoas que compreendem a classe dominante.

 

Nos EUA, temos não apenas uma sociedade de classes, temos também um sistema de castas e o povo negro se encaixa na casta inferior. Eles não têm mobilidade para subir na escala social. Não tem privilégios para entrar na estrutura dominante de maneira nenhuma.

 

Dentro da classe dominantes, eles estão se negando (resistindo?), porque o povo descobriu que estão completamente submetidos à vontade da administração e aos manipuladores. Isto traz um fenômeno muito estranho para os Estados Unido, ou seja, muitos dos estudantes brancos e dos anarquistas revoltosos são filhos desta classe dominante; certamente a maior parte deles possuem um padrão de vida de classe média e alguns deles até mesmo de classe alta. Eles enxergam o jugo ao qual estão submetidos, e agora estão lutando, assim como todos homens lutam, para obter a liberdade de sua essência, liberdade de expressão, e liberdade de movimento sem as restrições artificiais dos valores antigos.

 

Negros e povos de cor nos EUA confinados dentro do sistema de castas, são discriminados contra todo um grupo de pessoas. Não é uma questão de liberdade individual como é para os filhos das classes altas. Não chegamos ao ponto de tentar nos libertar individualmente porque nós somos dominados e oprimidos enquanto coletivo.

 

Parte do povo deste país - que é uma grande parte - é parte da própria juventude. Mas eles não estão fazendo isto coletivamente porque coletivamente eles já são livres em alguma medida. O problema deles não é de fato um problema de grupo porque eles podem facilmente se integrar à estrutura. Potencialmente, eles são mais capazes em termos de mobilidade na escala social para fazer isto: eles são os instruídos, o “futuro do país”, e etc. Eles podem realmente ganhar certas parcelas do poder sobre a sociedade ao se integrarem no círculo dirigente.

 

Mas eles que mesmo dentro do círculo dominante, ainda existem antigos valores que não respeitam o desenvolvimento do indivíduo. Se encontram subjugados. Não importa qual classe eles sejam, se encontram subjugados por conta da natureza desta sociedade de classes. Então a sua luta é para libertar a essência do indivíduo.

 

Isto nos traz outro problema. Eles estão sendo submetidos a uma fonte alienígena que não tem interesse na liberdade de expressão individual. Eles querem fugir disso, superar isso, mas não enxergam nenhuma necessidade de formar uma estrutura ou um movimento real, de vanguarda disciplinado. Alegam que, ao estabelecerem uma organização disciplinada, eles sentem que estariam substituindo a velha estrutura com outras formas de opressão. Eles temem que estariam dirigindo o povo, e, portanto, restringindo o indivíduo novamente.

 

Mas o que eles não entendem, ou parece que não entendem, é que enquanto o complexo industrial-militar existir, a estrutura de opressão ao indivíduo persiste. Um indivíduo estaria ameaçado mesmo se conseguisse conquistar a liberdade que está buscando. Ele estará ameaçado porque existirá um grupo menor organizado pronto para arrancar sua liberdade individual a qualquer momento.

 

Em Cuba, tiveram uma revolução, eles tinham um grupo de vanguarda que era um grupo disciplinado, e perceberam que o Estado não irá desaparecer até que o Imperialismo desapareça por completo, estruturalmente e também filosoficamente, ou o pensamento burguês não será transformado. Uma vez que o Imperialismo desaparece, eles podem ter seu Estado comunista e o Estado ou fronteiras territoriais desaparecerão.

 

Neste país, os anarquistas parecem sentir que se eles apenas se expressarem individualmente e tenderem a ignorar as opressões contra eles, sem liderança e sem disciplina, eles podem se opor ao organizado e disciplinado Estado reacionário. Isto é falso. Eles serão oprimidos enquanto o Imperialismo existir. Você não pode se opor a um sistema como este sem se opor a ele com uma organização que seja ainda mais extremamente disciplinada e abnegada do que a estrutura que se está se opondo.

 

Eu posso entender os anarquistas querendo ir diretamente do Estado para o não-Estado, mas historicamente isso é incorreto. Até onde sei, pensando na recente rebelião francesa, a razão pela qual o levante francês falhou foi simplesmente porque os anarquistas no país, que por definição não tinham organização, não tinha pessoas que fossem confiáveis o bastante, ao menos no que tange as massas do povo, para substituir De Gaulle e seu governo. Agora, o povo era cético com relação ao Partido Comunista e os outros partidos progressistas porque eles não estavam ao lado do povo em geral. Eles ficaram aquém do povo, então perderam o respeito do povo e este enxergou como referência e direção os estudantes e anarquistas.

