Trump coloca o Brasil na mira

09/10/2018

 

O imperialismo é um tigre de papel, nos diz Mao Tsé-tung. Essa assertiva certamente é verdadeira e a ascensão de governos de recortes fascistas em diversos países centrais do capitalismo global é um indício disso. Por trás de bufões nazicômicos como Trump (e Bolsonaro, sua imitação “brasileira”), existe sempre toda uma sorte de empresários, banqueiros e fazendeiros milionários escandalizados com a queda de suas taxas de lucro; assustados com a possibilidade das coisas saírem do seu controle; e sedentos por um governante que esteja disposto a cometer todas as barbáries que a imaginação sádica desses senhores possam conceber contra as populações trabalhadoras de todo o mundo. Como nos disse Brecht “não há nada mais parecido com um fascista do que um burguês assustado”.

 

Porém, voltando às lições deixadas pelos revolucionários do passado, muito importantes de serem retomadas em momentos radicais como o que vivemos, veremos que os imperialistas também devem ser tomados taticamente como tigres verdadeiros, ou seja, como inimigos poderosos e necessariamente violentos contra os interesses das massas trabalhadoras. As “soluções” que este sujeito apresenta sempre significam violência e penúria para as populações afetadas. Na política de Donald Trump, os interesses econômicos das multinacionais norte-americanas devem sobrepujar não apenas as leis nacionais e interesses locais, mas também todo tipo de legislação internacional e até mesmo quaisquer restrições morais. É uma política ultra chauvinista, em que a “América” (ou os interesses econômicos de suas elites) está acima de tudo e em detrimento de todos.

 

Assim, como não poderia deixar de ser, a política imperialista à la Trump baseia-se na chantagem e/ou violência diplomática, econômica e militar. Diplomaticamente, é um governo que apresenta desprezo pelos órgãos e legislações internacionais e multilaterais. Ainda que todos esses órgãos (como Organização das Nações Unidas, Organização Mundial do Comércio, etc.) tenham servido de vetores da hegemonia norte-americana nos últimos anos, eles começam a ser descartados, uma vez que nestes espaços a hegemonia é mais ou menos compartilhada com outras nações imperialistas e seus termos começam a ser considerados insustentáveis em momentos de crise. Economicamente, Trump impõe sanções econômicas contra os inimigos, fala grosso para renegociar termos de acordos econômicos em favor do exclusivismo estadunidense e impulsiona uma grande guerra comercial contra seus vassalos, inimigos e até mesmo aliados. E militarmente, é um governo que não deixou de financiar massacres, incitar o golpismo pelo mundo, expandir suas bases militares e chegou a atacar com artilharia de mísseis um país soberano como a Síria.

 

Agora, tudo isso volta-se contra o Brasil. Depois de falar grosso com o Canadá e o México para forçar-lhes novos termos nas relações comerciais, Trump aponta que o Brasil é o próximo alvo. Em entrevista coletiva na Casa Branca nesta segunda-feira (01/10), o presidente estadunidense criticou fortemente as relações comerciais de seu país com o Brasil, mesmo sem ser perguntado diretamente sobre isso. Ele afirmou que “se você perguntar a algumas empresas, eles dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro”, insinuando sobre uma carga tributária elevada e um suposto “protecionismo econômico” brasileiro. Em suma, está transmitindo o sentimento de certa elite estadunidense que ainda considera insuficientes as condições de acumulação e pilhagem de riqueza em nosso país. Ao mesmo tempo, transmite a mensagem de que buscará negociações bilaterais para renegociar as relações econômicas e comerciais em favor dos Estados Unidos. Nessas “tenebrosas transações”, a chantagem e a pressão serão as armas utilizadas; as subservientes classes dominantes brasileiras, os fiadores.

 

Para evidenciar a hipocrisia da fala de Trump, apenas diremos rapidamente que as balanças comerciais entre Brasil e Estados Unidos nos últimos anos foram constantemente superavitárias para este último, em um momento em que os estadunidenses acumulam déficits com praticamente todo o mundo. Apenas isso já advogaria contra as supostas “dificuldades” das empresas norte-americanas que negociam ou estão presentes em nosso país. Além disso, estamos nos atendo apenas ao aspecto comercial, sendo que do ponto de vista financeiro, o Brasil sempre foi e continua sendo um paraíso especulativo, com juros acima das nuvens e outras facilidades para o capital estrangeiro parasitar a vontade. Mesmo assim, a guerra comercial do império volta-se contra nós. As sobretaxações e imposições de cotas ao aço e alumínio brasileiro impostas este ano, medidas unilaterais que destroem empregos e aumentam a pobreza em nosso país, foram apenas o prelúdio de muitos outros ataques que virão.

 

A subserviência das classes dominantes brasileiras ao capital estadunidense é antiga e possui profundas raízes na história de nossa nação. A postura dos industriais brasileiros do aço diante das medidas unilaterais impostas pelos Estados Unidos foi ilustrativa neste sentido. O presidente do Instituto do Aço Brasil, entidade que representa os industriais do setor, Marco Polo de Mello Lopes, afirmou para a revista Valor Econômico que os americanos disseram que era “pegar ou largar”, se referindo às cotas que limitam a exportação de aço brasileiro para aquele mercado, que os industriais brasileiros deveriam aceitar, caso contrário, teriam que amargar uma sobretaxa de 25% sobre suas exportações. Esses mesmos industriais, implacáveis com seus operários, como demonstraram ao promover e apoiar uma reforma trabalhista draconiana, parecem bastante dóceis com os norte-americanos. O mesmo Marco Polo disse que as imposições feitas “não são de todo ruim” e que eles lidaram com isso entre eles com “um acordo de cavalheiros”.

 

Tudo indica que existe a intenção de intensificar ainda mais a exploração de nossos trabalhadores e riquezas naturais, bem como estrangular ainda mais a indústria brasileira. Foi a insistente crise econômica do imperialismo mundial que colocou essa necessidade na ordem do dia; é essa crise que deixa os burgueses assustados, correndo atrás mais uma vez das cadelas do fascismo, que também sabemos desde Brecht, estão sempre no cio. Essa mesma lógica pode explicar boa parte das mudanças políticas que aconteceram em nosso país nos últimos anos. O impeachment de Dilma Rousseff e o processo de Golpe de Estado que se iniciou desde então foi o meio encontrado pelas classes dominantes brasileiras e monopólios estrangeiros aqui instalados para solucionar seus próprios impasses causados pela crise. O caminho fascista que o golpe está tomando, neste sentido, também não é surpreendente.

 

Enquanto boa parte de nosso país e as principais organizações de esquerda estão inebriadas por um espetáculo eleitoral de baixíssimo nível, que coleciona mais abusos e arbitrariedades do que todos os outros pleitos do período da “redemocratização”, os norte-americanos se preparam para impor uma agenda econômica e social ainda mais brutal do que a que vinha sendo aplicada pelo governo Temer. Não temos motivos para duvidar que virá uma segunda parte do programa econômico, que começou a ser aplicado a partir do Golpe de Estado e que ainda não está concluído, podendo ser acompanhado de um aprofundamento repressivo no Estado brasileiro sem precedentes nas últimas décadas. Assim, preocupa-nos tanto a oportunidade criada para os militares brasileiros assumirem a responsabilidade por esta tarefa, quanto a inércia das forças que deveriam estar denunciando e preparando o povo para enfrentar as batalhas que se avizinham e que inevitavelmente acontecerão, independentemente de qualquer resultado eleitoral.

 

Nesse sentido, talvez a frase mais verdadeira que foi proferida nesse farsesco espetáculo eleitoral, foi de Ciro Gomes, referindo-se ao Partido dos Trabalhadores, quando disse que eles estariam “levando o povo brasileiro para dançar uma valsa na beira de um precipício”. Porém, para mantermos a coerência, teríamos que dizer que a frase é generalizável para todos que embarcaram nessas pérfidas eleições e não denunciam a gravidade da situação de nosso país, nem buscam preparar nosso povo para as duras batalhas que virão.

 

Escrito por. G. Nogueira

 

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