"Acerca da atualidade da Revolução Naxalita na Índia"

25/09/2018

 

O deslocamento de setores industriais ocidentais provocada pela expansão das forças produtivas capitalistas converteram as zonas geográficas do sul da China, o Sudeste asiático e o subcontinente indiano nos principais focos de trabalho industrial do mundo. Estamos falando de uma série de países que em termos de população superam conjuntamente dois bilhões de pessoas e onde as camadas proletárias e camponesas superam 80% do total da sociedade. Desses 80% estima-se que aproximadamente 60% estão afundados na mais absoluta miséria à mercê das enfermidades e da morte com uma renda média de menos de meio euro ao dia [1].

 

Diante de uns países ocidentais onde o conflito capital-trabalho tornou-se turvo devido a aparição de serviços e o Estado de bem-estar social, estaríamos falando de uma ampla região do mundo que engloba um terço da população mundial com um grande potencial revolucionário. São países com uma alta exportação de produtos manufaturados fabricados por enormes massas de mão de obra barata mergulhada na exploração e na semiescravidão. Extensas zonas de indústria de tecidos do mundo onde o trabalho forçado e a extração de mais-valia podem ser identificados exatamente com as descrições e análises que fez Marx do capitalismo na Inglaterra do século XIX.

 

Ao longo da Guerra Fria, já se pôde vislumbrar a tremenda força do poder operário que reside na região e que conseguiu realizar inúmeros eventos emancipatórios organizados. Referimo-nos em primeiro lugar a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã e a República Popular Democrática do Laos. Três países que mesmo não se encaixando dentro da definição de socialismo ao estilo soviético, seguem apostando hoje em dia em um forte reformismo de mercado. Em um segundo plano, situaríamos o resto de expressões de luta operária materializadas em guerrilhas em sua maioria de caráter maoísta que participaram nos processos de descolonização de seus respectivos países. Malásia Filipinas, Indonésia, Bangladesh, Sri Lanka ou Myanmar são alguns dos exemplos de processos revolucionários que não chegaram a tomar o poder, mas que contribuíram enormemente para a independência e para a luta pelas conquistas sociais na região. Hoje em dia seguem existindo restos destes partidos, movimentos e guerrilhas que seguem apostando na organização operária e na guerra popular neste foco de poder global, mas no momento somente três estão conseguindo concretizar sua proposta revolucionária. Falamos do Partido Comunista das Filipinas [2], do amálgama de Partidos Comunistas do Nepal com suas viragens reformistas [3] e dos Naxalitas na Índia.

 

Os Naxalitas levam a cabo uma batalha contra o velho Estado da Índia desde a insurgência de Naxalbari (Bengala Ocidental) em 1967. Atualmente quem se destaca como referência política organizada do levante popular é o Partido Comunista da Índia (Maoísta), fundado em 2004, fruto da união de numerosos movimentos e guerrilhas que compartilham a causa revolucionária naxalita. Não podemos esquecer da complexidade política pelo amálgama de siglas que possui a questão indiana, além da dificuldade de acesso à informação em um território tão amplo, diverso e relativamente incomunicável como é a Ásia Meridional. Estima-se que no conflito bélico participam pelo menos 180 guerrilhas entre revolucionários de inspiração marxista, grupos terroristas reacionários ou governistas, milícias indígenas e grupos religiosos.

 

A insurgência naxalita é presente em 14 das 28 províncias da Índia. O próprio governo reconheceu que dos 602 distritos do país, existem 182 que estão sob controle total dos comunistas nos quais não entram nenhum tipo de forças de ordem do Estado. Ainda que a maioria das províncias onde os Naxalitas estão presentes possuam um perfil agrário ou de grandes extensões de selvas (Andhra Pradesh, Asma, Bengala Ocidental, Bihar, Chhattisgarh, Gujarat, Jharkhand, Kerala, Madhya Pradesh, Maharashtra, Orissa, Uttar Pradesh, Uttaranchal e Tamil Nadu) estaríamos falando de uma região de centenas de milhões de habitantes onde está se formando uma nova forma de poder sob a organização de classe e as teses do marxismo em sua corrente maoísta. Nos últimos anos, a expansão da ideia revolucionária naxalita tem chegado nas zonas puramente industriais e nas periferias das grandes cidades. Em Bombay, Jammu, Nova Délhi, Pune e Raipur já existe movimento organizado que combina ações de propaganda de conscientização com a guerrilha isolada contra os poderes do Estado.

 

A estratégia do P.C.I. (Maoísta) tem estado marcada pela acumulação de forças no Exército Guerrilheiro Popular (E.G.P.), que é seu braço armado, com o desenvolvimento da luta armada e da luta de duas linhas diante da burguesia por um lado, e os possíveis desvios reformistas e revisionistas do Partido por outro. De todas as formas a participação de grupos não marxistas no E.G.P. é habitual, assim como a presença de numerosos membros de camadas sociais não estritamente proletárias ou operárias, como o campesinato, a pequena-média burguesia, intelectuais e inclusive grupos religiosos. Todos eles, isso sim, devem responder a bandeira do pensamento Mao Tse-tung e estarem dispostos a lutar contra a ordem de classes e o sistema de castas. A raiz dessa doutrina tem produzido inúmeros enfrentamentos armados entre o E.G.P. e representantes políticos da Frente de Esquerdas, coalizão dirigida pelo Partido Comunista da Índia originário que como tantos outros sofreram uma clara “direitização” na segunda metade do século XX, substituindo a organização popular pelo eleitoralismo.

 

A esquerda moderada parlamentar da Índia tem atacado e criminalizado a insurgência naxalita em diversas ocasiões pela sua atitude radical e violenta diante as forças socialdemocratas do país. Os naxalitas, por sua vez, consideram a Frente de Esquerdas tão nociva quanto os próprios poderes da burguesia, já que consideram que esta engana o povo trabalhador indiano sob a bandeira do falso marxismo. Um exemplo das acusações dos naxalitas está no apoio da Frente de Esquerdas às Zonas Econômicas Especiais.

 

Precisamente é nas Zonas Econômicas Especiais onde é situado um dos focos principais de luta operária e camponesa da Índia dos últimos dez anos. Estaríamos falando de extensas áreas territoriais com um caráter tributário especial, onde as empresas, quase em sua totalidade estrangeiras, disfrutam de privilégios fiscais e econômicos livres de uma regulação de um Estado que possa garantir direitos trabalhistas ou sociais. O governo indiano prevê aumentar exponencialmente a produtividade e atrair empresas e capitais através destas medidas que favorecem a exploração de seu próprio povo. O P.C.I. (Maoísta), ao contrário da Frente de Esquerdas parlamentar, se opõe resolutamente a estas políticas que legitimam a opressão da classe trabalhadora indiana.

 

Apesar do esforço contrarrevolucionário dos poderes do atual Estado burguês da Índia, tanto em sua forma fascista como em sua forma reformista, os Naxalitas seguem hoje em dia avançando suas posições por todo o país construindo uma edificação revolucionária de amplas e rígidas bases. A própria C.I.A. está vendo como o grupo terrorista paramilitar Salwa Judum, criado em 2005, está fracassando e perdendo suas posições em muitos territórios onde a consciência de classe avança firmemente. As atividades terroristas em conjunto com as fortes campanhas propagandísticas resultaram em um Estado policial permanente nas áreas adjacentes ao conflito, devido ao medo do governo de perder mais territórios.

 

Veremos no futuro se as aspirações revolucionárias dos Naxalitas se materializam em algum tipo de Estado operário ou socialista (se não em toda a Índia, em uma parte de suas regiões), ou pelo contrário, acabam em uma tentativa frustrada como tantas outras experiências guerrilheiras do Sudeste asiático.

 

Notas

[1]https://es.wikipedia.org/wiki/Anexo:Pa%C3%ADses_por_porcentaje_de_poblaci%C3%B3n_debajo_de_la_l%C3%ADnea_de_pobreza

[2] José Maria Sison, fundador, Presidente do Partido Comunista das Filipinas. Fragmentos de seu discurso no fórum patrocinado pela Associação de Estudantes Iranianos, em fevereiro de 1995, em Utrecht, na Holanda.

http://fusilablealamanecer.blogspot.com.es/2014/01/la-revolucion-en-filipinas-y-la-vuelta.html, 

http://revolucioncultural-p.blogspot.com.es/2012/09/reportaje-de-una-guerra-popular-partido.html

[3] http://www.revcom.us/a/1238/nepal_s.htm

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=72491

http://kasamaproject.org/2010/03/17/new-pamphlet-from-new-zealand-revolution-in-nepal/ 

 

 

Por Arturo C. Fernández-Le Gal

Traduzido por I.G.D

 

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