 

Mas os anarquistas eram incapazes de oferecer um programa estrutural para substituir o governo de De Gaulle. Então o povo foi obrigado a se voltar para De Gaulle. Não foi culpa do povo; foi culpa de Cohn-Bendit e de todos os outros anarquistas que achavam que poderiam simplesmente ir do Estado para o não-Estado.

 

Neste país – voltando para cá agora –, podemos nos aliar aos estudantes revolucionários. Tentaríamos encorajá-los e os persuadir a se organizar e organizar uma ferramenta de corte bem afiado.

 

A fim de fazer isto, eles teriam de ser disciplinados e teriam ao menos alguma substituição filosófica do sistema. Isto não quer dizer que apenas isto em si irá libertar o indivíduo. O indivíduo não será livre até que o Estado não mais exista, e eu penso - e não quero ser redundante - que isto não pode ser feito pelos anarquistas de imediato.

 

No que tange nós negros, não estamos presos em tentativas de atualizar ou expressar nossas almas individuais porque somos oprimidos não enquanto indivíduos, mas enquanto todo um coletivo, enquanto povo. Nossa evolução, ou a nossa libertação, se baseia primeiro em libertar nosso coletivo, libertar nosso coletivo a uma certa medida. Depois de ganharmos nossa libertação, nosso povo não será livre. Eu posso imaginar no futuro que os negros irão se rebelar contra a liderança organizada que os próprios negros estruturaram. Enxergarão o entravamento a seu desenvolvimento enquanto indivíduos, e sua liberdade de expressão. Mas isso apenas depois que se tornarem livres no âmbito coletivo.

 

É isto que faz o nosso grupo diferente daqueles dos anarquistas brancos - apesar de suas visões de que o grupo deles já é livre. Agora estão lutando pela sua própria liberdade individual. Esta é a grande diferença. Não estamos lutando pelas nossas liberdades individuais, estamos lutando por uma liberdade coletiva. No futuro, provavelmente haverá uma rebelião onde os negros irão falar, “Bem, a nossa liderança está restringindo a nossa liberdade por conta da rígida disciplina. Agora que conquistamos nossa liberdade, iremos lutar por nossa liberdade individualista que nada tem a ver com Estado ou grupo organizado”. E o grupo será desmantelado, e deve ser.

 

Mas neste momento, enfatizamos a disciplina, enfatizamos a organização, não defendemos drogas psicodélicas e todas outras coisas que tem a ver apenas com a expansão individual da mente. Estamos tentando ganhar a real libertação de um grupo de pessoas, e isto faz a nossa luta em alguma medida diferente da dos brancos.

 

Agora, o que tem de convergente? Existem semelhanças no fato que ambos de nós estamos lutando por liberdade. Eles não serão livres - os brancos anarquistas não serão livres - até que nós estejamos livres, o que na verdade faz de nossa luta a luta deles. Os imperialistas e o sistema capitalista burocrático não daria a eles liberdade individual enquanto eles mantêm todo um grupo oprimido enquanto tal baseado na raça ou na cor. Como eles podem esperar conseguir liberdade individual enquanto o Imperialismo oprime nações inteiras?  Enquanto não conquistarmos a libertação enquanto coletivo, eles não ganharam nenhuma libertação enquanto indivíduos. Então isso faz de nossa luta a mesma, e devemos manter isso em perspectiva e sempre ver as semelhanças e as diferenças nelas.

 

Existe uma enorme diferença nela, e há uma certa parcela de semelhanças nos dois casos. Ambos lutam por liberdade e lutam pela libertação de seu povo, apenas um está mais livre que o outro. Os anarquistas estão uma etapa a frente, mas apenas em teoria. Sobre a exatidão das condições, eles não deveriam estar a frente porque deveriam enxergar a necessidade da derrubada d a estrutura imperialista por grupos organizados assim como devemos estar organizados.

 

 

por Huey P. Newton, publicado no The Black Panther, 16 de novembro de 1968

 

Tradução de Gabriel Duccini

 

Please reload

Leia também...

Ilusões de Marcelo Freixo sobre a “unidade da esquerda” nas eleições de 2020

26/05/2020

"Lenin e África"

26/05/2020

"A União da Juventude Operária deve ser uma escola do socialismo"

25/05/2020

Repressão política e social na Coreia do sul ocupada

25/05/2020

1/3
Please reload

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube