"A crise universitária: crises de professores e crises de ideias"

05/10/2018

 

A crise universitária: Crises de professores e crises de ideias

 

Novamente insurgem os estudantes. Uns voltam a recomendar a reforma universitária e outros a revolução universitária. Todos clamam novamente, confusos, porém com vivacidade, contra os métodos ruins e os professores ruins. Assistimos às preliminares de uma terceira agitação estudantil.

 

A primeira agitação, em 1919, livrou a Universidade de alguns professores que já não à serviam. Outra agitação estudantil, que mais tarde, manteve a Universidade temporariamente fechada originou outras mudanças no corpo docente. Agora, apenas apagados os ecos dessa agitação, inicia-se uma nova. O que isto quer dizer? Quer dizer simplesmente que as causas do mal-estar universitário não desapareceram. A equipe de professores foi aperfeiçoada mediana e incompletamente, reforçada hoje com alguns elementos jovens e exonerada de alguns elementos obsoletos e senis. No entanto a Universidade segue sendo substancialmente a mesma. A juventude tem de novo a sensação de frequentar uma Universidade enferma, uma Universidade petrificada, uma Universidade sombria, sem luz, sem saúde e sem oxigênio. A juventude – ao menos seus núcleos mais saudáveis e dinâmicos – sente que a Universidad de San Marcos é, nesta época de renovação mundial e de mundial inquietude ideológica, uma gélida, arcaica e anêmica academia, insensível as grandes emoções atuais da humanidade, desconectada das ideias que agitam presentemente ao mundo. Um discurso de Alfredo Palacios estimulou a sensibilidade estudantil, isso acendeu os mesmos anseios de reforma, semeou os mesmos germes de revolução que surgiram em 1919.

 

Outra vez, a juventude grita contra os métodos ruins, contra os professores ruins. Mas esses professores ruins podiam ser substituídos. Estes métodos ruins podiam ser melhorados. Nem por isso, a crise universitária cessaria. A crise é estrutural, espiritual, ideológica. A crise não se reduz aos professores ruins que existem. Consiste, principalmente, na falta de verdadeiros professores. Existem alguns professores estimados na Universidade, que ditam seus cursos astutamente e respeitosamente, mas, não há nem mesmo um professor da juventude, não há nenhum tipo de condutor, não há nenhuma voz profética, diretora, de um líder ou de um apóstolo. Um professor, não mais que um, bastaria para salvar a Universidad de San Marcos, para purificar e renovar seu ambiente enrijecido, mórbido e infecundo. As cidades bíblicas pecadoras ser perderam pela falta de cinco homens justos. A Universidad de San Marcos se perde pela falta de um professor.

 

Para manterem-se vivas, as universidades necessitam, que algum sopro criador fecunde suas aulas. Nas universidades europeias, ao mesmo tempo em que a ciência clássica é cuidadosamente armazenada e cultivada, a ciência do futuro é elaborada. A Alemanha tem professores universitários como Albert Einstein, como Oswald Spengler, como Nicolai, atualmente professor na Universidade de Córdoba. A Itália tem professores universitários como Enrique Leone, como Enrique Ferri. A Espanha tem professores universitários como Miguel de Unamuno, como Eugenio d’Ors, como Besteiro. Na Hispano-América também se tem professores com caráter revolucionário. Na Argentina, José Ingenieros, no México, José Vasconcelos e Antonio Caso. No Peru não temos nenhum professor semelhante, com suficiente audácia mental para somar-se as vozes avançadas do tempo, com suficiente temperamento apostólico para filiar-se a uma ideologia renovadora e combativa. A Universidad de Lima é uma universidade estática. É um centro medíocre da cultura burguesa linfática e puritana. É um mostruário de ideias mortas. As ideias, as inquietudes, as paixões que comovem outras universidades, não ecoam aqui. Os problemas, as preocupações, as angústias deste momento dramático da história humana não existem para a Universidad de San Marcos. Quem está vulgarizando o relativismo contemporâneo nesta universidade deletéria e maléfica? Quem orienta aos estudantes no labirinto da nova física e da nova metafísica? Quem estuda a crise mundial, suas raízes, suas fases, seus horizontes e seus intérpretes? Quem explica os problemas políticos, econômicos e sociais da sociedade contemporânea? Quem comenta a moderna literatura política revolucionária, reacionária ou reformista? Quem na ordem educacional, fala da obra construtiva de Lunatcharsky ou Vasconcellos? Nossos docentes parecem sem contato, sem comunicação com a atualidade europeia e americana. Parecem viver a margem dos novos tempos, parecem ignorar seus teóricos, seus pensadores e seus críticos. Talvez alguns se acham mais ou menos bem conscientes, mais ou menos bem informados. Mas, neste caso, a investigação não suscita neles inquietudes. Neste caso, a atualidade mundial os deixa indiferentes. Neste caso, a juventude tem sempre o direito de acusá-los de insensíveis e de impermeáveis.

 

Nossos professores não se preocupam mais, ostensivamente, com a literatura de seu curso. Seu vôo mental, geralmente, não vai além das áreas rotineiras de sua cadeira. São homens tubulares, como diria Victor Maúrtua; não são homens panorâmicos. Não existe, entre eles, nenhum revolucionário, nenhum renovador. Todos são conservadores definidos ou potenciais conservadores, reacionários ativos ou reacionários latentes, que, na politica doméstica, suspiram impotentes e nostalgicamente pela velha ordem das coisas. Mentalidades de medíocres advogados, cunhada nos alvéolos ideológicos do civilismos; temperamentos burocráticos, sem asas e sem vértebras, organicamente limitados, acomodados nas poltronas; espíritos de classe média, grampeados, esnobes, limitados e desertos, sem grandes ambições nem grandes ideais, forjados para o horizonte burguês de uma vaga na Corte Suprema, de um plenipotenciário ou de um alto cargo de consultor sênior em uma empresa capitalista. Estes intelectuais sem alta afiliação ideológica, apaixonados pelas tendências aristocráticas e de doutrinas elitistas, acariciados com minúsculas reformas e por pequenos ideais burocráticos, estes advogados, clientes e comensais do civilismo e da plutocracia, tem um estigma pior que o do analfabetismo; tem o estigma da mediocridade. São os intelectuais do panteão como falou o doutor John Mackay numa conferência. Ao lado desta gente cética, desta gente negativa, com fobia do povo e fobia da multidão, maníacos do esteticismo e do decadentismo, confinado no estudo da história escrita das ideias passadas, os jovens sentem-se naturalmente órfãos por professores e órfãos de ideias.

 

Em dois professores peruanos - Víctor M. Maúrtua e Mariano H. Cornejo - notei um contato vívido e abrangente com as coisas contemporâneas, com problemas atuais, com os homens do tempo. Ambos os professores, difamando sua dissimilaridade, são sem dúvida as figuras mais inquietas, modernas e luminosas, embora incompletas, de nossa universidade opaca, mas ambos, andam fora dela.

 

No cortejo de trabalhadores e estudantes do 25 de maio, o reitor e os professores de San Marcos, que marchavam com a juventude e o povo, não eram seus condutores, mas seus prisioneiros. Não eram seus líderes, eram seus reféns. Não acaudilhavam a multidão; a escoltavam. Eles estavam cheios de apreensão, relutância, medo, descontentes e, em alguns casos, "assustados".

 

Diante deste triste panorama universitário a frase justa não é: “falta juventude estudantil”; a frase justa é: “faltam professores, faltam ideias”. Em alguns setores da juventude estudantil, há sintomas de inquietude, ainda que de forma vaga e desconectada, mas, são reflexos da grande emoção contemporânea. Alguns núcleos da juventude são sensíveis e permeáveis às ideias de hoje. Um sinal deste estado de ânimo é a Universidade Popular. Outro sinal é o acorde de vibração revolucionária de alguns intelectuais jovens que se preparam para fundar entre nós o grupo “Claridad”. A planície é preenchida com novos brotos. Apenas os cumes são nus e estéreis, calvos e desertos, mal cobertos pela grama anêmica de uma cultura acadêmica pobre.

 

E esta é a crise da Universidade. Crise de professores e crise de ideias. Uma reforma limitada a acabar com as listas ou a extirpar um professor inepto ou estúpido, seria uma reforma superficial. As raízes do mal continuariam vivas, e prontamente renasceria este descontentamento, esta agitação, esta ansiedade de corrigir, que toca epidermicamente o problema, sem desflorá-lo e sem penetrá-lo.

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Nota

[1] Publicado na Revista Claridad, Ano I, Nº 2, pag. 3 e 4, precedido pela seguinte nota de redação: “Eis aqui um brilhante artigo que a Claridad recebe como premissa orgulhosa do novo espirito de nossa intelectualidade livre. José Carlos Mariátegui, expressa nestas linhas vibrantes o pensamento de toda uma geração. Nos solidarizamos amplamente com ele e nos colocamos entusiastas da honrosa responsabilidade de suas palavras em que uma bela invocação da juventude bate à porta. A voz de uma das nossas mais fortes mentalidades não universitárias ressoará na lapidária da velha casa de San Marcos.

 

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